PENITÊNCIA DAS RELAÇÕES

Rodrigo Fernandes

Rodrigo Fernandes

Necessário seja o silêncio que embarga a minha voz, necessário seja o silêncio que ingressa a minha alma sem ser convidado – a fim de retratar a minha angústia diante das representações efêmeras. Dedico-me aos momentos aleatórios da minha própria representação; quando de repente, – faço-me refém dos murmúrios festivos, mesmo sabendo que a reflexão alheia invadirá a doce lembrança de um dia ter sido fonte de um investimento libidinal.

Custa-me amadurecer uma vez que a arte não se faz presente como paliativo existencial e eu me valha desta medíocre falta a fim de justificar a minha fraqueza diante do acaso. Bendito seja o meu orgulho fortuito que me enfraquece diante das representações destinadas ao fracasso, bendita seja a encorpadura das representações mundanas vazias em essência…

Fugir de mim mesmo quiçá não seja a solução da minha própria condição e, Arthur Schopenhauer, dirá que o maior delito do homem é ter nascido uma vez que à vida é uma grande brincadeira de mau gosto.

Deixo-me sucumbir pelas memórias no momento em que o desdém se faz presente sob o embalo fracassado do placebo barato. Submeto-me às raízes de uma memória ardente em chamas e intensa de desejos controversos.

 A força de um ato destrutivo conflituoso desembravecerá na medida em que a passos lentos eu me faça digno da armadilha deselegante e desdenhosa de meu estado natural. A irracionalidade me levou ao extremo e de lá não consigo ausentar-me uma vez que percebo o quão prejudicial é a brandura representativa daqueles que se valeram da minha boa fé e, por fim, entregar-me-ei ao silêncio de minhas vozes que doravante encontrarão refúgio no destino.

Prematura seja a minha artimanha frente aos obstáculos do destino que por ventura encontram-se na iminência da necessidade instintiva; necessidade esta potencializada pelo condicionamento promiscuo de outrem.

 

RODRIGO FERNANDES – MARÇO/2009

 

OUSADIA

“Seja qual for seu sonho, comece.
Ousadia tem genialidade, poder e magia.”

Johann Wolfgang Goethe (1749-1832)

Então, falam tanto em crise, as pessoas estão endividadas, muitas nem dormem, muitas choram, se lamentam, fazem promessas, reclamam dos santos, xingam os políticos, e em grande maioria, nada fazem além de esperar , seja um milagre ou uma solução do além.

Crise é oportunidade para sair do lugar comum.

Ford percorreu vários bancos para obter um financiamento, para construir a sua linha de montagem sofreu humilhações, foi ridicularizado, ouviu tantos “não” que se fosse outro, desistiria e talvez você estivesse andando de carroça até hoje.
Santos Dumont quase morreu tentando levantar vôo, quebrou peças e costelas e não desistiu até contornar a Torre Eifel.

Dona Maria das Caçarolas, quase passou fome ao ser demitida, sem estudos, sem conhecimento de economia, montou uma barraca na rua, começou vendendo as próprias panelas de casa, hoje tem uma rede de lojas de “Houseware”.

Crise?

Tire o “s” e terá a solução imediata para os seus problemas: CRIE!

O mundo está cheio de oportunidades, não olhe para o chão, olhe para o mundo, encare a situação, perceba onde as pessoas precisam de alguma coisa nova, seja a inovação, até mesmo em coisas antigas.

Reinvente-se, tome coragem, seja ousado!

Faça um bolo e venda-o em pedaços, cate sucata e transforme em arte, limpe um gramado, crie um jardim.

Descruze os braços, pare com a choradeira, se é piedade que você quer dos outros, continue sofrendo, reclamando e falando mal do mundo.

Mas se você quer conquistar, quer sair dessa situação, você precisa só de uma coisa: BOM ÂNIMO!, DISPOSIÇÃO e muito trabalho, quando começar a conquistar, alguns vão dizer que é sorte, eu digo que é DIGNIDADE.

CRISE NUNCA MAIS, CRIE SEMPRE!

“Eu acredito em você”

MINUTO DE SABEDORIA – DALAI LAMA

DALAI LAMA

DALAI LAMA

Publicado em: on at 10:32 PM Deixe um comentário

ATO POLÍTICO

O Blog do Nassif publicou o bate-boca do Ministro Joaquim Barbosa com o Gilmar Mendes, e alguns comentaristas colocaram o e-mail do ministro Barbosa e do gabinete dele.

Vamos fazer uma pequena manifestação política ao nosso alcance? Mandar um email para o Ministro Barbosa parabenizando- o por ter dito o que milhares de brasileiros gostariam de dizer. Os e-mails são: mjbarbosa@stf. gov.br (dele) ou gabminjoaquim@stf.gov.br (do gabinete dele).

O link para o vídeo é http://www.youtube.com/watch?v=sIUdUsPM2WA

Se quiserem propagar isso pelos seus amigos, seria melhor ainda…

Um abraço.

“Não me assusta o grito dos violentos. O que me preocupa é o silêncio dos bons”  Reverendo Martin Luther King Jr.

POESIAS – PABLO NERUDA

Pablo Neruda

 

 

 

 

Querer

Não te quero senão porque te quero
E de querer-te a não querer-te chego
E de esperar-te quando não te espero
Passa meu coração do frio ao fogo.
Te quero só porque a ti te quero,
Te odeio sem fim, e odiando-te rogo,
E a medida de meu amor viageiro
É não ver-te e amar-te como um cego.
Talvez consumirá a luz de janeiro
Seu raio cruel, meu coração inteiro,
Roubando-me a chave do sossego.
Nesta história só eu morro
E morrerei de amor porque te quero,
Porque te quero, amor, a sangue e a fogo.

Pablo Neruda

Para meu coração teu peito basta,
para que sejas livre, minhas asas.
De minha boca chegará até o céu
o que era adormecido na tua alma.
Mora em ti a ilusão de cada dia
e chegas como o aljôfar às corolas.
Escavas o horizonte com tua ausência,
eternamente em fuga como as ondas.
Eu disse que cantavas entre vento
como os pinheiros cantam, e os mastros
Tu és como eles alta e taciturna.
Tens a pronta tristeza de uma viagem.
Acolhedora como um caminho antigo,
povoam-te ecos e vozes nostálgicas.
Despertei e por vezes emigram e fogem
pássaros que dormiam em tua alma.

Pablo Neruda

Já és minha. Repousa com teu sonho em meu sonho.
Amor, dor, trabalhos, devem dormir agora.
Gira a noite sobra suas invisíveis rodas
e junto a mim és pura como âmbar dormido.
Nenhuma mais, amor, dormirá com meus sonhos.
Irás, iremos juntos pelas águas do tempo.
Nenhuma mais viajará pela sombra comigo,
só tu, sempre-viva, sempre sol, sempre lua.
Já tuas mãos abriram os punhos delicados
e deixaram cair suaves sinais sem rumo,
teus olhos se fecharam como duas asas cinzas.
Enquanto eu sigo a água que levas e me leva:
a noite, o mundo, o vento enovelam seu destino,
e já não sou sem ti senão apenas teu sonho.

Antes de Amar-te…

Antes de amar-te, amor, nada era meu
Vacilei pelas ruas e as coisas:
Nada contava nem tinha nome:
O mundo era do ar que esperava.
E conheci salões cinzentos,
Túneis habitados pela lua,
Hangares cruéis que se despediam,
Perguntas que insistiam na areia.
Tudo estava vazio, morto e mudo,
Caído, abandonado e decaído,
Tudo era inalienavelmente alheio,
Tudo era dos outros e de ninguém,
Até que tua beleza e tua pobreza
De dádivas encheram o outono.

Walking Around

Acontece que me canso de meus pés e de minhas unhas,
do meu cabelo e até da minha sombra.
Acontece que me canso de ser homem.
Todavia, seria delicioso
assustar um notário com um lírio cortado
ou matar uma freira com um soco na orelha.
Seria belo
ir pelas ruas com uma faca verde
e aos gritos até morrer de frio.
Passeio calmamente, com olhos, com sapatos,
com fúria e esquecimento,
passo, atravesso escritórios e lojas ortopédicas,
e pátios onde há roupa pendurada num arame:
cuecas, toalhas e camisas que choram
lentas lágrimas sórdidas.

Publicado em: on 13/01/2009 at 10:08 PM Deixe um comentário
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POESIAS – CARLOS DRUMMOND DE ANDRADE

Carlos Drummond de Andrade

Carlos Drummond de Andrade

 

 

 

 

 

 

 

Inconfesso Desejo

Queria ter coragem
Para falar deste segredo
Queria poder declarar ao mundo
Este amor
Não me falta vontade
Não me falta desejo
Você é minha vontade
Meu maior desejo
Queria poder gritar
Esta loucura saudável
Que é estar em teus braços
Perdido pelos teus beijos
Sentindo-me louco de desejo
Queria recitar versos
Cantar aos quatros ventos
As palavras que brotam
Você é a inspiração
Minha motivação
Queria falar dos sonhos
Dizer os meus secretos desejos
Que é largar tudo
Para viver com você
Este inconfesso desejo

 

As Sem-razões do Amor

Eu te amo porque te amo.
Não precisas ser amante,
e nem sempre sabes sê-lo.
Eu te amo porque te amo.
Amor é estado de graça
e com amor não se paga.
Amor é dado de graça,
é semeado no vento,
na cachoeira, no eclipse.
Amor foge a dicionários
e a regulamentos vários.
Eu te amo porque não amo
bastante ou demais a mim.
Porque amor não se troca,
não se conjuga nem se ama.
Porque amor é amor a nada,
feliz e forte em si mesmo.
Amor é primo da morte,
e da morte vencedor,
por mais que o matem (e matam)
a cada instante de amor.

Ausência

 Por muito tempo achei que a ausência é falta.
E lastimava, ignorante, a falta.
Hoje não a lastimo.
Não há falta na ausência.
A ausência é um estar em mim.
E sinto-a, branca, tão pegada, aconchegada nos meus braços,
que rio e danço e invento exclamações alegres,
porque a ausência, essa ausência assimilada,
ninguém a rouba mais de mim.

Publicado em: on 10/12/2008 at 12:54 AM Deixe um comentário
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A ARTE DE SER FELIZ – CECÍLIA MEIRELES

Cecilia Meireles

Cecília Meireles

HOUVE um tempo em que a minha janela se abria para um chalé. Na ponta do chalé brilhava um grande ovo de louça azul. Nesse ovo costumava pousar um pombo branco. Ora, nos dias límpidos, quando o céu ficava da mesma cor do ovo de louça, o pombo parecia pousado no ar. Eu era criança, achava essa ilusão maravilhosa e sentia-me completamente feliz.

HOUVE um tempo em que a minha janela dava para um canal. No canal oscilava um barco. Um barco carregado de flores. Para onde iam aquelas flores? Quem as comprava? Em que jarra, em que sala, diante de quem brilhariam, na sua breve existência? E que mãos as tinham criado? E que pessoas iam sorrir de alegria ao recebê- las? Eu não era mais criança, porém a minha alma ficava completamente feliz.

HOUVE um tempo em que minha janela se abria para um terreiro, onde uma vasta mangueira alargava sua copa redonda. À sombra da árvore, numa esteira, passava quase todo o dia sentada uma mulher, cercada de crianças. E contava histórias. Eu não podia ouvir, da altura da janela; e mesmo que a ouvisse, não a entenderia, porque isso foi muito longe, num idioma difícil. Mas as crianças tinham tal expressão no rosto, a às vezes faziam com as mãos arabescos tão compreensíveis, que eu participava do auditório, imaginava os assuntos e suas peripécias e me sentia completamente feliz.

HOUVE um tempo em que a minha janela se abria sobre uma cidade que parecia feita de giz. Perto da janela havia um pequeno jardim seco. Era uma época de estiagem, de terra esfarelada, e o jardim parecia morto. Mas todas as manhãs vinha um pobre homem com um balde e em silêncio, ia atirando com a mão umas gotas de água sobre as plantas. Não era uma rega: era uma espécie de aspersão ritual, para que o jardim não morresse. E eu olhava para as plantas, para o homem, para as gotas de água que caíam de seus dedos magros e meu coração ficava completamente feliz.

MAS, quando falo dessas pequenas felicidades certas, que estão diante de cada janela, uns dizem que essas coisas não existem, outros que só existem diante das minhas janelas e outros, finalmente, que é preciso aprender a olhar, para poder vê-las assim.

Publicado em: on 09/12/2008 at 11:23 AM Deixe um comentário
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ANALYSIS OF A MIND – SIGMUND FREUD

GISELLE

 

Rodrigo Fernandes

Rodrigo Fernandes

 

 Trabalho apresentado por Rodrigo Fernandes do Curso de Psicologia da Universidade São Marcos – Novembro / 2008

  

INTRODUÇÃO

 

O presente artigo propõe-se a articular o enredo por meio de dois processos psíquicos básicos: Emoção e Sensação, que entrelaçarão os sentidos de forma subjetiva e estratégica. A inferência do disposto artigo – encontrará respaldo no amor; que propiciará ao leitor a conclusão articulada e reflexiva dos dispositivos sensoriais aqui propostos.

Nosso objeto de estudo será desenvolvido por meio de uma das mais puras jóias do ballet romântico: Giselle. Obra-prima absoluta do teatro de dança do Romantismo. A presente obra instrumentada pelo resplandecente autor Adolphe Adan, nos levará ao encontro da mais pura e inocente sensorialidade humana, que muitas vezes, torna-se invisível e sepultada pela opressão social que nos separa gradativamente do primor de nossos sentidos.

O Ballet Giselle estreou em 28 de Junho de 1841 na Ópera de Paris, iniciando, portanto, o cerne dos ideais românticos pelo emprego da mais refinada técnica teatral do século XIX. O poeta romântico Theophile Gautier é o autor do roteiro desse ballet inspirado por outro poeta, Heinrich Heine, que escreveu, em 1841,  para a bailarina que amava, Carlotta Grisi.  

 

PRIMEIRO ATO

 

Um quente raio de sol abre o dia. É época da vindima. Num canto, meio escondida entre a vegetação, encontra-se uma cabana de camponês humilde e simples. Ao longe, em cima do rochedo, vê-se umas destas habitações feudais, onde o Duque Albrecht, lá do alto, viu passar uma doce e charmosa criatura. É Giselle, filha de Berthe. Albrecht, apaixonado, veste-se de vindimador e vai morar em frente da cabana de Giselle.

Giselle acredita ser ele apenas um rapaz da vila chamado Loys e apaixona-se por ele. Amanhece e os camponeses partem para a vindima. Entra em cena Hilarion, o jovem guarda-caças da vila, que também está loucamente apaixonado por Giselle. Ele se dirige a casa dela e encontra com Berthe. O jovem Duque sai de sua cabana acompanhado de seu criado Wilfrid, que insiste para que Albrecht (Loys) não prosseguir com este namoro, mas ele persiste, pois está encantado e ordena a seu criado para deixá-lo. Loys aproxima-se da cabana de Giselle, bate na porta e se esconde. A porta se abre. É Giselle que sai ágil e alegre como todos os corações puros. Ela vai dançar, pois não dança desde ontem. Eles se encontram, mas Hilarion interrompe o idílio de Giselle, lembrando seu amor por ela. Mas Giselle, apaixonada por Loys, repele Hilarion e, juntando- se alegremente às suas amigas e companheiros, comemoram o fim da colheita de uvas. Berthe, sua mãe, sai a sua procura. Ao vê-la adverte, pois Giselle é frágil do coração. “A fadiga,  as emoções lhe serão fatais”:  Você acabará morrendo e irá se transformar em uma Willi e irá ao baile mágico onde levará os viajantes na ronda fatal. Você será uma vampira da dança. Assim, Giselle é forçada a entrar na cabana. Soam as trompas de caça e Wilfrid aparece para avisar ao seu senhor que um grupo de nobres se aproxima. Hilarion observa, e na primeira oportunidade, entra na cabana de Loys, a fim de desvendar o mistério que o cerca. O grupo de caça chega junto com o príncipe e sua filha Bathilde, noiva de Albretch  (Loys). O calor do dia os incomoda e procuram aquele lugar para descansar. Bathilde se encanta com a dança de Giselle e descobrindo que ela está comprometida e apaixonada, dá-lhe um colar de presente. Eles se retiram, o Príncipe ordena que deixem uma trompa para chamá-los em caso de necessidade. Isso faz com que Hilarion compare os brasões da trompa  com os da espada de Loys. Finalmente, tendo em mãos a oportunidade de desmascarar Loys, Hilarion espera o momento em que todos estão presentes e conta toda a verdade. Giselle não acredita. Hilarion, então, toca a trompa e aparece o Príncipe acompanhado de Bathilde. Loys, ( Albrecht), fica perplexo e confuso, mas quando Bathilde declara que Albrecht é seu noivo, o choque tira a razão de Giselle. Uma sombra de delírio a invade. É a loucura. Giselle, por um momento, revive seu amor por Loys, mas a dor é grande e tomado a espada, crava-a em seu peito.

 

SEGUNDO ATO

 

Soa a meia noite sob a terra fria da floresta. Lugar sinistro, de árvore com troncos torcidos e entrelaçados, que possui uma atmosfera de suspiros e lágrimas. É o lugar onde se passa o baile mágico de Willis. Elas são os espíritos das jovens que foram enganadas e morreram antes do dia do seu casamento. Elas se reúnem ali e obrigam jovens rapazes a dançar até a morte. É meia-noite, hora lúgubre, e Hilarion está ali de vigília na sepultura de Giselle. Surge uma sombra transparente e pálida. É Mirtha, a rainha das Willis.

Ela evoca forças e com um galho de alecrim toca todos os cantos, fazendo surgir outras Willis que se agrupam graciosamente em torno dela. Neste momento, elas tiram Giselle de sua sepultura para iniciá-la em seus ritos. Ela dança com suas graciosas irmãs, mas um barulho ao longe faz com que todas Willis se dispersem e se escondam no bosque. É Albrecht, que chega trazendo flores. Giselle surge para ele. O seu amor por ele ainda vive… Albrecht tenta pegá-la, mas ela desaparece… Ele sai à sua procura… Neste momento, Hilarion é pego pelas Willis. Mirtha, a rainha, ordena-o a dançar até a exaustão, fazendo-o cair nas profundezas do lago. As Willis começam então uma orgia alegre, dirigida por sua rainha triunfante, quando uma delas descobre Albrecht e o traz para o círculo mágico. Mas no momento em que Mirtha vai tocá-lo, Giselle se lança na frente de Albrecht, protegendo-o. Giselle leva-o à proteção da cruz em seu túmulo, mas Mirtha usa seu poder sobre Giselle para forçá-la a dançar. Albrecht não suporta e abandona a cruz que o preservava da morte e aproxima-se de Giselle. Eles dançam até que Albrecht cai de exaustão.

Mas neste momento surge a aurora, quebrando o poder de Willis. O amor de Giselle por Albrecht salva-o.

 

OBJETIVO

 

Contrastar os fenômenos psíquicos aqui dispostos com a obra anteriormente descrita, a fim de trazermos para o plano sensorial – a imanência de nossas emoções e sensações que nos permitem dar vazão aos impulsos emocionais. Entrementes, tais impulsos são suprimidos frente às estimulações externas que acarretam num desprovimento de nossa sensorialidade sinestésica. 

A arte como dispositivo de nossas emoções nos levará ao encontro de um mundo pantomímico, servindo-nos, portanto, como antídoto contra a realidade opressora.

Também temos como objetivo promover a reflexão das categorias estéticas que potencializarão a emersão de nossos sentidos e emoções. Poderíamos refletir, quiçá, a respeito da inferência subjetiva que delineará nosso imaginário por meio da dicotominização dos respectivos aspectos: belo e feio, sublime e grotesco, e,  por último, trágico e cômico. 

Portanto, será desestruturando esta ordem e restabelecendo a dicotomia entre sublime e trágico que sucederá a perspectiva de nosso projeto. Encontrando, por último, solo fértil na arte predominantemente canonizada pelo erudito. A análise artística  pormenorizada nos refreará de nossos instintos agressivos e penetrará por meio das emoções a alma humana. Faz-se necessário, todavia,  a inclusão dos movimentos artísticos em nosso cotidiano, a fim de purificar o nosso imaginário e as nossas ações. Que nossos movimentos, a posteriore,  possam nos direcionar as matrizes mais singelas e cristalinas da psique humana. É partindo desse pressuposto que elegemos esta obra clássica trágica, pois, é por meio desta tragédia, que seremos tocados implacavelmente. 

 

REFLEXÃO

 

É a partir desta reflexão que discorrerá a pergunta que não quer calar: Por que somos o que somos? Por que pensamos o que pensamos? Por que sentimos o que sentimos?

Como sublinhar, nesta nossa perspectiva, a dimensão do amor, a dimensão do não ódio, a dimensão da não vingança, a dimensão da mortalidade, e, por último, a dimensão do perdão (…).  É disso que se trata Giselle. A dicotomia estabelecida anteriormente entre sublime e trágico, agora virá à tona como forma de tentar compreender – o divino na tragédia, na dor, da qual Giselle foi submetida ao ter sido enganada, desrespeitada e humilhada. O que será que temos a aprender com Giselle? A sermos mais tolerantes? Quiçá esta não seja a tarefa. Devemos refletir acerca de nossas emoções e sensações para confrontarmos nossos sentimentos e nos colocarmos no foco da tragédia a ponto de dizer o indizível e pensar o impensável.  

Giselle, uma camponesa frágil e inocente, entrega-se aos braços do Duque Albrecht, cujo pseudônimo era Loys, acreditando na última pétala da flor, que seu destino estaria fadado ao bem me quer, ao amor. Pois Giselle estava certa: o amor a acompanhou até a última lágrima de seu chorar. Diante da dor de ter sido traída, Giselle previu a morte, – previu a cruz que simbolicamente salvaria seu amor do sofrimento. Restou-lhe apenas a loucura como forma de dar vazão a realidade, entretanto, a loucura serviu apenas como paliativo diante da iminência dolorosa da morte. Dançou por alguns instantes antes de cravar a espada em seu peito e entregar-se a mais profunda dor.

Na arte, o fim não santifica os meios, mas os meios sagrados podem santificar o fim. (Nietzsche, 1879, p.65).

Nietzsche com esta frase nos permite elucidar a tragédia de Giselle que ao chegar ao vale das sombras, encontra seu grande amor predestinado a morte como forma de punição pelo ocorrido.

A transigência  amorosa de Giselle farar-se-á necessária em prol da vida. O amor que não encontra barreiras e que não medirá esforços para salvar àquele que a matou. Giselle enfrentará Mirtha no vale das sombras a fim de libertar Albrecht da morte.

O amor que supera o ódio e a própria agressividade defensiva do ser humano. Giselle transcende o mal plantando amor, mesmo que tal medida tenha tirado o seu direito de viver, amar e sonhar. É dançando por ele que Giselle o liberta da iminência da morte, suportando inexoravelmente a dor da última despedida.

É sob o embalo da música de Adolphe Adan que Giselle despede-se de seu amor para sempre. O sol se faz presente e o encanto vingativo de Mirtha se desvanece. Foi partindo desse pressuposto que tentamos elucidar nossas emoções e sensações diante de algo que circunscreve a vida diante da morte.

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A Psicanálise do Homem Desbussolado – As reações ao futuro e o seu tratamento – Jorge Forbes

“O viajante surpreendido pela noite pode cantar alto no escuro para negar seus próprios temores; mas, apesar de tudo isto, não enxergará mais que um palmo adiante do nariz”.

I – STANDARDS E PRINCÍPIOS.

A prática lacaniana não tem standards, mas tem princípios. É o que afirma o tema central deste IV Congresso da Associação Mundial de Psicanálise.

Há controvérsias quanto ao que seja um princípio. Restrinjo-me à noção que prepondera: princípio é algo que engendra, que vem antes, a cabeça primeira. Na etimologia, tem a raiz de caput, cabeça.

Standard, por sua vez – um anglicismo para o que nomeamos, em português, padrão – é aquilo que se adquire da experiência.

O princípio antecede a experiência, enquanto o standard é dela fruto.

É fato que alguns standards podem, com sua consagração, acabar por ter função de princípio, no que antecedem e orientam novas experiências.

II – NOVO HOMEM. A MUDANÇA CONSEQÜENTE.

Parto do tema do Congresso para relatar o que me cabe desenvolver: “A Psicanálise do Homem Desbussolado – As reações ao futuro e o seu tratamento”.

Ao escolher esse título, chamo a atenção a uma transformação do laço social, hoje, que exige uma mudança na forma de incidência do ato analítico.

Mudança que só podemos pensar porque diferenciamos princípios de standards. Sem essa distinção, a psicanálise arriscaria deixar de existir, engessada em standards inaptos ao tratamento das novas formas do laço.

Com a expressão “homem desbussolado”, refiro-me ao habitante de uma nova era: globalização, pós-modernidade – ainda nenhum termo é suficientemente bom para nomeá-la, sempre causando polêmicas aqui – uma nova era, dizia, diferente da anterior por não ser prioritariamente “pai-orientada”.

O laço social na era industrial, na modernidade, era francamente orientado por um eixo vertical. As pessoas se juntavam “em nome de”, “em torno a”. A família, a empresa, a nação eram estruturas triangulares, ou piramidais, com um ápice ideal e aglutinador.

Tínhamos na família o pátrio poder; na empresa, a carreira de office-boy a diretor; na nação, o sentimento de Pátria.

O pai – que tinha as chaves do saber seguro, e dava a direção – ocupava, ele e seus representantes, o ápice da pirâmide. Lembramos, se ainda é necessário reforçar essa idéia, que, quando não sabíamos alguma coisa, éramos convidados a procurar no dicionário, chamado de quê? “Pai dos burros”.

Pois bem, na globalização, o saber consagrado, desde os iluministas, virou um genérico, do mesmo modo que fogões e geladeiras brancos são genéricos: uns não têm mais valor que outros. Um aperto de botão, um clique, um clique no rato, é tudo o que é necessário para acessar o saber.

O homem ficou desbussolado, sem o norte da mão do pai que, por ter o saber, lhe assegurava o caminho a seguir.

Freud teve a genialidade de propor uma estrutura capaz de esquadrinhar a experiência humana nesse mundo pai-orientado: o complexo de Édipo. Um standard freudiano, não um princípio.

Durante quase cem anos, fomos capazes de entender muita coisa das relações humanas a partir dessa estrutura, a tal ponto que vários chegaram a pensar que o Édipo fazia parte do homem, e que fora dele só haveria psicose.

Foi Jacques Lacan quem deu o alerta da intensidade de uma psicanálise além do Édipo. Uma psicanálise capaz de acolher um homem cujo problema não está mais nas amarras de seu passado, que o impedem de atingir o objetivo pretendido, motivo que levou Freud a chamar a psicanálise de cura da memória. Uma psicanálise para o homem que não sabe o que fazer, nem escolher, hoje, entre os vários futuros que lhe são possíveis: sem pai, sem norte, sem bússola.

III – QUEIXA, LIBERDADE, ANGÚSTIA.

Antes, as pessoas se queixavam por não conseguirem atingir os objetivos que perseguiam. Hoje, quase ao avesso, as pessoas se queixam ou nem se queixam ainda, mas se angustiam pelas múltiplas possibilidades que se oferecem.

Frente à responsabilidade do querer o que deseja, o homem recua. Ele reage ao futuro incerto, preferindo seguranças passadas. A época pós-moderna, que chegou a ser tão festejada, de um sonho de esperança transformou-se num pesadelo de angústia. A pós-modernidade, para Gilles Lipovetsky, foi um período de curta duração, substituído pela atual hipermodernidade, que ele conceitua.

Hipermodernidade quer dizer uma modernidade ilimitada, extensa a todos os domínios da experiência humana, ancorada em três fatores: na tecnologia, na individualidade e na economia.

Será que estamos fadados a sermos hipermodernos e acompanharmos passivamente as loucas, senão engraçadas, tentativas localizacionistas do id no mesencéfalo, prenúncio do próximo remédio, possivelmente o “id-ota”?

IV – TENDÊNCIA: SEREMOS HIPERMODERNOS?

Não acredito nesse destino, por duas razões: a primeira, porque embora ainda poucos, podemos notar uma série de pesquisadores estudando e promovendo novas conceituações deste laço social que exige, para a sua compreensão, uma nova topologia, a borromeana, na visão de Jacques Lacan.

Além do grupo que representamos, na psicanálise, acrescentaria pessoas além dela, como o filósofo francês Gilles Lipovetsky, recém citado; o sociólogo polonês Zygmunt Bauman; o arquiteto americano Ron Pompei; no Brasil, os juristas Tercio Sampaio Ferraz Junior e Miguel Reale Junior. Enfim, cito alguns nomes só para provocar em cada um a lembrança de outros, de diversas áreas. Todos, como diria, profissionais do incompleto, que de forma ocasional ou provocada, além das especificidades de suas disciplinas, em um verdadeiro movimento de desespecialização, contribuem reciprocamente, realizando o que Freud preconizava em sua “questão da análise leiga”, a saber: a compreensão, pelo paciente, dos fundamentos do tratamento a que se submete.

A segunda razão é a forte convicção de que a essência desejante e incompleta de saber – ou seja, inconsciente – do homem é um princípio que resistirá a todos os tipos de “bushadas” totalitárias.

V – ANGÚSTIA: UM PARÂMETRO.

Angústia é o tema do momento. “Sentir o que o sujeito pode suportar de angústia coloca vocês – analistas – o tempo inteiro à prova”, afirma Lacan na abertura de seu mais recente Seminário estabelecido por Jacques-Alain Miller. A angústia é um parâmetro, por excelência, da direção do tratamento.

Uma angústia do homem desbussolado vem sendo maltratada e acomodada em neo-religiosidades e em neo-cientificidades. Junto às neo-religiões colocaria os neo-universitários que consagram e standardizam os conceitos, em um renovado mercado de títulos, que lhes confere uma batina respeitável para acalmar a suposta e temida amoralidade conseqüente à queda do pai.

Quanto aos neo-cientistas, empírico-localizacionistas, eles não têm medo do ridículo, dada a avidez cúmplice de respostas – não importa que sejam absurdas – de uma população a quem se propagandeia que para tudo nessa vida tem remédio.

O psicanalista do homem desbussolado, para manter vivos os princípios da psicanálise lacaniana, deverá mudar sua música, ter novos standards.

Pensei em alguns exemplos:

• Se ontem se analisava para se compreender mais, para ir mais fundo, hoje se dirige o tratamento ao limite do saber: é a necessidade da aposta, na precipitação do tempo;

• Se ontem se fazia análise para obter uma ação garantida, livre de influências fantasiosas, hoje nenhuma ação é assegurada em um justo saber, toda ação é arriscada e inclui a responsabilidade do sujeito;

• Se ontem a psicanálise falava em sofrimento psíquico, o que a levou a ser patrocinada por psicólogos que a reduziram a uma das disciplinas de seu currículo, hoje é necessário separá-la do campo da saúde mental, como tem insistido Jacques-Alain Miller;

• Se ontem queríamos uma certeza verdadeira, hoje, na segunda clínica de Jacques Lacan, separamos certeza subjetiva de verdade lógica. Queremos uma certeza convencida;

• Se ontem nos limitávamos em nossa práxis ao espaço cartesiano do consultório, hoje haverá psicanálise onde houver um analista, e ele é necessário nos mais diversos locais da experiência humana, muito além das instituições de saúde;

Existem várias opositores a este caminho, das estatísticas empíricas às metanálises, dos remédios salvadores – recentemente houve quem propusesse colocar antidepressivo junto com o flúor na água de São Paulo – aos livros de auto-ajuda. E daí? Nada que possa desentusiasmar aqueles que se beneficiaram de um trabalho analítico e foram formados no tratamento da angústia pela invenção responsável.

VI – CONCLUSÃO: PRINCÍPIOS ESTÁVEIS, STANDARDS INCOMPLETOS.

Não tenho certeza de que não tenhamos standards. Uma vez que os princípios estão além dos enunciados, sendo difícil positivá-los, caberia talvez entendermos que nossos enunciados são, afinal, standards com função de princípios. Porém, são standards ad hoc, usados a cada decisão analítica.

Assim como acontece com os princípios do direito, na concepção de Tercio Sampaio Ferraz Junior: na decisão jurídica, eles têm aplicação como topoi, lugares-comuns de uma retórica. Standards.

A principal diferença entre os standards ortodoxos e os nossos está na posição de quem os enuncia: de uma forma completa, ou de uma forma incompleta.

Frente à estabilidade dos nossos princípios, nossos standards clínicos serão leves, contraditórios, múltiplos, circunstanciais: sensíveis à singularidade de cada momento da sua aplicação. O analista “escolhe” quais usar a cada vez, a cada tempo. O analista pode querer o que deseja, não fica no inefável do que opera na clínica.

Concluo, com Freud, mostrando que o que estamos debatendo aqui, os princípios analíticos, não é novo. Em “Inibições, Sintomas e Angústia”, em 1926, assim aconselhava Sigmund Freud: ”Aceitemos humildemente o desprezo com que nos olham, sobranceiros, do ponto de observação de suas necessidades superiores. Mas visto que nós não podemos também abrir mão de nosso orgulho narcísico, ficaremos reconfortados com o pensamento de que tais ‘Manuais para a Vida’ ficam logo desatualizados, de que é precisamente nosso trabalho míope, tacanho e insignificante que os obriga a aparecer em novas edições, e de que até mesmo os mais atualizados deles nada mais são do que tentativas para encontrar um substituto para o antigo, útil e todo-suficiente catecismo da Igreja. Somente uma pesquisa paciente e perseverante, na qual tudo esteja subordinado à única exigência da certeza, poderá gradativamente ocasionar uma transformação. O viajante surpreendido pela noite pode cantar alto no escuro para negar seus próprios temores; mas, apesar de tudo isto, não enxergará mais que um palmo adiante do nariz”.

Transtorno Afetivo Bipolar

O Transtorno Afetivo Bipolar (TAB), também conhecido como Transtorno Bipolar do Humor (TBH) ou, antigamente, Psicose Maníaco Depressiva (PMD), é uma doença relacionada ao humor ou afeto, classificada junto com a Depressão e Distimia. O TAB se caracteriza por alterações do humor, com episódios depressivos e maníacos ao longo da vida. É uma doença crônica, grave e de distribuição universal, acometendo cerca de 1,5% das pessoas em todo o mundo.

 O TAB é considerado uma doença psiquiátrica muito bem definida e, embora tenha um quadro clínico variado, é um dos transtornos com sintomatologia mais consistente na história da psiquiatria. Sua forma típica (euforia-depressão) é bem caracterizada e reconhecível, permitindo o diagnóstico precoce e confiável. 

Normalmente sentimos alegria, tristeza, medo, ousadia, energia, desânimo, eloqüência, apatia, desinteresse, enfim, em diversos momentos de nossa vida, com maior ou menor intensidade uma grande variedade de sentimentos são experimentados. De modo geral, é normal a pessoa ficar alegre com uma promoção no emprego, com uma conquista amorosa, nascimento de um filho e outras situações agradáveis. Assim como se espera, também, que a pessoa normal experimente tristeza e sofrimento depois de um rompimento amoroso, com doença ou morte de pessoa querida, com a perda do emprego, dificuldades financeiras, etc.

Resumindo, em situações normais o estado de humor ou de ânimo deve variar ao sabor dos acontecimentos da vida e de acordo com a tonalidade afetiva de cada um (veja Tonalidade Afetiva na página Alterações da Afetividade, na seção Psicopatologia). Essas respostas emocionais podem ser adequadas e proporcionais aos estímulos externos, que são as vivências, ou desproporcionais e inadequadas. Neste caso, em resposta aos estímulos internos, que são as oscilações do humor ou alterações afetivas.

No DSM.IV são classificados 2 tipos de TBH. O Tipo I, onde a maioria dos episódios de alteração do humor são do tipo euforia e o Tipo II, ao contrário, ou seja, a maiora dos episódios são depressivos

Pelo DSM.IV, a característica essencial do Transtorno Bipolar I é um curso clínico caracterizado pela ocorrência de um ou mais Episódios Maníacos ou Episódios Mistos. Com freqüência, os indivíduos também tiveram um ou mais Episódios Depressivos Maiores. Por outro lado, a característica essencial do Transtorno Bipolar II é um curso clínico marcado pela ocorrência de um ou mais Episódios Depressivos Maiores, acompanhados por pelo menos um Episódio Hipomaníaco.

Hoje em dia o diagnóstico de Transtorno Afetivo Bipolar está sendo repensado e deslocado para um grupo de estados psicopatológicos afins; os Transtornos do Espectro Bipolar (Akiskal e cols., Montgomery e Keck, 2000.

EPISÓDIO DEPRESSIVO
A Depressão é caracterizada principalmente por alterações do humor, da psicomotricidade, da cognição e das funções vegetativas. O quadro clínico do paciente deprimido é bastante complexo, cheio de sinais e sintomas. Geralmente o paciente apresenta humor depressivo, alterações de apetite e do sono, dificuldades de concentração e pensamentos de cunho negativo, incapacidade de sentir alegria ou prazer, redução da energia, agitação psicomotora ou, ao contrário, lentificação, podendo ocorrer ideação suicida e/ou sintomas psicóticos.

Profissionais com atividades acadêmicas ou intelectuais não conseguem mais executar suas tarefas quando deprimidos, as crianças diminuem o rendimento escolar por causa das dificuldades de raciocínio e concentração. Essa variedade de sinais e sintomas faz pensar em uma verdadeira síndrome depressiva, cujas unidades de manifestação são o Episódio de Maníaco e o Episódio Depressivo. Aqui discorremos sobre o Episódio Depressivo.

Alterações de humor e afetividade
Obviamente, o paciente deprimido manifesta o humor depressivo. Os reflexos mais típicos desse tipo de humor são os sintomas de angústia, tristeza, vazio, desesperança, desânimo, enfim, a sensação popularmente conhecida como “baixo astral”.

Entretanto, para surpresa do público leigo, nem sempre a tristeza clássica está presente no Episódio Depressivo. Algumas vezes, de acordo com determinados traços de personalidade, o paciente pode não experimentar sentimento de tristeza e concentrar suas queixas em somatizações, em dores e outras queixas físicas, tais como cefaléia, dor de estômago, dor no peito, tonturas, etc.

Apesar disso, a atitude da pessoa com humor depressivo, ainda que sem queixas de tristeza, pode ser percebido indiretamente por sua expressão facial, pelo olhar triste, fixo e sem brilho, pelos ombros caídos e por uma notável tendência ao choro e hipersensibilidade sentimental (Bleuler, 1985). Antigamente falava-se em Depressão Mascarada, para se referir a esses casos de depressão sem tristeza.

O humor de pacientes deprimidos pode ser irritável, manifestado como tendência a sentir-se facilmente incomodado com tudo, mal-humorado, com baixo limiar de tolerância para frustração. Esse quadro de irritabilidade e explosividade no humor depressivo é uma das manifestações depressivas mais comuns em crianças e adolescentes.

Os deprimidos podem perder a capacidade de sentir prazer, o que os leva ao abandono de atividades anteriormente prazerosas e ao desinteresse por amigos e familiares. Em casos mais graves pode haver incapacidade de experimentar qualquer tipo de emoção, dando a impressão que nada mais interessa ou vale a pena. Nas alterações da afetividade chamei esse estado de “egoísmo afetivo”, colocado entre aspas para sugerir o aspecto involuntário desse egoísmo.

Cognição e percepção
A avaliação e juízo crítico da realidade à sua volta, que é a cognição propriamente dita, pode estar seriamente prejudicada na pessoa deprimida. A consciência da realidade pode estar desde ligeiramente alterada até psicoticamente alterada com pensamentos deliróides.

A avaliação que a pessoa deprimida faz de si mesma, que nada mais é do que a autoestima, pode sugerir uma idéia muito negativa. Essas idéias auto-pejorativas orbitam em torno do fracasso, da ruína, pessimismo, inferioridade, inutilidade, culpa, auto-recriminação, pecado e mesmo uma série de ruminações que tomam conta totalmente do pensamento. Medo do presente e do futuro, sofrimento retroativo pelas mazelas do passado, ausência de planos e perspectivas (Moreno & Moreno, 1994).

Os problemas existenciais reais, que existem de fato e todos temos, assumem proporções insuportáveis na depressão, surgem medos irracionais e preocupações excessivas. As avaliações negativas de si, do mundo e do futuro, dominam o pensamento do paciente deprimido e podem alterar a sua percepção da realidade a ponto de cogitar em suicídio (que pode se manifestar em até 15% das depressões maiores ou graves sem tratamento).

O médico clínico, diante de um paciente deprimido, deve investigar e avaliar o risco de suicídio, uma vez que a morte por suicídio é tão letal quanto por infarto do miocárdio. Na Depressão Grave com Sintomas Psicóticos, classificada no CID.10 sob o código F33.2, podem aparecer delírios congruentes com o humor (veja Idéias Deliróides na seção Psicopatologia). Esses delírios secundários ao humor deprimido podem servir para maquiar um mundo temerário, ameaçador e sofrível no qual a cognição do deprimido crê. Alucinações, principalmente auditivas, podem aparecer nas depressões graves.

Karla Mathias de Almeida e Doris Moreno (2002) listam alguns critérios ou características dessas Idéias Deliróides ou Delírios Humor Congruente:

a) são de tonalidade afetiva penosa;
b) são monótonas e repetitivas;
c) são pobres, isto é, a idéia delirante não se desenvolve em construções intelectuais: são mais ricas em emoção do que em conteúdo ideativo;
d) são passivas e o paciente aceita todas suas infelicidades placidamente;
e) são divergentes e centrífugas, isto é, estendem-se progressivamente para a pessoa próxima e para o ambiente;
f) são delírios do passado (lamentações, remorsos) ou do futuro (ansiedade, temores).

São comuns queixas de dificuldades de raciocínio, concentração e tomada de decisões. De fato, a mais prejudicada talvez seja a atenção e não a memória, propriamente dita. E a dificuldade em fixar a atenção, associada à falta de interesse, pode simular severos problemas de memória.

Com a lentificação do pensamento as idéias podem ficar confusas. Ey e cols (1978) descrevem a “paralisia psíquica“. Nesse estado a ideação fica lenta, as associações são difíceis, a evocação é penosa, a síntese mental é impossível, o esforço mental sustentado também é impossível e a atenção concentra-se nos temas melancólicos sem poder separar-se deles. Em idosos, as alterações das funções cognitivas na depressão podem ser confundidas com demência.

Comportamento e psicomotricidade
Alguns autores consideram o retardo psicomotor a principal alteração no Transtorno do Humor (Akiskal, 2000). O paciente com lentificação psicomotora exibe importante restrição de movimentos espontâneos, postura de abatimento, discurso lentificado, frases raras e monossilábicas, com aumento do tempo de latência de resposta, baixo tom de voz, dificuldade de raciocínio, diminuição da energia e cansaço excessivo. Não é raro alguns pacientes reclamarem de fadiga extrema ao realizar tarefas simples, tais como escovar os dentes. Há uma tendência a ficar deitado e ao isolamento. Em casos graves, a lentificação psicomotora pode evoluir para o estupor depressivo.

Funções vegetativas
Funções vegetativas são aquelas reguladas pelo Sistema Nervoso Autônomo (ou Vegetativo). No paciente deprimido estão alterados o sono, o apetite, a função sexual e o ritmo circadiano do humor. A alteração do apetite e/ou do peso é um dos indicadores confiáveis do comprometimento somático da Depressão. As alterações do sono na Depressão envolvem insônia, mais freqüentemente intermediária, quando então a pessoa desperta no meio da noite e tem dificuldade para voltar a dormir, ou acorda muito cedo (insônia terminal).

Alguns pacientes podem dormir demais, como uma espécie de fuga de uma realidade hostil para eles ou como sinal de escasseamento da “energia” necessária para a disposição geral. Dentro dessas funções vegetativas prejudicadas está a função sexual, onde ocorre invariavelmente uma expressiva diminuição da libido, tanto nos em homens e como nas mulheres. E não apenas a libido costuma estar comprometida mas, inclusive, também a função erétil.

Subtipos depressivos
A nomenclatura psiquiátrica é demasiadamente complexa, apesar de inteligível. Há vários tipos de manifestações depressivas, classificadas tanto de acordo com a origem, quanto através da apresentação clínica.  A todos esses subtipos acrescento ainda a sintomatologia depressiva da atualidade, a qual decorre mais dos sentimentos de frustração do que da depressão, propriamente dita.

Depressão Bipolar
É a Depressão que se apresenta em portadores do Transtorno Afetivo Bipolar. Aqui há uma alternância de episódios depressivos e eufóricos (maníacos), não necessariamente um depois do outro (podem surgir vários episódios depressivos e um eufórico ou vice-versa). Trata-se de um quadro de origem constitucional, ou seja, biológica. Normalmente essas crises surgem sem que se possa associar à alguma razão vivencial.

Depressão endógena
Antigamente essa denominação caracterizava a Depressão que se manifestava por episódios agudos, recorrentes e sem a existência de episódios eufóricos. Hoje se fala em Transtorno Depressivo Recorrente, graduado em Leve, Moderado e Grave pela CID.10 ou Maior, pelo DSM.IV. Entretanto, o nome endógeno deveria ser mantido como conceito com objetivo de facilitar a idéia do fator constitucional desse tipo de Depressão.

Na Depressão Endógena os sintomas são mais exuberantes, focando predominantemente o prejuízo da capacidade para sentir prazer (anedonia), na apatia significativa, nos sentimentos de culpa, piora matutina, diminuição de apetite e perda de peso.

Depressão Atípica
As Depressões Atípicas são aquelas que se manifestam, predominantemente, através de sintomas ansiosos (Pânico, Fobia …) e somáticos. Nos quadros de Depressão Atípica encontramos os sintomas vegetativos incaracterísticos (aumento do apetite, do sono, ganho de peso), humor não totalmente rebaixado (capacidade de se alegrar diante de eventos positivos) e grande sensibilidade emocional.

Alguns deprimidos podem manifestar apenas sintomas somáticos (físicos) ao invés de sentimentos de tristeza, como por exemplo, dores vagas e imprecisas, tonturas, cólicas, falta de ar, etc. Para estes, talvez, seja mais fácil comunicar sua aflição e desespero através dos órgãos que do discurso. Também em crianças e adolescentes a depressão pode dissimular-se sob a forma de um humor irritável ou rabugento, ao invés de triste e abatido.

Depressão Psicótica ou Maior
Trata-se de Depressão Grave, na qual ocorrem sintomas psicóticos, tais como os delírios e/ou as alucinações. Geralmente esses delírios são congruentes com o humor, chamados então, Delírios Humor-Congruentes. Podemos chamá-los também de Delírios Secundários ou Idéias Deliróides. Na esquizofrenia os delírios são primários e aqui são secundários (secundários à depressão).

Quando existem delírios esses são, geralmente, de ruína, de grave prejuízo moral, de doença grave, culpa, morte, castigo. Quando existem alucinações, geralmente são auditivas.

 

EUFORIA (Mania)
Assim como a depressão, a euforia ou mania também se caracterizada por alterações no humor, na cognição, na psicomotricidade e nas funções vegetativas, porém com características opostas àquelas alterações observadas na depressão, ou seja, o paciente apresenta elevação do humor, aceleração da psicomotricidade, aumento de energia e idéias de grandeza, as quais podem ser até delirantes.

As formas clínicas da euforia variam de acordo com a intensidade e o predomínio dos sintomas afetivos, das alterações psicomotoras e da presença de sintomas psicóticos. Em sua forma clássica a mania se caracterizada por humor exageradamente expansivo (chamado de elação), aceleração no ritmo do pensamento, agitação psicomotora e pensamentos delirantes de grandiosidade. Dependendo da gravidade do Episódio Eufórico as idéias deliróides podem fazer confundir o quadro com um surto esquizofrênico.

Humor e Afetividade
O humor na euforia é muito expansivo, geralmente irritável, desinibido. Sentimentos de exagerada alegria, júbilo e excitação são comuns. Essa alegria percebe-se patológica e o riso é exagerado, desproporcional ou à toa, há um desmedido entusiasmo e incomum interesse sexual, profissional e social.

 

 

Cognição e Percepção
O pensamento na euforia costuma ser repleto de idéias de grandeza, autoconfiança incomodamente elevada, otimismo exagerado, falta de juízo crítico e da inibição social normal. A impulsividade pode levar a conseqüências desastrosas.

Podem existir idéias deliróides de grandeza, de poder, riqueza e de irreal inteligência. No tipo Grave com Sintomas Psicóticos a euforia é acompanhada de alucinações, sentimentos de influência e de inspiração profética, caracterizando assim o verdadeiro Estado de Elação (Ey e cols., 1978).

A aceleração do pensamento produz um dos sintomas mais clássicos da euforia que e a Fuga de Idéias, onde o paciente começa um assunto novo sem terminar o anterior. Há também uma hipermnésia, com lembrança fácil de eventos passados, porém, prejudicado por excesso da distraibilidade.

Comportamento e Psicomotricidade
A pessoa com euforia sente-se sempre muito bem disposto e capaz de alcançar qualquer objetivo, cheio de energia e sem necessidade de repouso ou sono. Normalmente ela  gargalha, canta, dança, se mexe, corre, faz sexo, trabalha… tudo exageradamente e incansavelmente. Desse jeito é difícil convencê-lo estar doente, já que o bem estar (patológico) é muito contundente.

Durante a fase de euforia do Transtorno Bipolar do Humor, a auto-estima, o vigor e a energia física aumentam e a pessoa passa a agir em ritmo acelerado, fica inquieta e agitada, a necessidade de sono diminui. Começa a ter sentimentos de grandeza, considera-se especial e se sente como se não tivesse limites. Os planos grandiosos e mirabolantes se multiplicam, as idéias fluem rapidamente e não consegue concluir as idéias, pulando rapidamente para outros assuntos.

Quando o paciente já é conhecido, percebe-se claramente estar entrando em euforia até pelo colorido exuberante das roupas, o volume com que ouve músicas, a profusão do discurso, eloqüência com que defende seus pontos de vista. Por outro lado, a aceleração exagerada do pensamento pode dificultar a compreensão do discurso.

Por causa da impulsividade, da desinibição, do aumento de energia e da ausência de crítica, a pessoa em mania acaba se envolvendo em atividades perigosas e insensatas, tais como dirigir em alta velocidade, praticar sexo inseguro, gastar além das possibilidades.

Funções Vegetativas
A diminuição da necessidade de descanso e de sono é o sintoma físico mais freqüente. O paciente necessita de poucas horas e, mesmo assim sente-se bem disposto e cheio de energia (Moreno e Moreno, 1994).

Costuma haver, na euforia, aumento do apetite, do consumo de cigarro, álcool e drogas. Como tudo está acelerado é comum o aumento do apetite sexual, associados à desinibição e à impulsividade.

 

 

Outro sintoma bastante característico da euforia é a perda da inibição social natural. Isso produz atitudes inadequadas ou extravagantes, como por exemplo, fazer compras desenfreadamente ou vestir-se de forma exuberante, agressividade, inadequação e outros comportamentos inconvenientes que, inclusive, podem ocasionar envolvimentos policiais.

De modo geral, as crises de euforia podem ser caracterizadas pelos seguintes sintomas:

 

 

 

1.- auto-estima inflada, grandiosidade, sensação de ser mais e melhor que os outros e, algumas vezes quando tem delírio, reconhecendo ser predestinado a alguma coisa muito importante.
2.- necessidade de sono diminuída, sentindo-se bem e repousado com apenas 3 horas de sono.
3.- mais eloqüente e loquaz do que o habitual, pressão por falar, interrompendo os outros.
4.- perda da inibição social, falta de crítica para com as situações ridículas e vexatórias
5.- fuga de idéias (mudança de assunto rápido sem conclusão do anterior) ou experiência subjetiva de que os pensamentos estão correndo mais do que as palavras podem pronunciar.
6.- distratibilidade, a atenção é desviada com excessiva facilidade para estímulos externos insignificantes ou irrelevantes, dispersão da atenção.
7.- aumento da atividade dirigida a objetivos sociais, no trabalho, na escola ou sexualmente.
8.- agitação psicomotora, excesso de movimentos
9.- envolvimento excessivo em atividades prazerosas com um alto potencial para insensatez, perigo, inconseqüência, como por exemplo, envolvimento em compulsão para compras, indiscrições sexuais ou investimentos financeiros tolos.

HIPOMANIA
A hipomania é um estado semelhante à mania, em grau mais leve, que aparece em pacientes com TAB, no início dos episódios de mania ou, se não for no TAB, no Transtorno Ciclotímico da Personalidade. Observa-se mudança no humor habitual para euforia ou irritabilidade, reconhecida pelas pessoas mais íntimas do paciente. 

Há também na hipomania, hiperatividade, tagarelice, diminuição da necessidade de sono, aumento da sociabilidade, atividade física, iniciativa, atividades prazerosas, libido e sexo, e impaciência. A hipomania não se apresenta com sintomas psicóticos, não precisa de internação e o prejuízo ao paciente não é tão intenso quanto no episódio de mania. 

Como dissemos, em uma sociedade que valoriza demais a extroversão e eloqüência, pacientes e familiares podem considerar a hipomania como se fosse uma atitude normal e até desejável. Assim, a hipomania pode ser confundida com estados de alegria desencadeada por eventos positivos, não percebidos pelos outros como exagerados, comparados com o padrão habitual de humor da pessoa. Já a irritabilidade da hipomania pode ser confundida, também, com reações normais aos eventos negativos, como por exemplo, uma má notícia. 

Mas a hipomania pode ou não ter fatores desencadeantes, sejam positivos ou negativos. Se esses pacientes não forem tratados, podem apresentar ausência do juízo crítico e proporcionar para si ou para seus familiares, severos prejuízos morais e materiais.Incidência
Em nosso meio, segundo dados do Sistema Único de Saúde de São Paulo,  mais de 10 mil internações por ano são devidas ao TAB, predominantemente entre as mulheres, pois, em homens, prevalecem os diagnósticos de alcoolismo e esquizofrenia.

As estimativas acerca da prevalência de TAB na população são bastante acanhadas, devido à rigidez dos critérios de diagnóstico propostos pelas classificações atuais. Assim, a prevalência para o Transtorno Bipolar do Humor do tipo 1, que é o tipo com mais episódios de euforia do que depressão, ao longo da vida, nos EUA, alcança 1%.

Na cidade de São Paulo essa prevalência é de 1% (Andrade, 2002). Estudos que consideram critérios mais flexíveis de diagnóstico já apresentam  uma prevalência de 4% a 8% durante a vida. Apesar do interesse nestes quadros ter aumentado nos últimos anos, os portadores de TAB continua sendo tardiamente diagnosticados e, conseqüentemente, inadequadamente tratado.

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Causas do TAB
Em relação às causas do TAB, tem sido muito relevante a sugestão de hereditariedade. Segundo Cardno (1999), a concordância de TAB entre gêmeos idênticos (monozigóticos) varia de 60% a 80%, e o risco de desenvolver TAB em parentes de primeiro grau de um portador de TAB situa-se entre 2% e 15%. A quantidade de gêmeos monozigóticos onde não há concordância de TAB reflete a importância dos fatores ambientais. 

A genética considera a TAB como tendo de um “modo complexo” de transmissão, cuja manifestação dependeria da presença de um conjunto de genes que interagem entre si, até o momento de conhecimento pouco definido (veja abaixo). Resumindo, compreende-se que o aparecimento dessas doenças de transmissão complexa dependa da presença de um conjunto de genes de suscetibilidade, os quais, ao sofrerem influência do meio, manifestam-se precipitando as alterações necessárias para a eclosão da doença em questão.

Sobre os fatores ambientais associados ao Transtorno Bipolar do Humor, Leandro Michelon e Homero Vallada (2005) citam Tsuchiya e colaboradores, que investigaram a possível associação entre TAB e fatores variados, tais como, demográficos (sexo, etnia), relacionados à complicações da gestação ou do parto, estação do ano no nascimento, nascimento em área urbana ou rural, antecedentes de lateralidade, ajustamento pré-mórbido, padrão socioeconômico, eventos estressantes de vida, disfunção familiar, perda de parente e história de epilepsia, trauma craniencefálico, esclerose múltipla. 

De relevante ocorreu, nessa revisão da literatura, uma associação entre o TAB e a condição socioeconômica desfavorável, bem como com o desemprego, baixa renda e estado civil solteiro. Também houve associação da TAB com mulheres nos três primeiros meses do pós-parto. O restante dos fatores avaliados não mostrou nenhuma associação com ocorrência de TAB

De modo geral, os estudos foram inconclusivos, exceto para a significante associação do desenvolvimento de TAB com história familiar positiva, em vários estudos. Volta aqui a questão dos fatores genéticos, porém, a despeito de todos os fatos que sugerem uma fortíssima participação genética no desenvolvimento do TAB, até o momento não foi possível identificar genes ou regiões cromossômicas envolvidos diretamente no aparecimento desta doença. Embora algumas regiões dos cromossomos se mostrem mais significativamente ligadas ao problema, ainda se aguarda a confirmação científica por meio de novas pesquisas e novas técnicas de investigação. 

Inúmeras alterações na função cerebral têm sido descritas em pacientes apresentando quadros de depressão e mania. Pesquisas utilizando modelos genéticos, neuroanatômicos, neuroquímicos e de neuroimagem no TAB têm trazido importantes hipóteses teóricas e conceituais para o melhor entendimento de como certos mecanismos biológicos podem afetar a manifestação clínica da doença, seu curso e sua resposta aos tratamentos.  e anormalmente elevado, expansivo ou irritável durando pelo menos uma semana. 

Estudos com adotados

Com o propósito de separar a influência ambiental do fator genético, costuma-se pesquisar em adotados. Segundo Moreno e Moreno (2002), o primeiro estudo desse tipo foi conduzido na Bélgica por Mendlewicz e Rainer (1977), que verificaram 29 adotados com a antiga doença maníaco-depressiva (hoje Transtorno Afetivo Bipolar). Esses autores observaram uma prevalência de distúrbios afetivos em 31 % dos pais biológicos dessas pessoas, comparado a uma prevalência de 12% nos pais adotivos.

 

Outro estudo foi de Cadoret (1978), que em uma amostra de mães com o Transtorno Afetivo (bipolar e unipolar) evidenciou uma freqüência seis vezes maior de Depressão em seus filhos biológicos adotados ao nascimento, comparados aos filhos de mães sem o transtorno, também adotados no nascimento.

 

Wender e cols. (1986) pesquisaram, na Dinamarca, 71 pessoas adotadas portadoras de Transtornos do Humor e relataram uma prevalência oito vezes maior em casos de Depressão Unipolar e quinze vezes maior em casos de suicídio nos pais biológicos dessas pessoas quando comparadas com seus pais adotivos.

Outras Classificações
Durante muito tempo o TAB (Transtorno Afetivo Bipolar) foi considerado apenas ao que se considera hoje a sua forma mais grave. A classificação DSM.IV, já com mais de 10 anos, reconhece somente os tipos I e II, entretanto, os pesquisadores estão ampliando os conceitos e os tipos da bipolaridade.

Já se fala em Transtornos do Espectro Bipolar e, de acordo com abordagem mais recente, existem quatro tipos de transtorno bipolar, que se caracterizam basicamente pela intensidade i em que ocorre a alteração do humor.

Tipo I: Afeta apenas 1 % da população, é a forma mais intensa, com forte alteração do humor, por apresentar fases de mania plena. Apresenta toda a amplitude de variação do humor, do pico mais alto (mania plena), que pode durar várias semanas, até depressões graves. Em geral, inicia-se entre 15 e 30 anos, mas há casos de início mais tardio. É comum apresentar sintomas psicóticos, como delírios (pensamentos fora da realidade) ou alucinações (ouvir vozes que não existem, por exemplo). Se não for tratado, em geral prejudica enormemente o curso da vida do paciente. 
Tipo II: A alteração do humor  não é tão intensa quanto no Tipo I, mas apresenta fases de hipomania (pequena mania) e depressão. Assim sendo, nesse tipo a fase maníaca é mais branda e curta, chamada de hipomania. Os sintomas são semelhantes, mas não prejudicam a pessoa de modo tão significativo. As depressões, por outro lado, podem ser profundas. Também pode iniciar na adolescência, com oscilação de humor, mas uma parte dos pacientes só expressa a fase depressiva ao redor dos 40 anos. Com freqüência, os sintomas de humor deixam de ser marcadamente de um pólo para ter características mistas, turbulentas.  
Tipo III:  O Tipo III é semelhante ao tipo II, porém o quadro de hipomania é desencadeado pelo uso de antidepressivos ou psicoestimulantes.  É uma classificação usada apenas quando a fase maníaca ou hipomaníaca é induzida por um antidepressivo ou psicoestimulante, ou seja, os pacientes fazem parte do espectro bipolar, mas o pólo positivo só é descoberto pelo uso destas drogas. Sem o antidepressivo, em geral manifestam características do temperamento hipertímico ou ciclotímico. Como regra, devem ser tratados como bipolares, mesmo que saiam do quadro maníaco com a retirada do antidepressivo.  
Tipo IV: No tipo IV a oscilação de humor é mais leve e o paciente é, geralmente, uma pessoa com temperamento mais determinado, dinâmico, empreendedor, extrovertido e expansivo, e que, esporadicamente, passa a ter o humor mais turbulento e depressivo na meia-idade. Esses pacientes nunca tiveram mania ou hipomania, mas têm uma história de humor um pouco mais vibrante, na faixa hipertímica, que freqüentemente gera vantagens. A fase depressiva pode só ocorrer em torno ou depois dos 50 anos e às vezes é de característica mista e oscilatória.

Além desses quatro tipos, há a ciclotimia, que se caracteriza por um traço de personalidade cujo humor é oscilante e desregulado, e cujas fases não chegam a ser configuradas como mania ou depressão.

 

Curso
O Transtorno Bipolar I é um transtorno recorrente, ou seja, mais de 90% das pessoas que tiveram um Episódio Maníaco terão futuros episódios. Aproximadamente 60 a 70% dos Episódios Maníacos freqüentemente precedem ou se seguem a Episódios Depressivos mas o padrão de alternância é característico para cada pessoa.

O número de episódios durante a vida (tanto Depressivos quanto Maníacos) tende a ser superior para Transtorno Bipolar I, em comparação com Transtorno Depressivo Recorrente. Estudos do curso do Transtorno Bipolar I, antes do tratamento de manutenção com lítio, sugerem que ocorremquatro episódios em média a cada 10 anos. O intervalo entre os episódios tende a diminuir com a idade.

Aproximadamente 5 a 15% das pessoas com Transtorno Bipolar têm quatro ou mais episódios de alterações severas do humor, tais como, Episódio Depressivo Maior, Episódio Maníaco, Episódio Misto ou Episódio Hipomaníaco, que ocorrem dentro de um determinado ano. Embora a maioria das pessoas com Transtorno Bipolar retorne a um nível plenamente normal de funcionamento entre os episódios, alguns deles, entre 20 e 30%, continuam apresentando instabilidade do humor e dificuldades interpessoais ou ocupacionais.

Quando um indivíduo tem Episódios Maníacos com aspectos psicóticos, os episódios subseqüentes têm maior probabilidade de ter aspectos psicóticos. A recuperação incompleta entre os episódios é mais comum quando o episódio atual é acompanhado por aspectos psicóticos incongruentes com o humor.

Bibliografia:
Andrade L, Walters EE, Gentil V e cols.
Prevalence of ICD-10 Mental Disorders in a Catchment a Área in the city of São Paulo, Brazil. Soc Psych Epidemiol 37(7): 316-325, 2002
Cardno AG, Marshall EJ e cols.Heritability Estimates for Psychotic Disorders. Arch Gen Psychiatry 56:162-168, 1999
Michelon L, Vallada HFatores Genéticos e Ambientais na Manifestação do Transtorno Bipolar. Rev Psiq Clínica 32(Sup. Esp.) 1;21-27, 2005.

para referir:
Ballone GJTranstorno Afetivo Bipolar, in. PsiqWeb, internet, disponível em
www.psiqweb.med.br, 2005.

 

Opção ou Orientação Sexual ? – Ana Luiza Ferraz

Quando uma criança nasce, sua identidade sexual será reconhecida pelos caracteres sexuais primários. Se essa criança irá confirmar ou não sua identidade sexual, dependerá da complementação de caracteres secundários que são os testículos nos meninos e ovário nas meninas e também de um processo mais complexo – o sexo psicológico – que se desenvolverá com o passar dos anos. Se no sentido fisiológico, as pessoas podem ter sua identidade sexual definida a partir da presença de órgãos sexuais característicos de cada gênero, o mesmo não ocorre com o sexo psicológico. Pensando nisso, a sexualidade se apresenta numa escala variante que vai desde um comportamento extremamente feminino numa mulher, passando por mulheres pouco femininas, mulheres masculinizadas até homossexuais femininas; da mesma forma podemos encontrar homens pouco masculinos, homens feminilizados e homossexuais masculinos.   

O termo orientação sexual é considerado mais apropriado do que opção sexual ou preferência sexual. Mas por quê ? Estudos recentes realizados dentro da sexualidade mostram que ainda na infância, a tendência sexual começa a se desenhar – motivo este o termo opção sexual é inadequado, uma vez que a tendência sexual começa a se manifestar mais ou menos aos sete anos de idade. Neste período a criança ainda não possui uma capacidade avaliativa e que possamos chamar de “escolha”. O que geralmente ocorre é que a criança nesta idade tenta reunir-se às crianças do sexo que irão se identificar psicologicamente e se este não estiver de acordo com a fisiologia, ela tende a ser discriminada pelas outras crianças.            

Um estudo sueco traz novos elementos para a discussão a respeito da base biológica da orientação sexual. A neurologista Ivanka Savic em Estocolmo observou que em resposta a um hormônio masculino, o cérebro de mulheres heterossexuais e de homens homossexuais responde de forma similar e da mesma forma há semelhanças na ativação de regiões cerebrais de homens heteros e mulheres homossexuais em resposta a um hormônio feminino.
Mas afinal o que é orientação sexual ? Ela indica o gênero (masculino e feminino) que uma pessoa se sente preferencialmente atraída física e/ou emocionalmente. Essa orientação pode ser: assexual, bissexual, heterossexual, homossexual ou pansexual. A orientação sexual não-heterossual foi removida da lista de doenças mentais nos Estados Unidos em 1973 e do CID (Classificação Internacional de Doenças) em 1993.            

A assexualidade é a orientação sexual caracterizada pela indiferença à prática sexual, isto é, a pessoa assexual não sente atração nem pelo sexo oposto e nem pelo mesmo sexo que o seu. A assexualidade pode ser classificada como uma disfunção e não uma orientação sexual. Existe um desacordo a respeito se a assexualidade é uma orientação sexual legítima. Algumas pessoas argumentam que seria um distúrbio de hipoatividade sexual ou distúrbio da aversão sexual. Outras causas sugeridas incluem abuso sexual passado, repressão sexual, problemas hormonais e desenvolvimento tardio de atração. Muitas pessoas ditas assexuais negam tais diagnósticos e argumentam que como a assexualidade não traz angústia, não deveria ser classificada como um distúrbio.             

A bissexualidade se trata da atração física e emocional por pessoas tanto do mesmo sexo como do sexo oposto com níveis variantes de interesse por cada um, e à identidade correspondente a esta orientação sexual. Portanto, bissexual sente atração por ambos os sexos, servindo, portanto de um quase meio-termo entre o hetero e o homossexual. Uma equipe de psicólogos de Toronto e Chicago realizaram estudos que serve de apoio para aqueles que se declaram céticos sobre o fato da bissexualidade ser um tipo de orientação distinta e estável. Eles mediram diretamente os padrões de resposta a estímulos a imagens de homens e mulheres. Os homens que se diziam bissexuais mostraram-se muito mais sexualmente excitados diante de outros homens.  As pessoas que afirmam ser bissexuais são geralmente homossexuais, mas são ambivalentes sobre sua homossexualidade.           

Heterossexualidade refere-se à atração sexual e/ou romântica entre pessoas de sexos opostos, e é considerada a mais comum orientação sexual nos seres humanos. A heterossexualidade tem sido identificada como “a normal” ou “natural”, decorrendo diretamente da função biológica relacionada com o instinto reprodutor sendo tudo o resto “anormal” ou “anti-natura”.           

Homossexualidade é o atributo, a característica ou a qualidade daquele ser que é homossexual e define-se por atração física, emocional e estética entre seres do mesmo sexo com eventual inversão de papéis de gênero (homens e mulheres).  Como surgiu o termo homossexual ? Foi criado em 1869 pelo escritor e jornalista Karl-Maria Kertbeny, derivando do grego homos que significa “semelhante”. Em 1870, um texto de Westphal chamado “As sensações sexuais contrárias” definiu a homossexualidade em termos psiquiátricos como um desvio sexual, uma inversão do masculino e do feminino.  A partir de então, no ramo da sexologia, a homossexualidade foi descrita como uma das formas emblemáticas da degeneração.  Experiências em laboratórios com ratos fêmeas e com seres humanos  que receberam testosterona (hormônio sexual masculino) ainda em fase uterina, resultou que desde a primeira fase da vida, mostravam comportamento masculinos como gostos, brincadeiras mais agressivas além de sentirem-se mais atraídas por fêmeas. Geneticistas defendem a tese de que a homossexualidade tem determinação genética. Glenn Wilson e Quazi Rahman, investigadores na área da psicologia, concluem que há diferenças biológicas entre pessoas homossexuais e heterossexuais, e que estas não podem ser ignoradas.  Alegam também que alguns fetos do sexo masculino com pré disposição genética para a homossexualidade são incapazes de absorver corretamente a testosterona no seu processo de desenvolvimento, de modo que os circuitos neurocerebrais responsáveis pela atração pelo sexo oposto, ou nunca se desenvolveram ou o fazem de forma deficiente. Quanto à homossexualidade feminina, esses investigadores avançam com a hipótese de haver uma proteína no útero responsável pela atração dos fetos femininos contra a exposição excessiva a hormônios masculinos que não atuam suficientemente cedo no processo de desenvolvimento.            

Psicólogos e psicanalistas estão contrários a argumentações apenas biogenéticas sobre as causas da homossexualidade e consideram a percepção desta orientação sexual como um traço “apenas” geneticamente determinado incorreta, buscando antes explicações associadas ao meio e à educação dos indivíduos homossexuais. Psicólogos norte americanos desenvolveram pesquisas sobre a importância da formação intra familiar no homossexual.            

Pansexualidade é a orientação sexual, distinta da bissexualidade e caracterizada por atração estética, amor romântico e o desejo sexual por qualquer um, incluindo pessoas que não se encaixam na binária de gênero macho/fêmea implicado pela atração bissexual. Algumas vezes é descrito como a capacidade de amar uma pessoa de forma romântica, independente do gênero. Alguns pansexuais chegam a afirmar que o gênero e sexo não têm importância para eles. Algumas pessoas trans e intersexuais se descrevem como pansexuais, tendo uma percepção íntima que existem muitos níveis entre o masculino e o feminino. Contudo isso não deve ser visto como generalização, já que as pessoas trans podem se identificar como heteros, bissexuais ou homos baseado em sua identidade de gênero.            

Existem três termos: travesti transexual e transgênero que as pesquisas e estudos realizados dentro da sexualidade ainda não têm uma classificação definitiva.            
Travesti era originalmente alguém que se vestia com roupas do sexo oposto para se apresentarem em eventos de fundo artísticos. Mas, essa prática passou a designar o comportamento das drag queens e transformistas. Esse termo atualmente se refere às pessoas que apresentam sua identidade de gênero oposta ao sexo designado no nascimento, mas que não almeja se submeter à cirurgia de resignação sexual que nada mais é do que a mudança de sexo. As pessoas que se definem travestis podem se identificar como homossexuais, heterossexuais, bissexuais ou assexuais.            

Transexual é uma pessoa que possui uma identidade de gênero oposta ao sexo designado, mas o que difere do travesti é que o transexual tanto homem quanto mulher, fazem ou pretendem fazer uma transição do seu sexo designado no nascimento com o sexo oposto. A explicação estereotipada é de uma mulher presa em um corpo masculino ou vice versa.  Transexualidade é um termo entre os comportamentos ou estados que abrigam o termo transgênero. Entretanto muitas pessoas da comunidade transexual não se identificam como transgênero que se refere a pessoas cuja expressão de gênero não corresponde ao papel social atribuído ao gênero designado para elas no nascimento. Mais recentemente o termo tem sido utilizado para definir pessoas que estão constantemente em trânsito entre um gênero e outro. O prefixo trans significa “além de”, “através de”.Não existe cientificamente nada que prove quais são as causas da transexualidade. Todavia, muitas teorias sugerem que as causas têm suas raízes na biologia e outros acreditam que as origens são predominantemente psicológicas. 

Dentre as causas psicológicas temos mães superprotetoras e pais ausentes, pais que almejavam uma criança do sexo oposto e homossexualidade reprimida.             
Em termos de individualidade ou essência, qualquer ser humano possui o gênero masculino e o gênero feminino dentro de si. No campo da sexualidade, temos muito ainda que pesquisar e estudar e definir realmente o que está por trás desses desejos sexuais e principalmente da “variedade” de orientações sexuais. Mas até lá o importante é que, qualquer que seja a orientação sexual dessas pessoas, como qualquer outro ser humano, elas merecem compreensão e são muito mais que um rótulo e que podem e devem ter uma vida comum como todos nós.              

Referências Bibliográficas

www.psicopedagogia.com.brwww.wikipedia.orgCARDOSO, Fernando Luiz, “O que é orientação sexual”, Editora Brasiliense

SCHIAVO, Marcio Ruiz, “Manual de Orientação Sexual”, Editora O Nome da Rosa

O Caráter Histérico e a sua Estrutura – Tovar Tomaselli

Dando continuidade aos meus artigos que versam sobre “A Histeria”, procurei me ater neste trabalho, ao “caráter”, bem como à “estrutura”, pertinentes a esse quadro patológico que tanto sofrimento traz a todos aqueles que dele padecem. Aqueles que tiveram o privilégio de assistir ao filme “Freud, além da alma”, puderam observar que Theodor Meynert, professor de Freud, o chama em seu leito de morte, dizendo a ele que ele, Meynert era um homem histérico, tendo solicitado que Freud lhe atravessasse uma agulha pela perna, para demonstrar a presença de uma “anestesia  histérica”. Fica aqui a sugestão desse maravilhoso filme, onde quem interpreta Freud é Montgomery Cliff. Simplesmente imperdível ! Procurei fazer constar no artigo algumas considerações que versam sobre a histeria masculina.

Após meus outros trabalhos como “Dora e a Identificação Histérica”, “Dora, 25 anos depois”, tentei me ater, neste outro artigo, naquilo que se denomina de “caráter histérico”, bem como em relação à sua “estrutura”. Conceitos absolutamente indispensáveis para que se possa efetuar uma leitura psicanalítica baseada nas evoluções pertinentes ao construto teórico da Psicanálise contemporânea.

Quando pensamos em qualquer estrutura psicopatológica, pode-se notar que os conceitos de conduta e de estrutura, se implicam mutuamente.

Freud não se cansou de destacar a não-existência de neuroses puras, afirmando que as neuroses são mistas, e que todas elas guardam em si certo quantum de hipocondria. Então, coloca-se a questão: “Em um sujeito neurótico, todas as suas condutas são de nível neurótico ou poderemos encontrar condutas que se qualificariam como perversas ou psicóticas?”

Outra questão que se coloca: ” E, em um perverso ou mesmo psicótico, não existiriam condutas neuróticas?”

Sabemos que já em 1938, Freud explicava essa coexistência pela via da “cisão do ego”. Então, embora não existam quadros puros, ficam pendentes algumas questões:

=== em função de que parâmetros avaliamos uma conduta como neurótica, perversa ou psicótica?

=== quando e em função de que nos sentimos no direito de dizer que as condutas de um sujeito, são sinais de uma neurose ou perversão?

Tentaremos apenas encaminhar a resposta a semelhante espectro de questões, apenas com o intuito de podermos vislumbrar a complexidade do tema.

As respostas sempre terão como polaridade principal a prevalência:

1-) do tipo de conflito:

a-) ego x id ou

b-) ego x id, por um lado e ego x realidade, por outro.

2-) do nível em que se propõe o conflito:

a-) edípico

b-) narcisista e pré-edípico

c-) ambos

3-) do grau de afastamento da realidade, da defesa empregada e do modo de restituir o rechaçado da realidade.

4-) do grau de aceitação, desafio ou rechaço da lei e da função paterna.

5-) da área e do modo como se manifesta a sexualidade infantil que demanda ser satisfeita.

6-) da fixidez, estereotipia e exclusividade na maneira de se relacionar com os objetos ou com o objeto sexual.

7-) de uma valorização sexual que brota de uma ideologia preconceituosa e, às vezes, compartilhada pela maioria.

Queremos ressaltar que esta classificação foi retirada do trabalho de H. Mayer, denominado “A Histeria”.

Retomamos agora a mais simples idéia sobre o que seria a estrutura de caráter, fazendo notar, que quando a ela se referir, estamos aludindo aos mecanismos habituais, aos quais apela o aparelho psíquico de um sujeito em sua tentativa  para resolver os seus conflitos psíquicos, os quais são geradores de angústia.

Através de uma vertente teórico-clínica, podemos notar que quando a angústia é muito intensa, bem como quando os mecanismos se mostram insuficientes, recorre-se inconscientemente a operações mentais como, por exemplo: a atuação, o sintoma ou a uma exacerbação dos traços de caráter acompanhada sempre de uma intensa rigidez, vindo a configurar uma espécie de “couraça defensiva”.

Note-se que mesmo quando falamos em mecanismos psicopáticos, neuróticos ou mesmo caracteropáticos, o mais importante a assinalar é que eles têm em comum sempre “o conflito”, cujas raízes residem no inconsciente, e às quais só teremos acesso através do trabalho analítico.

A Teatralidade, o exibicionismo e a sedução

Comumente esses traços são conhecidos como “histrionismo histérico”. Notamos que essas pessoas precisam mostrar-se, exibir-se, através de uma representação da qual não são sequer conscientes. Aqui, a pergunta que se coloca é: “O que representam?” Diríamos que uma trama na qual são encenados os proibidos desejos sexuais da infância.

Fenomenologicamente, então, estaríamos diante de uma menina, fortemente apegada à figura dos pais, a qual luta para vir a ser o par tanto da mãe, como do pai. Desse apego, resultaria a sua dúvida eterna sobre a sua identidade sexual. Na verdade, ela “representa ser uma mulher”, e tem como angústia a diferença sexual anatômica, a qual é interpretada por ela como a castração. Dessa representação, resultaria uma hiperfeminilidade. O que lhe interessa é despertar o desejo de um homem, muito mais do que alcançar o prazer sexual com um companheiro. Sabemos, através da clínica, que o homem que representa o seu companheiro ideal, será aquele fixado a uma mãe fálica.

Essa aproximação só ocorrerá uma vez que no curso da sedução exibicionista, esse homem deverá, através de seu desejo, confirmá-la como mulher, enquanto o que ele busca é ser confirmado em sua virilidade por esta “supermulher”, a qual representa a mãe idealizada, com quem desejara fundir-se na sua infância. Como uma decorrência de caráter, praticamente geral, nestes casos, sabemos que o ato sexual, se ocorrer, implicará numa mútua decepção. A mulher acreditará que está sendo usada como sendo um objeto sexual, e ele que a sua capacidade viril não está sendo suficiente para fazer gozar e deixar satisfeita uma mulher. Em outras palavras, ela se sente inferiorizada (castrada), e ele um menino impotente.

O encanto da fantasia é que ela, a mulher histérica, consegue ser o objeto de amor de um “pai idealizado”. Na verdade, tratam-se de sujeitos que sofrem uma realidade e que sonham acordados com uma outra realidade mais complacente, onde os desejos parecem cumprir-se de forma mágica. Quando o princípio da realidade  se apresenta tão subjugado pelo princípio do prazer, nas áreas em que isso ocorre, a passividade – motriz – contrasta com a força dos afetos que podem dar crédito às suas crenças fantasiosas. É nesse exato momento que alguns autores, destacam a existência da “mitomania”, como um traço de caráter histérico.

Notemos que, através da conversão, fenômeno típico da histeria, o corpo aparece como o lugar em que se expressa aquilo que a censura impede que seja pronunciado através das palavras. (”Quando um indivíduo se cala, ele fala pela ponta dos dedos.” S. Freud) Devemos entender e pensar o corpo da histérica, como sendo plenamente preenchido por metáforas, as quais serão necessárias vir à luz, e através do trabalho analítico.

Podemos inferir que a histérica foi amada por seus pais, não apenas de uma forma narcisista, isto é, que em certa medida desenvolveu seu Complexo de Édipo, e que, também descobriu e aceitou a castração materna, bem como a sua própria, vindo a desejar, assim, que o pai lhe dê o falo que lhe falta.

Será que poderíamos, então, falar de um “pai fálico da histérica”? Se não exatamente fálico, verdade é que se trata de um pai extremamente idealizado. É um pai para o qual se dirige toda a sedução infantil. Ou seja, para um pai e uma filha ou para uma mãe e um filho, o que sabemos é que: “A barreira do incesto nunca é tão frágil como aqui.”(na Histeria). Queremos deixar claro que  o desejo incestuoso e a sua repressão não são, por certo, privativos da histeria, mas na histeria se fazem presentes de maneira singular.

A sedução infantil, ou seja, a mútua sedução incestuosa, se constitui em um  ponto de fixação ao qual a fantasmagoria inconsciente resistirá a renunciar pelo resto da vida. Aqui, colocamos a pergunta para que se possa refletir: “Que satisfação sexual pode um simples homem procurar dar a uma mulher histérica, considerando a existência de um rival fantasmático tão poderoso?”

Algumas características sobre a tipologia histérica

=== A Ingenuidade:

A histérica tende a impressionar o outro quer do ponto de vista estético, quanto do ponto de visa do desejo sexual. Sabemos que isso que lhe dá esse ar de ingenuidade, ou ainda de ser possuidora de um “infantilismo emocional”, o qual, via de regra, é assinalado pelos autores que se dedicam à histeria. Sabemos que se a paciente pudesse tomar conhecimento disso, seria tomada por uma corrente de angústia e culpa, as quais inundariam o ego. A forma utilizada pelo psiquismo para que isso não ocorra, é fazer uso da “repressão”.

No que tange ao Complexo de Édipo, atualmente não mais poderíamos situar os impulsos reprimidos da histeria, somente referentes ao Édipo positivo. Estaríamos diante de uma visão míope da realidade, depois que Freud retificou a sua interpretação do Caso Dora, depois de ter descrito em 1923, o Complexo de Édipo completo. Também recebemos a informação da Clínica, a qual nos mostra incessantemente, a importância do vínculo homossexual na histeria.

=== O Infantilismo

Com esse termo, comumente são descritos uma série de traços habituais pertinentes ao caráter histérico, a saber: o egocentrismo, dependência de certos personagens idealizados, sugestionabilidade, ingenuidade, frigidez ou graus diversos de inibição genital, etc. Assim, costuma-se dizer que “A mulher histérica seduz e frustra”.

Segundo Lucien Israel: “não é uma mulher qualquer que se proponha consciente ou inconscientemente a “castrar” homens. O que devemos considerar é que por traz desse protótipo de mulher se evidencia, a existência de uma menina desvalorizada, que luta desesperadamente para alcançar o amor parental que lhe falta como filha.

Trata-se de uma evidência que verificamos na clínica que  o complemento dessa mãe que só reclama de ser mulher, é um pai submisso e dependente, o qual busca compensar essa humilhação, através da filha a quem manifesta, ou latentemente erotiza, reforçando suas fantasias dela transformar-se em sua parceira. Muitas vezes, o medo de entregar-se a um homem que pode abandoná-la é tal que provoca uma dissociação. Estabelece com o cônjuge com o qual está sexualmente insatisfeita, uma espécie de vínculo terno e dependente, enquanto coloca a satisfação sexual ou em um vínculo imaginário ou atual, mas fora da relação conjugal.

=== A Necessidade de Perfeição

Encontramos nas roupas, maquiagem, perfumes e até na companhia de um homem excepcional. Essa necessidade ficaria atribuída ao fato de que desde a sua posição infantil, teria interpretado a ausência do pênis como sendo uma “falta” humilhante e inaceitável. O vetor resultante dessa insatisfação seria uma busca compulsiva em todos os campos de atividades: físico, intelectual, cultural, etc. Contudo, sabemos que persistirá a eterna dúvida sobre o que lhe é próprio. Na comparação, as outras sempre serão mais belas, terão melhores condições de vida, o que vai “corroendo o seu templo narcisista”. Se está segura de algo é de não ter nunca escolhido suficientemente bem.

Lucien Israel nos diz: “Qual o vazio que, para a histérica, deve ser preenchido pelo homem?”… “Assim, deve ser mais forte e mais potente que o pai. O amo e senhor que atende o desejo da histérica: encontrar um mestre”.

Porém, é impossível para qualquer homem preencher esse vazio, sendo que: “O mestre, como todos os demais decepcionam a histérica. A decepção, insatisfação, se transformam em uma necessidade (…), a tal ponto que podemos acabar nos perguntando se o maior desejo da histérica, não consiste justamente em conservar intacto seu desejo, tendo que por isso, acumular fracassos e decepções”.

Só gostaríamos de citar, reforçando a importância dessa temática que W. Reich, em 1926, teria descrito como se tratando de um “caráter fálico-narcisista”. Encontramos dentro desse tipo caracterológico, várias formas ativas de homossexualidade masculina, bem como feminina, formações paranóicas e distintas perversões sexuais, sempre com um importante componente sádico.

=== Frieza emocional, Dissociação Afetivo-Sexual e Inibição Genital

Notamos, através de uma análise da literatura correspondente, uma preferência pelo termo “inibição genital”, como uma forma de referência à inibição sexual parcial, seletiva, etc. Sabe-se que a inibição por si só, não explica tudo o que ocorre, pois encontramos mulheres que atingem o orgasmo, mas que durante o coito e/ou depois dele, permanecem frias com relação ao homem, e tendem a “fugir” da cama; se deprimem; se mostram queixosas, ou ainda se afastam sob qualquer pretexto. Outras tantas são insensíveis com o marido e alcançam a plenitude do orgasmo em uma relação extra-conjugal esporádica ou mesmo de caráter permanente. Esses fatos conjugados nos levam a pensar que devemos considerar em conjunto a inibição sexual e a dissociação afetivo-sexual.

Ainda citando Lucien Israel, “a obtenção do orgasmo para a histérica, seria a morte”, “a  morte do desejo que faz diminuir a tensão.” Explica o citado autor: “essa atitude da histérica pode ser atribuída à necessidade de manter uma relação clandestina, na fantasia ou na realidade, com um representante paterno, ao mesmo tempo desejado e proibido, como sendo um sintoma que expressa a consumação e a punição frente ao cumprimento de um desejo condenado pelo Ideal, ou mesmo que expressa uma medida preventiva para a não realização de tal desejo”.

Da “novela familiar” da histérica, depreendemos que sua mãe não é consciente do mal que faz à filha, ao mostrar-lhe uma imagem denegrida do pai, ao mesmo tempo em que se apresenta como sendo a “vítima” desse marido. Assim, a filha adivinha e sofre o repúdio de sua identidade sexual por parte da mãe que a “ajudará” a construir um ideal inatingível: “O príncipe azul”, o mestre, como um ideal narcisista sim, porém também inatingível.

Da mesma maneira a menina é seduzida pelo pai, que estimula na filha a condição feminina. Sabemos que o pai da histérica está insatisfeito (sobretudo na sua auto-estima), e a sedução já não mais poderíamos colocá-la só entre aspas, uma vez que se encontra desprovida de uma “intermediação simbólica”.

Apenas algumas considerações sobre a Histeria Masculina

O caráter histérico masculino não difere muito do feminino. Sabemos que o homem histérico quer seduzir, ser amado por todos e não pode escolher, uma vez que se assim proceder, terá que renunciar a todo o resto, sendo que ele não se permite perder nada. Tem uma extremada necessidade de agradar para ser “confirmado” pelo desejo do outro. Quer para si, ser o ponto de condensação dos desejos dos demais— o filho único e maravilhoso— o homem histérico tem tanta insegurança quanto à sua identidade sexual, como a mulher histérica.

Tem uma necessidade ímpar de se apresentar como “superviril” (super-carros; super-mulheres, etc), como uma forma de obtenção fantasiosa de que todos o desejem. Como complemento desse estado de coisas, dessa ostentação machista que se rebelará a mulher histérica, adotando uma atitude frustradora em relação a ele.

Para Lucien Israel: “A relação amorosa entre dois histéricos é uma interminável disputa, ou mesmo uma representação tragicômica”. No homem a angústia de castração, aparece mais diretamente como síndromes de angústia, ou mesmo em virtude de certos deslocamentos, como pequenas ou grandes fobias. Sabemos, através da clínica que são menos freqüentes, mas existem também a presença de sintomas conversivos. Encontramos aqui uma supervalorização do pênis, equiparando-o ao falo. Notamos que o homem histérico sempre quer ser o melhor e o único, o que significaria que não superou a rivalidade com os pais, nem seu temor à punição pelos seus desejos sexuais proibidos.

De uma maneira geral, o pai frágil ou mesmo despótico, teria sido inseguro no exercício da lei. De qualquer forma, ao menino fica faltando a proteção paterna, a qual debilita a periculosidade que atribui aos seus desejos infantis.
Como complemento de um pai com estas características, encontraremos uma mãe que— sutil ou manifestamente— o desqualifica como homem. E, esta mesma mãe poderá seduzir o filho em maior ou menor grau, porém o fará sempre com um objetivo narcisista, faltando-lhe o verdadeiro amor de mãe, ou seja: o “amor terno”. O que deve, entre outras tantas coisas ser trazido à tona, através de um trabalho de análise é que, por traz de um homem histérico, portador de sua impotência, haveria nele uma maior necessidade da obtenção de ternura, do que propriamente de um amor genital .

 

Tovar Tomaselli
Psicólogo Clínico-Psicanalista-Prof.universitário

História da Personalidade e seus Transtornos – Erlei Sassi Jr e Fernanda Celeste O. Martins

A primeira descrição sobre personalidade foi feita por Hipocrates. Em 1891 Koch descreveu alguns “tipos” de personalidade. Depois Kraepelin em 1915 concebeu a seguinte classificação: instáveis, irritáveis, impulsivos, excêntricos, mentirosos, disputadores e anti-sociais. O primeiro a separar os distúrbios de personalidade das “doenças mentais” foi Pinel. Outros como Prichard e Kretschmer contribuíram para a evolução de conceitos e classificações, mas nenhum se destacou como Kurt Schneider que em 1923 publicou “As Personalidades Psicopaticas”, livro em que não classificou e sim descreveu de forma minuciosa as personalidades que propunha. Tal feito redefiniu o conceito de transtorno de personalidade acrescentando a geração de sofrimento para si ou para outros e a dificuldade de aprender com experiências como condições essenciais para o diagnostico. Atualmente transtorno de personalidade e definido como um padrão persistente de comportamento que desvia marcadamente das expectativas para a cultura de origem do individuo causando ma adaptação e inflexibilidade manifestadas através de sofrimento subjetivo ou disfunção sócia econômica. O interesse em estudar tal patologia tem aumentado consideravelmente desde 1980, provavelmente devido à possibilidade de maior diagnostico trazida pela classificação multi axial. Com aumento das pesquisas o conhecimento nesse campo tanto psicopatológico quanto farmacológico tem se desenvolvido e a revisão de conceitos sobre o que e a personalidade e como pode ser avaliada tem evoluído vertiginosamente. Nesse estudo optamos pela teoria biopsicossocial de cloninger e seu inventario de temperamento e caráter visto ser um dos mais validados no mundo, com uma visão das mais amplas e abrangentes do transtorno de personalidade. Segundo Cloninger que se dedicou ao estudo e definição da personalidade, podemos caracterizá-la como uma organização dinâmica dos sistemas psicofísicos do individuo que determinam seu ajuste único ao meio ambiente. Sendo uma entidade dinâmica esta em constante desenvolvimento e mudança, apresentando estabilização aos 50 anos de idade em media. O modelo proposto por cloninger e tridimensional, biopsicossocial e será detalhado posteriormente.

Epidemiologia: Prevalência de 2- 13% sendo as taxas mais elevadas em comunidades urbanas, entre homens e em classes sociais desfavorecidas

Etiologia : Existem varias teorias que tentam esclarecer a etiologia dos transtornos de personalidade (TP), citaremos algumas mais difundidas. Teoria do Espectro de Eixo I: Baseada nas idéias de Ernst Kretchmer em que as alterações da personalidade seriam expressões menores de síndromes de eixo I. Consequentemente partilhariam da mesma etiologia. Essa correlação pode ser encontrada por exemplo entre a Esquizofrenia e o TP Esquizotípico, Fobia social e TP de Esquiva e entre Transtornos afetivos e TP do cluster B. Outra visão seria considerar os TP como fatores predisponentes, pré-morbidos ou síndromes subclinicas dos transtornos do eixo I. Teoria Psicodinâmica: Esse modelo postula que diferentes tipos de TP refletem diferentes expressões do mesmo núcleo deficitário na personalidade. Mecanismos de defesa imaturos e uma formação fragmentada e frágil do self são normais no inicio da formação do individuo e patológicos se persistem na vida adulta. Tal condição e resultado de fatores constitucionais (genética) e fatores ambientais (abuso físico ou mental, separação precoce, negligencia). Por causa desses fatores traumáticos representações negativas do self e objetos externos são incorporados macicamente no mundo psíquico. Para o modelo psicodinâmico o núcleo deficitário e chamado núcleo Borderline: esse funcionamento e caracterizado por ansiedade crônica, neurose polissintomatica, coexistência de impulsos sexuais genitais e pré genitais, descontrole de impulsos e adiccao, processos primitivos de pensamento (fantasias e pensamento mágico) e ligação frouxa com a realidade. Tais sinais e sintomas do núcleo são encontrados em todos TP. Os comportamentos desadaptativos que caracterizam os TP tentam proteger um ser vulnerável e as diversas apresentações clinicas são resultado da combinação de fatores internos (timidez, curiosidade, persistência) e externos (cultura de origem, níveis social e educacional). O termo Borderline assim como a teoria do núcleo e o desenvolvimentos de técnicas para o tratamento desses pacientes foram desenvolvidos por Otto Kenberg nos anos 70. Teoria Biopsicossocial: Esse modelo e o psicodinâmico compartilham a crença em um denominador comum, o núcleo, que representa a “raiz” de todos os TP. Na teoria psicodinâmica o núcleo e chamado Borderline, na teoria tridimensional (biopsicossocial) o núcleo e o pobre desenvolvimento do auto-direcionamento. No entanto apenas o modelo em questão contempla tanto as experiências do individuo quanto a influencia do meio e da genética. O modelo psicodinâmico foi essencial para um primeiro entendimento desse novo campo e ainda hoje e importantíssimo para o desenvolvimento de abordagens psicoterapicas. Essa teoria foi desenvolvida por Clonninger, que acredita ser a personalidade formada por dois componentes, o temperamento e o caráter. O temperamento seria a porção da personalidade herdada, e composto por traços: busca pela novidade, esquiva ao dano, persistência e dependência de gratificação. Tais traços determinam a suceptividade do individuo a processos neuroquimicos específicos gerando emoções e interferindo nos processos de aprendizagem. O caráter seria a porção aprendida, influenciada pelo temperamento e ao mesmo tempo influenciando-o. O caráter e composto principalmente de conceitos internalizados sobre o mundo e o individuo em si. Também pode ser dividido em traços: auto-direcionamento, auto-transcendencia e cooperatividade. A divisão da personalidade nesse modelo ajuda a compreender os vários fatores que a formam, quais se repetem em todos os transtornos e aqueles que são específicos de cada subtipo. O baixo auto-direcionamento marca o surgimento do TP com o perpetuação de mecanismos de defesa imaturos.

 

Epidemiologia:
Prevalência de 2- 13% sendo as taxas mais elevadas em comunidades urbanas, entre homens e em classes sociais desfavorecidas

Etiologia :
Existem varias teorias que tentam esclarecer a etiologia dos transtornos de personalidade (TP), citaremos algumas mais difundidas.
Teoria do Espectro de Eixo I: Baseada nas idéias de Ernst Kretchmer em que as alterações da personalidade seriam expressões menores de síndromes de eixo I. Consequentemente partilhariam da mesma etiologia. Essa correlação pode ser encontrada por exemplo entre a Esquizofrenia e o TP Esquizotípico, Fobia social e TP de Esquiva e entre Transtornos afetivos e TP do cluster B.
Outra visão seria considerar os TP como fatores predisponentes, pré-morbidos ou síndromes subclinicas dos transtornos do eixo I.
Teoria Psicodinâmica: Esse modelo postula que diferentes tipos de TP refletem diferentes expressões do mesmo núcleo deficitário na personalidade.
Mecanismos de defesa imaturos e uma formação fragmentada e frágil do self são normais no inicio da formação do individuo e patológicos se persistem na vida adulta. Tal condição e resultado de fatores constitucionais (genética) e fatores ambientais (abuso físico ou mental, separação precoce, negligencia). Por causa desses fatores traumáticos representações negativas do self e objetos externos são incorporados macicamente no mundo psíquico.
Para o modelo psicodinâmico o núcleo deficitário e chamado núcleo Borderline: esse funcionamento e caracterizado por ansiedade crônica, neurose polissintomatica, coexistência de impulsos sexuais genitais e pré genitais, descontrole de impulsos e adiccao, processos primitivos de pensamento (fantasias e pensamento mágico) e ligação frouxa com a realidade. Tais sinais e sintomas do núcleo são encontrados em todos TP. Os comportamentos desadaptativos que caracterizam os TP tentam proteger um ser vulnerável e as diversas apresentações clinicas são resultado da combinação de fatores internos (timidez, curiosidade, persistência) e externos (cultura de origem, níveis social e educacional).
O termo Borderline assim como a teoria do núcleo e o desenvolvimentos de técnicas para o tratamento desses pacientes foram desenvolvidos por Otto Kenberg nos anos 70.
Teoria Biopsicossocial: Esse modelo e o psicodinâmico compartilham a crença em um denominador comum, o núcleo, que representa a “raiz” de todos os TP. Na teoria psicodinâmica o núcleo e chamado Borderline, na teoria tridimensional (biopsicossocial) o núcleo e o pobre desenvolvimento do auto-direcionamento. No entanto apenas o modelo em questão contempla tanto as experiências do individuo quanto a influencia do meio e da genética. O modelo psicodinâmico foi essencial para um primeiro entendimento desse novo campo e ainda hoje e importantíssimo para o desenvolvimento de abordagens psicoterapicas.
Essa teoria foi desenvolvida por Clonninger, que acredita ser a personalidade formada por dois componentes, o temperamento e o caráter.
O temperamento seria a porção da personalidade herdada, e composto por traços: busca pela novidade, esquiva ao dano, persistência e dependência de gratificação. Tais traços determinam a suceptividade do individuo a processos neuroquimicos específicos gerando emoções e interferindo nos processos de aprendizagem.
O caráter seria a porção aprendida, influenciada pelo temperamento e ao mesmo tempo influenciando-o. O caráter e composto principalmente de conceitos internalizados sobre o mundo e o individuo em si. Também pode ser dividido em traços: auto-direcionamento, auto-transcendencia e cooperatividade.
A divisão da personalidade nesse modelo ajuda a compreender os vários fatores que a formam, quais se repetem em todos os transtornos e aqueles que são específicos de cada subtipo. O baixo auto-direcionamento marca o surgimento do TP com o perpetuação de mecanismos de defesa imaturos.

Definição: Autocrítica

A autocrítica refere-se à capacidade interna do indivíduo de realizar uma crítica de si mesmo. Ela implica na análise de seus atos, da sua maneira de agir, dos erros cometidos e das possibilidades de realizar uma autocorreção. Desta forma o sujeito se aprimora. Esse mecanismo é inerente ao processo de autoconhecimento – o ser conhece a si mesmo, identifica seus pontos fortes e fracos, suas potencialidades, e a partir daí corrige os rumos de sua jornada existencial, e se aplica também a um grupo social e a uma instituição.Esta sucessão de movimentos psíquicos, que compõe o encontro do indivíduo consigo mesmo, e que passa necessariamente pela autocrítica, é mais complexa do que parece. Normalmente as pessoas estão tão mergulhadas na rotina, e preocupadas em ver no outro os defeitos que lhe são inerentes, bem como em julgar seus semelhantes, que se esquece de voltar-se para si mesmo e realizar um exame minucioso de suas próprias atitudes. Os que se aventuram nessa caminhada interior encontram em sua trilha melindres e suscetibilidades, bloqueios e outras tantas dificuldades.Por outro lado, há pessoas extremamente perfeccionistas que exigem demais de si mesmas, e assim exageram na sua auto-avaliação, mergulhando fundo na autocrítica e só enxergando defeitos e sombras em seu íntimo. Enquanto os outros erram pela falta desta qualidade, estes pecam pelo seu excesso. É necessário encontrar sempre o equilíbrio nesses processos psicológicos.
Em doutrinas político filosóficas, como o marxismo-leninismo – junção das teorias de Karl Marx e de Vladimir Ilitch Ulianov, mais conhecido como Lênin -, a autocrítica é vista como um método científico e também enquanto exercício político constante. Através deste método os socialistas buscam a transformação da sociedade por meio da prática do Comunismo, resultado final de um desenvolvimento dialético – confronto entre tese e antítese, do qual brota a síntese, que se torna tese e dá seqüência a esse processo infinito. Esta forma de abordar a realidade engloba uma constante busca da verdade e do aperfeiçoamento de uma realidade, que assim passa por um exame permanente do real – a crítica – e pela procura de uma perfeição também interior – por intermédio da autocrítica. 
Publicado em: on 21/10/2008 at 10:58 PM Deixe um comentário
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