SUTIL DIFERENÇA

Postado em Arte, Artigos, Crônicas, Filosofia, Literatura, Prosa, Psicanálise, Sexualidade em 10/11/2009 por David Duarte Correia Jr

 

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Depois de algum tempo você aprende a diferença, a sutil diferença, entre dar a mão e acorrentar uma alma. E você aprende que amar não significa apoiar-se, e que companhia nem sempre significa segurança.

E começa a aprender que beijos não são contratos, e, presentes não são promessas.

E começa a aceitar suas derrotas com a cabeça erguida e olhos adiante, com a graça de um adulto e não com a tristeza de uma criança.

E aprende a construir todas as suas estradas no hoje, porque o terreno do amanhã é incerto demais para os planos, e o futuro tem o costume de cair em meio ao vão.

Depois de um tempo você aprende que o sol queima se ficar exposto por muito tempo.
E aprende que não importa o quanto você se importe, algumas pessoas simplesmente não se importam…
E aceita que não importa quão boa seja uma pessoa, ela vai feri-lo de vez em quando e você precisa perdoá-la por isso. Aprende que falar pode aliviar dores emocionais.

Descobre que se leva anos para construir confiança e apenas segundos para destruí-la, e que você pode fazer coisas em um instante, das quais se arrependerá pelo resto da vida.

Aprende que verdadeiras amizades continuam a crescer mesmo a longas distâncias.
E o que importa não é o que você tem na vida, mas quem você tem da vida. E que bons amigos são a família que nos permitiram escolher.

Aprende que não temos que mudar de amigos, se compreendemos que os amigos mudam, percebe que seu melhor amigo e você podem fazer qualquer coisa, ou nada, e terem bons momentos juntos.
Descobre que as pessoas com quem você mais se importa na vida são tomadas de você muito depressa – por isso, sempre devemos deixar as pessoas que amamos com palavras amorosas, pode ser a ultima vez que as vejamos.

Aprende que as circunstâncias e os ambientes têm influência sobre nós, mas nós somos responsáveis por nós mesmos.
Começa a aprender que não se deve comparar com os outros, mas com o melhor que pode ser. Descobre que se leva muito tempo para se tornar a pessoa que quer ser, e que o tempo é curto.

Aprende que não importa onde já chegou, mas onde está indo, mas se você não sabe para onde está indo, qualquer lugar serve.

Aprende que, ou você controla seus atos ou eles o controlarão, e que ser flexível não significa ser fraco ou não ter personalidade, pois não importa quão delicada e frágil seja uma situação, sempre existem dois lados.

Aprende que heróis são pessoas que fizeram o que era necessário fazer, enfrentando as conseqüências.

Aprende que paciência requer muita prática. Descobre que algumas vezes, a pessoa que você espera que o chute quando você cai, é uma das poucas que o ajudam a levantar-se.

Aprende que maturidade tem mais a ver com os tipos de experiência que se teve e o que você aprendeu com elas, do que com quantos aniversários, você celebrou.

Aprende que há mais dos seus pais em você do que você supunha.

Aprende que nunca se deve dizer a uma criança que sonhos são bobagens, poucas coisas são tão humilhantes e seria uma tragédia se ela acreditasse nisso.

Aprende que quando está com raiva tem o direito de estar com raiva, mas isso não te dá o direito de ser cruel.
Descobre que só porque alguém não o ama do jeito que você quer que ame, não significa que esse alguém não o ama com tudo o que pode, pois existem pessoas que nos amam, mas simplesmente não sabem como demonstrar ou viver isso.

Aprende que nem sempre é suficiente ser perdoado por alguém, algumas vezes você tem que aprender a perdoar-se a si mesmo.

Aprende que com a mesma severidade com que julga, você será em algum momento condenado.

Aprende que não importa em quantos pedaços seu coração foi partido, o mundo não pára para que você o conserte.

Aprende que o tempo não é algo que possa voltar para trás. Portanto, plante seu jardim e decore sua alma, ao invés de esperar que alguém lhe traga flores.

E você aprende que realmente pode suportar… que realmente é forte, e que pode ir muito mais longe depois de pensar que não se pode mais. E que realmente a vida tem valor e que você tem valor diante da vida!.

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HÁ HORAS EM NOSSA VIDA QUE…

Postado em Arte, Artigos, Crônicas, Filosofia, Literatura, Prosa, Psicanálise, Sexualidade em 03/11/2009 por David Duarte Correia Jr

 

tempo

Há horas em nossa vida que somos tomados por uma enorme sensação de inutilidade, de vazio. Questionamos o porquê de nossa existência e nada parece fazer sentido. Concentramos nossa atenção no lado mais cruel da vida, aquele que é implacável e a todos afeta indistintamente: As perdas do ser humano.

Ao nascer, perdemos o aconchego, a segurança e a proteção do útero. Estamos, a partir de então, por nossa conta. Sozinhos. Começamos a vida em perda e nela continuamos.
Paradoxalmente, no momento em que perdemos algo, outras possibilidades nos surgem. Ao perdermos o aconchego do útero, ganhamos os braços do mundo. Ele nos acolhe: encanta e assusta, nos eleva e nos destrói. E continuamos a perder e seguimos a ganhar.

Perdemos primeiro a inocência da infância. A confiança absoluta na mão que segura nossa mão, a coragem de andar na bicicleta sem rodinhas porque alguém ao nosso lado nos assegura que não nos deixará cair… E ao perdê-la, adquirimos a capacidade de questionar. Por quê? Perguntamos a todos e de tudo. Abrimos portas para um novo mundo e fechamos janelas, irremediavelmente deixadas para trás.

Estamos crescendo. Nascer, crescer, adolescer, amadurecer, envelhecer, morrer. Vamos perdendo aos poucos alguns direitos e conquistando outros. Perdemos o direito de poder chorar bem alto, aos gritos mesmo, quando algo nos é tomado contra a vontade. Perdemos o direito de dizer absolutamente tudo que nos passa pela cabeça sem medo de causar melindres. Assim, se nossa tia às vezes nos parece gorda tememos dizer-lhe isso.

Receamos dar risadas escandalosamente da bermuda ridícula do vizinho ou puxar as “pelanquinhas” do braço da avó com a maior naturalidade do mundo e ainda falar bem alto sobre o assunto. Estamos crescidos e nos ensinam que não devemos ser tão sinceros. E aprendemos. E vamos adolescendo, ganhamos peso, ganhamos seios, ganhamos pelos, ganhamos altura, ganhamos o mundo.

Neste ponto, vivemos em grande conflito. O mundo todo nos parece inadequado aos nossos sonhos ah, os sonhos!!! Ganhamos muitos sonhos. Sonhamos dormindo, sonhamos acordados, sonhamos o tempo todo.  Aí, de repente, caímos na real! Estamos amadurecendo, todos nos admiram. Tornamo-nos equilibrados, contidos, ponderados. Perdemos a espontaneidade. Passamos a utilizar o raciocínio, a razão acima de tudo. Mas não é justamente essa a condição que nos coloca acima (?) dos outros animais? A racionalidade, a capacidade de organizar nossas ações de modo lógico e racionalmente planejado?

E continuamos amadurecendo, ganhamos um carro novo, um companheiro, ganhamos um diploma. E desgraçadamente perdemos o direito de gargalhar, de andar descalço, tomar banho de chuva, lamber os dedos e soltar pum sem querer. Mas perdemos peso!!! Já não pulamos mais no pescoço de quem amamos e tascamos-lhe aquele beijo estalado, mas apertamos as mãos de todos, ganhamos novos amigos, ganhamos um bom salário, ganhamos reconhecimento, honrarias, títulos honorários e a chave da cidade. E assim, vamos ganhando tempo, enquanto envelhecemos.

De repente percebemos que ganhamos algumas rugas, algumas dores nas costas (ou nas pernas), ganhamos celulite, estrias, ganhamos peso. e perdemos cabelos. Nos damos conta que perdemos também o brilho no olhar, esquecemos os nossos sonhos, deixamos de sorrir, perdemos a esperança. Estamos envelhecendo. Não podemos deixar pra fazer algo quando estivermos morrendo. Afinal, quem nos garante que haverá mesmo um renascer, exceto aquele que se faz em vida, pelo perdão a si próprio, pelo compreender que as perdas fazem parte, mas que apesar delas, o sol continua brilhando e felizmente chove de vez em quando, que a primavera sempre chega após o inverno, que necessita do outono que o antecede.

Que a gente cresça e não envelheça simplesmente. Que tenhamos dores nas costas e alguém que as massageie. Que tenhamos rugas e boas lembranças. Que tenhamos juízo, mas mantenhamos o bom humor e um pouco de ousadia. Que sejamos racionais, mas lutemos por nossos sonhos. E, principalmente, que não digamos apenas eu te amo, mas ajamos de modo que aqueles a quem amamos, sintam-se amados mais do que saibam-se amados.

Afinal, o que é o tempo? Não é nada em relação a nossa grande missão.

E que missão! 

Fique em Paz!

"Salvador Dalí"

REVOLUÇÃO DA ALMA – ARISTÓTELES

Postado em Arte, Filosofia, Literatura, Psicanálise, Sexualidade em 03/11/2009 por David Duarte Correia Jr

ARISTÓTELES - MUSEU DO LOUVRE

Aristóteles, filósofo grego, escreveu este texto “Revolução da Alma” no ano 360 A.C. . . Ninguém é dono da sua felicidade, por isso não entregue a sua alegria, a sua paz, a sua vida nas mãos de ninguém, absolutamente ninguém.

Somos livres, não pertencemos a ninguém e não podemos querer ser donos dos desejos, da vontade ou dos sonhos de quem quer que seja. A razão de ser da sua vida é você mesmo. A sua paz interior deve ser a sua meta de vida; quando sentir um vazio na alma, quando acreditar que ainda falta algo, mesmo tendo tudo, remeta o seu pensamento para os seus desejos mais íntimos e busque a divindade que existe dentro de si.

Pare de procurar a sua felicidade cada dia mais longe. Não tenha objetivos longe demais das suas mãos, abrace aqueles que estão ao seu alcance hoje. Se está desesperado devido a problemas financeiros, amorosos ou de relacionamentos familiares, busque no seu interior a resposta para se acalmar, você é reflexo do que pensa diariamente. Pare de pensar mal de si mesmo, e seja o seu próprio melhor amigo, sempre.

Sorrir significa aprovar, aceitar, felicitar. Então abra um sorriso de aprovação para o mundo, que tem o melhor para lhe oferecer. Com um sorriso, as pessoas terão melhor impressão sua, e você estará afirmando para si mesmo, que está “pronto”para ser feliz. Trabalhe, trabalhe muito a seu favor. Pare de esperar que a felicidade chegue sem trabalho.

Pare de exigir das pessoas aquilo que nem você conquistou ainda. Agradeça tudo aquilo que está na sua vida, neste momento, incluindo nessa gratidão, a dor. A nossa compreensão do universo ainda é muito pequena, para julgarmos o que quer que seja na nossa vida.

“A grandeza não consiste em receber honras, mas em merecê-las.”

Procure sempre lembrar…

Postado em Arte, Artigos, Literatura em 25/10/2009 por David Duarte Correia Jr

Que duas pessoas discutindo, não quer dizer que se odeiam.

Que duas pessoas felizes, não quer dizer que se amam.

Que o mundo dá voltas e a vida é uma seqüência de desafios.

Que algumas feridas saram, outras não.

Que com a pessoa certa, uma vida é pouco tempo. Que com a pessoa errada, um minuto é muito.

Que mesmo acompanhado ainda pode estar só.

Que caráter vem de berço, não se compra.

Que Amor não se exige; se dá.

Que seus amigos eventualmente vão te machucar. São humanos.

Que um ato pode mudar toda uma vida.

Que nem toda uma vida pode mudar alguns dos nossos atos.

Que o importante pra mim, pode não ser o mesmo pra outros, e isso não é um defeito.

Que a decência é uma prática diária.

Que humilhar é a pior das covardias.

Que a capacidade de amar, é nata. Não depende de terceiros.

Que a beleza está na alma.

 

“A cada dia que vivo, mais me convenço de que o desperdício da vida está no amor que não damos, nas forças que não usamos, na prudência egoísta que nada arrisca, e que, esquivando-se do sofrimento, perdemos também a felicidade”.

Carlos Drummond de Andrade

QUERO – CARLOS DRUMMOND DE ANDRADE

Postado em Arte, Literatura, Poesia, Sexualidade em 21/09/2009 por David Duarte Correia Jr

Quero que todos os dias do ano
todos os dias da vida
de meia em meia hora
de 5 em 5 minutos
me digas: Eu te amo.

Ouvindo-te dizer: Eu te amo,
creio, no momento, que sou amado.
No momento anterior
e no seguinte,
como sabê-lo?

Quero que me repitas até a exaustão
que me amas que me amas que me amas.
Do contrário evapora-se a amação
pois ao não dizer: Eu te amo,
desmentes
apagas
teu amor por mim.

Exijo de ti o perene comunicado.
Não exijo senão isto,
isto sempre, isto cada vez mais.
Quero ser amado por e em tua palavra
nem sei de outra maneira a não ser esta
de reconhecer o dom amoroso,
a perfeita maneira de saber-se amado:
amor na raiz da palavra
e na sua emissão,
amor
saltando da língua nacional,
amor
feito som
vibração espacial.

No momento em que não me dizes:
Eu te amo,
inexoravelmente sei
que deixaste de amar-me,
que nunca me amastes antes.

Se não me disseres urgente repetido
Eu te amoamoamoamoamo,
verdade fulminante que acabas de desentranhar,
eu me precipito no caos,
essa coleção de objetos de não-amor.

SABEDORIA: PASSAGEM DO TALMUD

Postado em Arte, Artigos, Filosofia, Literatura, Psicanálise em 03/09/2009 por David Duarte Correia Jr
  sabedoria “Presta atenção em teus pensamentos,
pois eles se tornarão palavras
preste atenção em tuas palavras,
pois elas se tornarão atos
preste atenção em teus atos,
pois eles se tornarão hábitos,
preste atenção em teus hábitos,
pois eles se tornarão o teu caráter
preste atenção em teu caráter,
pois ele é o teu destino.”
 

DIÁLOGO – OLAVO BILAC

Postado em Artigos em 13/08/2009 por David Duarte Correia Jr

O mancebo perfeito e o velho humilde e rude.

Viram-se. E disse ao velho o mancebo perfeito:

“Glória a mim! sorvo o céu num hausto do meu peito!”

 E o velho: “Engana o céu… Tudo na terra ilude…”

 ”Rebentam roseirais do chão em que me deito!”

 ”A alma da noite embala a minha senectude…”

“Quando acordo, há um clarão de graça e de saúde!”

“Pudesse ser perpétua a calma do meu leito!”

 ”Quero vibrar, agir, vencer a Natureza,

Viver a Vida!”  ”A Vida é um capricho do vento…” “

Vivo, e posso!” “O poder é uma ilusão da sorte…”

 ”Herói e deus, serei a beleza!” “A beleza

É a paz!” “Serei a força!” “A força é o esquecimento…” “

Serei a perfeição!”  “A perfeição é a morte!”

13 LINHAS PARA VIVER

Postado em Artigos em 02/08/2009 por David Duarte Correia Jr
Gabriel García Marquez

Gabriel García Marquez

1)Te amo não por quem tu és, mas por quem sou quando estou contigo.

2)Nenhuma pessoa merece tuas lágrimas e quem as merece não te faz chorar.

3)Só porque alguém não te ama como tu desejas, não significa que não te ame com todo o seu ser.

4)Um verdadeiro amigo é quem te pega a mão e te toca o coração.

5)A pior forma de sentir falta de alguém é estar sentado a seu lado e saber qeu nunca o poderá ter.

6)Nunca deixes de sorrir, nem mesmo quando estais triste porque nunca sabes quem podera enamorar-se de teu sorriso.

7)Podes ser somente uma pessoa para o mundo, mas para alguma pessoa tu és o mundo.

8)Não passes o tempo com alguém que não esteja disposto a passá-lo contigo.

9)Quem sabe Deus queira que conhecças muita gente enganada antes que conheças a pessoa adequada para que, quando no fim a conheças, saibas estar agradando.

10)Não chores porque já terminou, sorria porque aconteceu.

11)Sempre haverá gente que te machuque. Assim, o que tens de fazer é seguir confiando e só ser mais cuidadoso em quem confias duas vezes.

12)Converte-te em uma melhor pessoa e assegura-te de saber quem és antes de conhecer mais alguém e esperar que essa pessoa saiba quem és.

13)Não te esforces tanto, as melhores coisas acontecem quando menos esperas.

Tudo o que acontece, sucede por alguma razão…

GABRIEL GARCÍA MARQUEZ

POEMAS – CECÍLIA MEIRELES

Postado em Arte, Literatura, Poesia, Prosa com as tags , , , , em 19/07/2009 por David Duarte Correia Jr

 

 Cecilia Meireles

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 Canção

Pus o meu sonho num navio
e o navio em cima do mar;
- depois, abri o mar com as mãos,
para o meu sonho naufragar

Minhas mãos ainda estão molhadas
do azul das ondas entreabertas,
e a cor que escorre de meus dedos
colore as areias desertas.

O vento vem vindo de longe,
a noite se curva de frio;
debaixo da água vai morrendo
meu sonho, dentro de um navio…

Chorarei quanto for preciso,
para fazer com que o mar cresça,
e o meu navio chegue ao fundo
e o meu sonho desapareça.

Depois, tudo estará perfeito;
praia lisa, águas ordenadas,
meus olhos secos como pedras
e as minhas duas mãos quebradas.

 

Motivo
 

Eu canto porque o instante existe
e a minha vida está completa.
Não sou alegre nem sou triste:
sou poeta.

Irmão das coisas fugidias,
não sinto gozo nem tormento.
Atravesso noites e dias
no vento.

Se desmorono ou se edifico,
se permaneço ou me desfaço,
— não sei, não sei. Não sei se fico
ou passo.

Sei que canto. E a canção é tudo.
Tem sangue eterno a asa ritmada.
E um dia sei que estarei mudo:
— mais nada.

 

Discurso
 

E aqui estou, cantando.

Um poeta é sempre irmão do vento e da água:
deixa seu ritmo por onde passa.

Venho de longe e vou para longe:
mas procurei pelo chão os sinais do meu caminho
e não vi nada, porque as ervas cresceram e as serpentes
andaram.

Também procurei no céu a indicação de uma trajetória,
mas houve sempre muitas nuvens.
E suicidaram-se os operários de Babel.

Pois aqui estou, cantando.

Se eu nem sei onde estou,
como posso esperar que algum ouvido me escute?

Ah! Se eu nem sei quem sou,
como posso esperar que venha alguém gostar de mim?

 

Retrato
 

Eu não tinha este rosto de hoje,
assim calmo, assim triste, assim magro,
nem estes olhos tão vazios,
nem o lábio amargo.

Eu não tinha estas mãos sem força,
tão paradas e frias e mortas;
eu não tinha este coração
que nem se mostra.

Eu não dei por esta mudança,
tão simples, tão certa, tão fácil:
— Em que espelho ficou perdida
a minha face?

 

 

 Atitude

 

Minha esperança perdeu seu nome…
Fechei meu sonho, para chamá-la.
A tristeza transfigurou-me
como o luar que entra numa sala.

O último passo do destino
parará sem forma funesta,
e a noite oscilará como um dourado sino
derramando flores de festa.

Meus olhos estarão sobre espelhos, pensando
nos caminhos que existem dentro das coisas transparentes.

E um campo de estrelas irá brotando
atrás das lembranças ardentes.

 

Timidez
 

Basta-me um pequeno gesto,
feito de longe e de leve,
para que venhas comigo
e eu para sempre te leve…

— mas só esse eu não farei.

Uma palavra caída
das montanhas dos instantes
desmancha todos os mares
e une as terras mais distantes…

— palavra que não direi.

Para que tu me adivinhes,
entre os ventos taciturnos,
apago meus pensamentos,
ponho vestidos noturnos,

— que amargamente inventei.

E, enquanto não me descobres,
os mundos vão navegando
nos ares certos do tempo,
até não se sabe quando…

— e um dia me acabarei.

 

Depois do sol…
 

Fez-se noite com tal mistério,
Tão sem rumor, tão devagar,
Que o crepúsculo é como um luar
Iluminando um cemitério . . .
 

Tudo imóvel . . . Serenidades . . .
Que tristeza, nos sonhos meus!
E quanto choro e quanto adeus
Neste mar de infelicidades!
 

Oh! Paisagens minhas de antanho . . .
Velhas, velhas . . . Nem vivem mais . . .
— As nuvens passam desiguais,
Com sonolência de rebanho . . .
 

Seres e coisas vão-se embora . . .
E, na auréola triste do luar,
Anda a lua, tão devagar,
Que parece Nossa Senhora

Pelos silêncios a sonhar . . .

  

Pássaro
 

Aquilo que ontem cantava
já não canta.
Morreu de uma flor na boca:
não do espinho na garganta.
 

Ele amava a água sem sede,
e, em verdade,
tendo asas, fitava o tempo,
livre de necessidade.
 

Não foi desejo ou imprudência:
não foi nada.
E o dia toca em silêncio
a desventura causada.
 

Se acaso isso é desventura:
ir-se a vida
sobre uma rosa tão bela,
por uma tênue ferida.

 

É preciso não esquecer nada
 

É preciso não esquecer nada:
nem a torneira aberta nem o fogo aceso,
nem o sorriso para os infelizes
nem a oração de cada instante.
 

É preciso não esquecer de ver a nova borboleta
nem o céu de sempre.
 

O que é preciso é esquecer o nosso rosto,
o nosso nome, o som da nossa voz, o ritmo do nosso pulso.
 

O que é preciso esquecer é o dia carregado de atos,
a idéia de recompensa e de glória.
 

O que é preciso é ser como se já não fôssemos,
vigiados pelos próprios olhos
severos conosco, pois o resto não nos pertence.

FRAGMENTOS DE CLARICE LISPECTOR

Postado em Arte, Artigos, Literatura com as tags , , em 12/07/2009 por David Duarte Correia Jr

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 Temperamento impulsivo

“Sou o que se chama de pessoa impulsiva. Como descrever? Acho que assim: vem-me uma idéia ou um sentimento e eu, em vez de refletir sobre o que me veio, ajo quase que imediatamente. O resultado tem sido meio a meio: às vezes acontece que agi sob uma intuição dessas que não falham, às vezes erro completamente, o que prova que não se tratava de intuição, mas de simples infantilidade.
       Trata-se de saber se devo prosseguir nos meus impulsos. E até que ponto posso controlá-los. [...] Deverei continuar a acertar e a errar, aceitando os resultados resignadamente? Ou devo lutar e tornar-me uma pessoa mais adulta? E também tenho medo de tornar-me adulta demais: eu perderia um dos prazeres do que é um jogo infantil, do que tantas vezes é uma alegria pura. Vou pensar no assunto. E certamente o resultado ainda virá sob a forma de um impulso. Não sou madura bastante ainda. Ou nunca serei.”

Lúcida em excesso

       “Estou sentindo uma clareza tão grande que me anula como pessoa atual e comum: é uma lucidez vazia, como explicar? assim como um cálculo matemático perfeito do qual, no entanto, não se precise. Estou por assim dizer vendo claramente o vazio. E nem entendo aquilo que entendo: pois estou infinitamente maior do que eu mesma, e não me alcanço. Além do quê: que faço dessa lucidez? Sei também que esta minha lucidez pode-se tornar o inferno humano — já me aconteceu antes. Pois sei que — em termos de nossa diária e permanente acomodação resignada à irrealidade — essa clareza de realidade é um risco. Apagai, pois, minha flama, Deus, porque ela não me serve para viver os dias. Ajudai-me a de novo consistir dos modos possíveis. Eu consisto, eu consisto, amém.”.

Ideal de vida

       “Um nome para o que eu sou, importa muito pouco. Importa o que eu gostaria de ser.
       O que eu gostaria de ser era uma lutadora. Quero dizer, uma pessoa que luta pelo bem dos outros. Isso desde pequena eu quis. Por que foi o destino me levando a escrever o que já escrevi, em vez de também desenvolver em mim a qualidade de lutadora que eu tinha? Em pequena, minha família por brincadeira chamava-me de ‘a protetora dos animais’. Porque bastava acusarem uma pessoa para eu imediatamente defendê-la.
       [...] No entanto, o que terminei sendo, e tão cedo? Terminei sendo uma pessoa que procura o que profundamente se sente e usa a palavra que o exprima.
É pouco, é muito pouco.”

Escritora, sim; intelectual, não

       “Outra coisa que não parece ser entendida pelos outros é quando me chamam de intelectual e eu digo que não sou. De novo, não se trata de modéstia e sim de uma realidade que nem de longe me fere. Ser intelectual é usar sobretudo a inteligência, o que eu não faço: uso é a intuição, o instinto. Ser intelectual é também ter cultura, e eu sou tão má leitora que agora já sem pudor, digo que não tenho mesmo cultura. Nem sequer li as obras importantes da humanidade.
[...] Literata também não sou porque não tornei o fato de escrever livros ‘uma profissão’, nem uma ‘carreira’. Escrevi-os só quando espontaneamente me vieram, e só quando eu realmente quis. Sou uma amadora?
       O que sou então? Sou uma pessoa que tem um coração que por vezes percebe, sou uma pessoa que pretendeu pôr em palavras um mundo ininteligível e um mundo impalpável. Sobretudo uma pessoa cujo coração bate de alegria levíssima quando consegue em uma frase dizer alguma coisa sobre a vida humana ou animal.”

A síntese perfeita

       “Sou tão misteriosa que não me entendo.”

A certeza do divino

       “Através de meus graves erros — que um dia eu talvez os possa mencionar sem me vangloriar deles — é que cheguei a poder amar. Até esta glorificação: eu amo o Nada. A consciência de minha permanente queda me leva ao amor do Nada. E desta queda é que começo a fazer minha vida. Com pedras ruins levanto o horror, e com horror eu amo. Não sei o que fazer de mim, já nascida, senão isto: Tu, Deus, que eu amo como quem cai no nada.”

Viver e escrever

       “Quando comecei a escrever, que desejava eu atingir? Queria escrever alguma coisa que fosse tranqüila e sem modas, alguma coisa como a lembrança de um alto monumento que parece mais alto porque é lembrança. Mas queria, de passagem, ter realmente tocado no monumento. Sinceramente não sei o que simbolizava para mim a palavra monumento. E terminei escrevendo coisas inteiramente diferentes.”
       “Não sei mais escrever, perdi o jeito. Mas já vi muita coisa no mundo. Uma delas, e não das menos dolorosas, é ter visto bocas se abrirem para dizer ou talvez apenas balbuciar, e simplesmente não conseguirem. Então eu quereria às vezes dizer o que elas não puderam falar. Não sei mais escrever, porém o fato literário tornou-se aos poucos tão desimportante para mim que não saber escrever talvez seja exatamente o que me salvará da literatura.
       O que é que se tornou importante para mim? No entanto, o que quer que seja, é através da literatura que poderá talvez se manifestar.”
       “Até hoje eu por assim dizer não sabia que se pode não escrever. Gradualmente, gradualmente até que de repente a descoberta tímida: quem sabe, também eu já poderia não escrever. Como é infinitamente mais ambicioso. É quase inalcançável”.

A importância da maternidade

       “Há três coisas para as quais eu nasci e para as quais eu dou minha vida. Nasci para amar os outros, nasci para escrever, e nasci para criar meus filhos. O ‘amar os outros’ é tão vasto que inclui até perdão para mim mesma, com o que sobra. As três coisas são tão importantes que minha vida é curta para tanto. Tenho que me apressar, o tempo urge. Não posso perder um minuto do tempo que faz minha vida. Amar os outros é a única salvação individual que conheço: ninguém estará perdido se der amor e às vezes receber amor em troca [...].”

OUSADIA

Postado em Artigos, Literatura, Prosa com as tags , , , , , , , em 25/04/2009 por David Duarte Correia Jr

“Seja qual for seu sonho, comece.
Ousadia tem genialidade, poder e magia.”

Johann Wolfgang Goethe (1749-1832)

Então, falam tanto em crise, as pessoas estão endividadas, muitas nem dormem, muitas choram, se lamentam, fazem promessas, reclamam dos santos, xingam os políticos, e em grande maioria, nada fazem além de esperar , seja um milagre ou uma solução do além.

Crise é oportunidade para sair do lugar comum.

Ford percorreu vários bancos para obter um financiamento, para construir a sua linha de montagem sofreu humilhações, foi ridicularizado, ouviu tantos “não” que se fosse outro, desistiria e talvez você estivesse andando de carroça até hoje.
Santos Dumont quase morreu tentando levantar vôo, quebrou peças e costelas e não desistiu até contornar a Torre Eifel.

Dona Maria das Caçarolas, quase passou fome ao ser demitida, sem estudos, sem conhecimento de economia, montou uma barraca na rua, começou vendendo as próprias panelas de casa, hoje tem uma rede de lojas de “Houseware”.

Crise?

Tire o “s” e terá a solução imediata para os seus problemas: CRIE!

O mundo está cheio de oportunidades, não olhe para o chão, olhe para o mundo, encare a situação, perceba onde as pessoas precisam de alguma coisa nova, seja a inovação, até mesmo em coisas antigas.

Reinvente-se, tome coragem, seja ousado!

Faça um bolo e venda-o em pedaços, cate sucata e transforme em arte, limpe um gramado, crie um jardim.

Descruze os braços, pare com a choradeira, se é piedade que você quer dos outros, continue sofrendo, reclamando e falando mal do mundo.

Mas se você quer conquistar, quer sair dessa situação, você precisa só de uma coisa: BOM ÂNIMO!, DISPOSIÇÃO e muito trabalho, quando começar a conquistar, alguns vão dizer que é sorte, eu digo que é DIGNIDADE.

CRISE NUNCA MAIS, CRIE SEMPRE!

“Eu acredito em você”

MINUTO DE SABEDORIA – DALAI LAMA

Postado em Artigos, Filosofia em 25/04/2009 por David Duarte Correia Jr
DALAI LAMA

DALAI LAMA

ATO POLÍTICO

Postado em Artigos com as tags , , , em 25/04/2009 por David Duarte Correia Jr

O Blog do Nassif publicou o bate-boca do Ministro Joaquim Barbosa com o Gilmar Mendes, e alguns comentaristas colocaram o e-mail do ministro Barbosa e do gabinete dele.

Vamos fazer uma pequena manifestação política ao nosso alcance? Mandar um email para o Ministro Barbosa parabenizando- o por ter dito o que milhares de brasileiros gostariam de dizer. Os e-mails são: mjbarbosa@stf. gov.br (dele) ou gabminjoaquim@stf.gov.br (do gabinete dele).

O link para o vídeo é http://www.youtube.com/watch?v=sIUdUsPM2WA

Se quiserem propagar isso pelos seus amigos, seria melhor ainda…

Um abraço.

“Não me assusta o grito dos violentos. O que me preocupa é o silêncio dos bons”  Reverendo Martin Luther King Jr.

POESIAS – PABLO NERUDA

Postado em Arte, Poesia, Prosa, Sexualidade com as tags , , , em 13/01/2009 por David Duarte Correia Jr
 
 

 Pablo Neruda

Querer

Não te quero senão porque te quero
E de querer-te a não querer-te chego
E de esperar-te quando não te espero
Passa meu coração do frio ao fogo.
Te quero só porque a ti te quero,
Te odeio sem fim, e odiando-te rogo,
E a medida de meu amor viageiro
É não ver-te e amar-te como um cego.
Talvez consumirá a luz de janeiro
Seu raio cruel, meu coração inteiro,
Roubando-me a chave do sossego.
Nesta história só eu morro
E morrerei de amor porque te quero,
Porque te quero, amor, a sangue e a fogo.

Pablo Neruda

Para meu coração teu peito basta,
para que sejas livre, minhas asas.
De minha boca chegará até o céu
o que era adormecido na tua alma.
Mora em ti a ilusão de cada dia
e chegas como o aljôfar às corolas.
Escavas o horizonte com tua ausência,
eternamente em fuga como as ondas.
Eu disse que cantavas entre vento
como os pinheiros cantam, e os mastros
Tu és como eles alta e taciturna.
Tens a pronta tristeza de uma viagem.
Acolhedora como um caminho antigo,
povoam-te ecos e vozes nostálgicas.
Despertei e por vezes emigram e fogem
pássaros que dormiam em tua alma.

 

Pablo Neruda

Já és minha. Repousa com teu sonho em meu sonho.
Amor, dor, trabalhos, devem dormir agora.
Gira a noite sobra suas invisíveis rodas
e junto a mim és pura como âmbar dormido.
Nenhuma mais, amor, dormirá com meus sonhos.
Irás, iremos juntos pelas águas do tempo.
Nenhuma mais viajará pela sombra comigo,
só tu, sempre-viva, sempre sol, sempre lua.
Já tuas mãos abriram os punhos delicados
e deixaram cair suaves sinais sem rumo,
teus olhos se fecharam como duas asas cinzas.
Enquanto eu sigo a água que levas e me leva:
a noite, o mundo, o vento enovelam seu destino,
e já não sou sem ti senão apenas teu sonho.

 

Antes de Amar-te…

Antes de amar-te, amor, nada era meu
Vacilei pelas ruas e as coisas:
Nada contava nem tinha nome:
O mundo era do ar que esperava.
E conheci salões cinzentos,
Túneis habitados pela lua,
Hangares cruéis que se despediam,
Perguntas que insistiam na areia.
Tudo estava vazio, morto e mudo,
Caído, abandonado e decaído,
Tudo era inalienavelmente alheio,
Tudo era dos outros e de ninguém,
Até que tua beleza e tua pobreza
De dádivas encheram o outono.

 

Walking Around

Acontece que me canso de meus pés e de minhas unhas,
do meu cabelo e até da minha sombra.
Acontece que me canso de ser homem.
Todavia, seria delicioso
assustar um notário com um lírio cortado
ou matar uma freira com um soco na orelha.
Seria belo
ir pelas ruas com uma faca verde
e aos gritos até morrer de frio.
Passeio calmamente, com olhos, com sapatos,
com fúria e esquecimento,
passo, atravesso escritórios e lojas ortopédicas,
e pátios onde há roupa pendurada num arame:
cuecas, toalhas e camisas que choram
lentas lágrimas sórdidas.

POESIAS – CARLOS DRUMMOND DE ANDRADE

Postado em Arte, Literatura, Poesia com as tags , , em 10/12/2008 por David Duarte Correia Jr
 
 Carlos Drummond de Andrade
 
 
Inconfesso Desejo 

 

Queria ter coragem
Para falar deste segredo
Queria poder declarar ao mundo
Este amor
Não me falta vontade
Não me falta desejo
Você é minha vontade
Meu maior desejo
Queria poder gritar
Esta loucura saudável
Que é estar em teus braços
Perdido pelos teus beijos
Sentindo-me louco de desejo
Queria recitar versos
Cantar aos quatros ventos
As palavras que brotam
Você é a inspiração
Minha motivação
Queria falar dos sonhos
Dizer os meus secretos desejos
Que é largar tudo
Para viver com você
Este inconfesso desejo

 

As Sem-razões do Amor

Eu te amo porque te amo.
Não precisas ser amante,
e nem sempre sabes sê-lo.
Eu te amo porque te amo.
Amor é estado de graça
e com amor não se paga.
Amor é dado de graça,
é semeado no vento,
na cachoeira, no eclipse.
Amor foge a dicionários
e a regulamentos vários.
Eu te amo porque não amo
bastante ou demais a mim.
Porque amor não se troca,
não se conjuga nem se ama.
Porque amor é amor a nada,
feliz e forte em si mesmo.
Amor é primo da morte,
e da morte vencedor,
por mais que o matem (e matam)
a cada instante de amor.

 

Ausência

 Por muito tempo achei que a ausência é falta.
E lastimava, ignorante, a falta.
Hoje não a lastimo.
Não há falta na ausência.
A ausência é um estar em mim.
E sinto-a, branca, tão pegada, aconchegada nos meus braços,
que rio e danço e invento exclamações alegres,
porque a ausência, essa ausência assimilada,
ninguém a rouba mais de mim.

A ARTE DE SER FELIZ – CECÍLIA MEIRELES

Postado em Arte, Artigos, Literatura, Prosa com as tags , , , , em 09/12/2008 por David Duarte Correia Jr
Cecilia Meireles

Cecília Meireles

HOUVE um tempo em que a minha janela se abria para um chalé. Na ponta do chalé brilhava um grande ovo de louça azul. Nesse ovo costumava pousar um pombo branco. Ora, nos dias límpidos, quando o céu ficava da mesma cor do ovo de louça, o pombo parecia pousado no ar. Eu era criança, achava essa ilusão maravilhosa e sentia-me completamente feliz.

HOUVE um tempo em que a minha janela dava para um canal. No canal oscilava um barco. Um barco carregado de flores. Para onde iam aquelas flores? Quem as comprava? Em que jarra, em que sala, diante de quem brilhariam, na sua breve existência? E que mãos as tinham criado? E que pessoas iam sorrir de alegria ao recebê- las? Eu não era mais criança, porém a minha alma ficava completamente feliz.

HOUVE um tempo em que minha janela se abria para um terreiro, onde uma vasta mangueira alargava sua copa redonda. À sombra da árvore, numa esteira, passava quase todo o dia sentada uma mulher, cercada de crianças. E contava histórias. Eu não podia ouvir, da altura da janela; e mesmo que a ouvisse, não a entenderia, porque isso foi muito longe, num idioma difícil. Mas as crianças tinham tal expressão no rosto, a às vezes faziam com as mãos arabescos tão compreensíveis, que eu participava do auditório, imaginava os assuntos e suas peripécias e me sentia completamente feliz.

HOUVE um tempo em que a minha janela se abria sobre uma cidade que parecia feita de giz. Perto da janela havia um pequeno jardim seco. Era uma época de estiagem, de terra esfarelada, e o jardim parecia morto. Mas todas as manhãs vinha um pobre homem com um balde e em silêncio, ia atirando com a mão umas gotas de água sobre as plantas. Não era uma rega: era uma espécie de aspersão ritual, para que o jardim não morresse. E eu olhava para as plantas, para o homem, para as gotas de água que caíam de seus dedos magros e meu coração ficava completamente feliz.

MAS, quando falo dessas pequenas felicidades certas, que estão diante de cada janela, uns dizem que essas coisas não existem, outros que só existem diante das minhas janelas e outros, finalmente, que é preciso aprender a olhar, para poder vê-las assim.

ANALYSIS OF A MIND – SIGMUND FREUD

Postado em Filosofia, Literatura, Psicanálise, Sexualidade com as tags , , , em 01/12/2008 por David Duarte Correia Jr

A Psicanálise do Homem Desbussolado – As reações ao futuro e o seu tratamento – Jorge Forbes

Postado em Artigos, Filosofia, Psicanálise, Sexualidade com as tags , , , , , , , em 06/11/2008 por David Duarte Correia Jr

“O viajante surpreendido pela noite pode cantar alto no escuro para negar seus próprios temores; mas, apesar de tudo isto, não enxergará mais que um palmo adiante do nariz”.

I – STANDARDS E PRINCÍPIOS.

A prática lacaniana não tem standards, mas tem princípios. É o que afirma o tema central deste IV Congresso da Associação Mundial de Psicanálise.

Há controvérsias quanto ao que seja um princípio. Restrinjo-me à noção que prepondera: princípio é algo que engendra, que vem antes, a cabeça primeira. Na etimologia, tem a raiz de caput, cabeça.

Standard, por sua vez – um anglicismo para o que nomeamos, em português, padrão – é aquilo que se adquire da experiência.

O princípio antecede a experiência, enquanto o standard é dela fruto.

É fato que alguns standards podem, com sua consagração, acabar por ter função de princípio, no que antecedem e orientam novas experiências.

II – NOVO HOMEM. A MUDANÇA CONSEQÜENTE.

Parto do tema do Congresso para relatar o que me cabe desenvolver: “A Psicanálise do Homem Desbussolado – As reações ao futuro e o seu tratamento”.

Ao escolher esse título, chamo a atenção a uma transformação do laço social, hoje, que exige uma mudança na forma de incidência do ato analítico.

Mudança que só podemos pensar porque diferenciamos princípios de standards. Sem essa distinção, a psicanálise arriscaria deixar de existir, engessada em standards inaptos ao tratamento das novas formas do laço.

Com a expressão “homem desbussolado”, refiro-me ao habitante de uma nova era: globalização, pós-modernidade – ainda nenhum termo é suficientemente bom para nomeá-la, sempre causando polêmicas aqui – uma nova era, dizia, diferente da anterior por não ser prioritariamente “pai-orientada”.

O laço social na era industrial, na modernidade, era francamente orientado por um eixo vertical. As pessoas se juntavam “em nome de”, “em torno a”. A família, a empresa, a nação eram estruturas triangulares, ou piramidais, com um ápice ideal e aglutinador.

Tínhamos na família o pátrio poder; na empresa, a carreira de office-boy a diretor; na nação, o sentimento de Pátria.

O pai – que tinha as chaves do saber seguro, e dava a direção – ocupava, ele e seus representantes, o ápice da pirâmide. Lembramos, se ainda é necessário reforçar essa idéia, que, quando não sabíamos alguma coisa, éramos convidados a procurar no dicionário, chamado de quê? “Pai dos burros”.

Pois bem, na globalização, o saber consagrado, desde os iluministas, virou um genérico, do mesmo modo que fogões e geladeiras brancos são genéricos: uns não têm mais valor que outros. Um aperto de botão, um clique, um clique no rato, é tudo o que é necessário para acessar o saber.

O homem ficou desbussolado, sem o norte da mão do pai que, por ter o saber, lhe assegurava o caminho a seguir.

Freud teve a genialidade de propor uma estrutura capaz de esquadrinhar a experiência humana nesse mundo pai-orientado: o complexo de Édipo. Um standard freudiano, não um princípio.

Durante quase cem anos, fomos capazes de entender muita coisa das relações humanas a partir dessa estrutura, a tal ponto que vários chegaram a pensar que o Édipo fazia parte do homem, e que fora dele só haveria psicose.

Foi Jacques Lacan quem deu o alerta da intensidade de uma psicanálise além do Édipo. Uma psicanálise capaz de acolher um homem cujo problema não está mais nas amarras de seu passado, que o impedem de atingir o objetivo pretendido, motivo que levou Freud a chamar a psicanálise de cura da memória. Uma psicanálise para o homem que não sabe o que fazer, nem escolher, hoje, entre os vários futuros que lhe são possíveis: sem pai, sem norte, sem bússola.

III – QUEIXA, LIBERDADE, ANGÚSTIA.

Antes, as pessoas se queixavam por não conseguirem atingir os objetivos que perseguiam. Hoje, quase ao avesso, as pessoas se queixam ou nem se queixam ainda, mas se angustiam pelas múltiplas possibilidades que se oferecem.

Frente à responsabilidade do querer o que deseja, o homem recua. Ele reage ao futuro incerto, preferindo seguranças passadas. A época pós-moderna, que chegou a ser tão festejada, de um sonho de esperança transformou-se num pesadelo de angústia. A pós-modernidade, para Gilles Lipovetsky, foi um período de curta duração, substituído pela atual hipermodernidade, que ele conceitua.

Hipermodernidade quer dizer uma modernidade ilimitada, extensa a todos os domínios da experiência humana, ancorada em três fatores: na tecnologia, na individualidade e na economia.

Será que estamos fadados a sermos hipermodernos e acompanharmos passivamente as loucas, senão engraçadas, tentativas localizacionistas do id no mesencéfalo, prenúncio do próximo remédio, possivelmente o “id-ota”?

IV – TENDÊNCIA: SEREMOS HIPERMODERNOS?

Não acredito nesse destino, por duas razões: a primeira, porque embora ainda poucos, podemos notar uma série de pesquisadores estudando e promovendo novas conceituações deste laço social que exige, para a sua compreensão, uma nova topologia, a borromeana, na visão de Jacques Lacan.

Além do grupo que representamos, na psicanálise, acrescentaria pessoas além dela, como o filósofo francês Gilles Lipovetsky, recém citado; o sociólogo polonês Zygmunt Bauman; o arquiteto americano Ron Pompei; no Brasil, os juristas Tercio Sampaio Ferraz Junior e Miguel Reale Junior. Enfim, cito alguns nomes só para provocar em cada um a lembrança de outros, de diversas áreas. Todos, como diria, profissionais do incompleto, que de forma ocasional ou provocada, além das especificidades de suas disciplinas, em um verdadeiro movimento de desespecialização, contribuem reciprocamente, realizando o que Freud preconizava em sua “questão da análise leiga”, a saber: a compreensão, pelo paciente, dos fundamentos do tratamento a que se submete.

A segunda razão é a forte convicção de que a essência desejante e incompleta de saber – ou seja, inconsciente – do homem é um princípio que resistirá a todos os tipos de “bushadas” totalitárias.

V – ANGÚSTIA: UM PARÂMETRO.

Angústia é o tema do momento. “Sentir o que o sujeito pode suportar de angústia coloca vocês – analistas – o tempo inteiro à prova”, afirma Lacan na abertura de seu mais recente Seminário estabelecido por Jacques-Alain Miller. A angústia é um parâmetro, por excelência, da direção do tratamento.

Uma angústia do homem desbussolado vem sendo maltratada e acomodada em neo-religiosidades e em neo-cientificidades. Junto às neo-religiões colocaria os neo-universitários que consagram e standardizam os conceitos, em um renovado mercado de títulos, que lhes confere uma batina respeitável para acalmar a suposta e temida amoralidade conseqüente à queda do pai.

Quanto aos neo-cientistas, empírico-localizacionistas, eles não têm medo do ridículo, dada a avidez cúmplice de respostas – não importa que sejam absurdas – de uma população a quem se propagandeia que para tudo nessa vida tem remédio.

O psicanalista do homem desbussolado, para manter vivos os princípios da psicanálise lacaniana, deverá mudar sua música, ter novos standards.

Pensei em alguns exemplos:

• Se ontem se analisava para se compreender mais, para ir mais fundo, hoje se dirige o tratamento ao limite do saber: é a necessidade da aposta, na precipitação do tempo;

• Se ontem se fazia análise para obter uma ação garantida, livre de influências fantasiosas, hoje nenhuma ação é assegurada em um justo saber, toda ação é arriscada e inclui a responsabilidade do sujeito;

• Se ontem a psicanálise falava em sofrimento psíquico, o que a levou a ser patrocinada por psicólogos que a reduziram a uma das disciplinas de seu currículo, hoje é necessário separá-la do campo da saúde mental, como tem insistido Jacques-Alain Miller;

• Se ontem queríamos uma certeza verdadeira, hoje, na segunda clínica de Jacques Lacan, separamos certeza subjetiva de verdade lógica. Queremos uma certeza convencida;

• Se ontem nos limitávamos em nossa práxis ao espaço cartesiano do consultório, hoje haverá psicanálise onde houver um analista, e ele é necessário nos mais diversos locais da experiência humana, muito além das instituições de saúde;

Existem várias opositores a este caminho, das estatísticas empíricas às metanálises, dos remédios salvadores – recentemente houve quem propusesse colocar antidepressivo junto com o flúor na água de São Paulo – aos livros de auto-ajuda. E daí? Nada que possa desentusiasmar aqueles que se beneficiaram de um trabalho analítico e foram formados no tratamento da angústia pela invenção responsável.

VI – CONCLUSÃO: PRINCÍPIOS ESTÁVEIS, STANDARDS INCOMPLETOS.

Não tenho certeza de que não tenhamos standards. Uma vez que os princípios estão além dos enunciados, sendo difícil positivá-los, caberia talvez entendermos que nossos enunciados são, afinal, standards com função de princípios. Porém, são standards ad hoc, usados a cada decisão analítica.

Assim como acontece com os princípios do direito, na concepção de Tercio Sampaio Ferraz Junior: na decisão jurídica, eles têm aplicação como topoi, lugares-comuns de uma retórica. Standards.

A principal diferença entre os standards ortodoxos e os nossos está na posição de quem os enuncia: de uma forma completa, ou de uma forma incompleta.

Frente à estabilidade dos nossos princípios, nossos standards clínicos serão leves, contraditórios, múltiplos, circunstanciais: sensíveis à singularidade de cada momento da sua aplicação. O analista “escolhe” quais usar a cada vez, a cada tempo. O analista pode querer o que deseja, não fica no inefável do que opera na clínica.

Concluo, com Freud, mostrando que o que estamos debatendo aqui, os princípios analíticos, não é novo. Em “Inibições, Sintomas e Angústia”, em 1926, assim aconselhava Sigmund Freud: ”Aceitemos humildemente o desprezo com que nos olham, sobranceiros, do ponto de observação de suas necessidades superiores. Mas visto que nós não podemos também abrir mão de nosso orgulho narcísico, ficaremos reconfortados com o pensamento de que tais ‘Manuais para a Vida’ ficam logo desatualizados, de que é precisamente nosso trabalho míope, tacanho e insignificante que os obriga a aparecer em novas edições, e de que até mesmo os mais atualizados deles nada mais são do que tentativas para encontrar um substituto para o antigo, útil e todo-suficiente catecismo da Igreja. Somente uma pesquisa paciente e perseverante, na qual tudo esteja subordinado à única exigência da certeza, poderá gradativamente ocasionar uma transformação. O viajante surpreendido pela noite pode cantar alto no escuro para negar seus próprios temores; mas, apesar de tudo isto, não enxergará mais que um palmo adiante do nariz”.

Transtorno Afetivo Bipolar

Postado em Artigos, Filosofia, Psicanálise, Sexualidade com as tags , , , , em 24/10/2008 por David Duarte Correia Jr

O Transtorno Afetivo Bipolar (TAB), também conhecido como Transtorno Bipolar do Humor (TBH) ou, antigamente, Psicose Maníaco Depressiva (PMD), é uma doença relacionada ao humor ou afeto, classificada junto com a Depressão e Distimia. O TAB se caracteriza por alterações do humor, com episódios depressivos e maníacos ao longo da vida. É uma doença crônica, grave e de distribuição universal, acometendo cerca de 1,5% das pessoas em todo o mundo.

 O TAB é considerado uma doença psiquiátrica muito bem definida e, embora tenha um quadro clínico variado, é um dos transtornos com sintomatologia mais consistente na história da psiquiatria. Sua forma típica (euforia-depressão) é bem caracterizada e reconhecível, permitindo o diagnóstico precoce e confiável. 

Normalmente sentimos alegria, tristeza, medo, ousadia, energia, desânimo, eloqüência, apatia, desinteresse, enfim, em diversos momentos de nossa vida, com maior ou menor intensidade uma grande variedade de sentimentos são experimentados. De modo geral, é normal a pessoa ficar alegre com uma promoção no emprego, com uma conquista amorosa, nascimento de um filho e outras situações agradáveis. Assim como se espera, também, que a pessoa normal experimente tristeza e sofrimento depois de um rompimento amoroso, com doença ou morte de pessoa querida, com a perda do emprego, dificuldades financeiras, etc.

Resumindo, em situações normais o estado de humor ou de ânimo deve variar ao sabor dos acontecimentos da vida e de acordo com a tonalidade afetiva de cada um (veja Tonalidade Afetiva na página Alterações da Afetividade, na seção Psicopatologia). Essas respostas emocionais podem ser adequadas e proporcionais aos estímulos externos, que são as vivências, ou desproporcionais e inadequadas. Neste caso, em resposta aos estímulos internos, que são as oscilações do humor ou alterações afetivas.

No DSM.IV são classificados 2 tipos de TBH. O Tipo I, onde a maioria dos episódios de alteração do humor são do tipo euforia e o Tipo II, ao contrário, ou seja, a maiora dos episódios são depressivos

Pelo DSM.IV, a característica essencial do Transtorno Bipolar I é um curso clínico caracterizado pela ocorrência de um ou mais Episódios Maníacos ou Episódios Mistos. Com freqüência, os indivíduos também tiveram um ou mais Episódios Depressivos Maiores. Por outro lado, a característica essencial do Transtorno Bipolar II é um curso clínico marcado pela ocorrência de um ou mais Episódios Depressivos Maiores, acompanhados por pelo menos um Episódio Hipomaníaco.

Hoje em dia o diagnóstico de Transtorno Afetivo Bipolar está sendo repensado e deslocado para um grupo de estados psicopatológicos afins; os Transtornos do Espectro Bipolar (Akiskal e cols., Montgomery e Keck, 2000.

EPISÓDIO DEPRESSIVO
A Depressão é caracterizada principalmente por alterações do humor, da psicomotricidade, da cognição e das funções vegetativas. O quadro clínico do paciente deprimido é bastante complexo, cheio de sinais e sintomas. Geralmente o paciente apresenta humor depressivo, alterações de apetite e do sono, dificuldades de concentração e pensamentos de cunho negativo, incapacidade de sentir alegria ou prazer, redução da energia, agitação psicomotora ou, ao contrário, lentificação, podendo ocorrer ideação suicida e/ou sintomas psicóticos.

Profissionais com atividades acadêmicas ou intelectuais não conseguem mais executar suas tarefas quando deprimidos, as crianças diminuem o rendimento escolar por causa das dificuldades de raciocínio e concentração. Essa variedade de sinais e sintomas faz pensar em uma verdadeira síndrome depressiva, cujas unidades de manifestação são o Episódio de Maníaco e o Episódio Depressivo. Aqui discorremos sobre o Episódio Depressivo.

Alterações de humor e afetividade
Obviamente, o paciente deprimido manifesta o humor depressivo. Os reflexos mais típicos desse tipo de humor são os sintomas de angústia, tristeza, vazio, desesperança, desânimo, enfim, a sensação popularmente conhecida como “baixo astral”.

Entretanto, para surpresa do público leigo, nem sempre a tristeza clássica está presente no Episódio Depressivo. Algumas vezes, de acordo com determinados traços de personalidade, o paciente pode não experimentar sentimento de tristeza e concentrar suas queixas em somatizações, em dores e outras queixas físicas, tais como cefaléia, dor de estômago, dor no peito, tonturas, etc.

Apesar disso, a atitude da pessoa com humor depressivo, ainda que sem queixas de tristeza, pode ser percebido indiretamente por sua expressão facial, pelo olhar triste, fixo e sem brilho, pelos ombros caídos e por uma notável tendência ao choro e hipersensibilidade sentimental (Bleuler, 1985). Antigamente falava-se em Depressão Mascarada, para se referir a esses casos de depressão sem tristeza.

O humor de pacientes deprimidos pode ser irritável, manifestado como tendência a sentir-se facilmente incomodado com tudo, mal-humorado, com baixo limiar de tolerância para frustração. Esse quadro de irritabilidade e explosividade no humor depressivo é uma das manifestações depressivas mais comuns em crianças e adolescentes.

Os deprimidos podem perder a capacidade de sentir prazer, o que os leva ao abandono de atividades anteriormente prazerosas e ao desinteresse por amigos e familiares. Em casos mais graves pode haver incapacidade de experimentar qualquer tipo de emoção, dando a impressão que nada mais interessa ou vale a pena. Nas alterações da afetividade chamei esse estado de “egoísmo afetivo”, colocado entre aspas para sugerir o aspecto involuntário desse egoísmo.

Cognição e percepção
A avaliação e juízo crítico da realidade à sua volta, que é a cognição propriamente dita, pode estar seriamente prejudicada na pessoa deprimida. A consciência da realidade pode estar desde ligeiramente alterada até psicoticamente alterada com pensamentos deliróides.

A avaliação que a pessoa deprimida faz de si mesma, que nada mais é do que a autoestima, pode sugerir uma idéia muito negativa. Essas idéias auto-pejorativas orbitam em torno do fracasso, da ruína, pessimismo, inferioridade, inutilidade, culpa, auto-recriminação, pecado e mesmo uma série de ruminações que tomam conta totalmente do pensamento. Medo do presente e do futuro, sofrimento retroativo pelas mazelas do passado, ausência de planos e perspectivas (Moreno & Moreno, 1994).

Os problemas existenciais reais, que existem de fato e todos temos, assumem proporções insuportáveis na depressão, surgem medos irracionais e preocupações excessivas. As avaliações negativas de si, do mundo e do futuro, dominam o pensamento do paciente deprimido e podem alterar a sua percepção da realidade a ponto de cogitar em suicídio (que pode se manifestar em até 15% das depressões maiores ou graves sem tratamento).

O médico clínico, diante de um paciente deprimido, deve investigar e avaliar o risco de suicídio, uma vez que a morte por suicídio é tão letal quanto por infarto do miocárdio. Na Depressão Grave com Sintomas Psicóticos, classificada no CID.10 sob o código F33.2, podem aparecer delírios congruentes com o humor (veja Idéias Deliróides na seção Psicopatologia). Esses delírios secundários ao humor deprimido podem servir para maquiar um mundo temerário, ameaçador e sofrível no qual a cognição do deprimido crê. Alucinações, principalmente auditivas, podem aparecer nas depressões graves.

Karla Mathias de Almeida e Doris Moreno (2002) listam alguns critérios ou características dessas Idéias Deliróides ou Delírios Humor Congruente:

a) são de tonalidade afetiva penosa;
b) são monótonas e repetitivas;
c) são pobres, isto é, a idéia delirante não se desenvolve em construções intelectuais: são mais ricas em emoção do que em conteúdo ideativo;
d) são passivas e o paciente aceita todas suas infelicidades placidamente;
e) são divergentes e centrífugas, isto é, estendem-se progressivamente para a pessoa próxima e para o ambiente;
f) são delírios do passado (lamentações, remorsos) ou do futuro (ansiedade, temores).

São comuns queixas de dificuldades de raciocínio, concentração e tomada de decisões. De fato, a mais prejudicada talvez seja a atenção e não a memória, propriamente dita. E a dificuldade em fixar a atenção, associada à falta de interesse, pode simular severos problemas de memória.

Com a lentificação do pensamento as idéias podem ficar confusas. Ey e cols (1978) descrevem a “paralisia psíquica“. Nesse estado a ideação fica lenta, as associações são difíceis, a evocação é penosa, a síntese mental é impossível, o esforço mental sustentado também é impossível e a atenção concentra-se nos temas melancólicos sem poder separar-se deles. Em idosos, as alterações das funções cognitivas na depressão podem ser confundidas com demência.

Comportamento e psicomotricidade
Alguns autores consideram o retardo psicomotor a principal alteração no Transtorno do Humor (Akiskal, 2000). O paciente com lentificação psicomotora exibe importante restrição de movimentos espontâneos, postura de abatimento, discurso lentificado, frases raras e monossilábicas, com aumento do tempo de latência de resposta, baixo tom de voz, dificuldade de raciocínio, diminuição da energia e cansaço excessivo. Não é raro alguns pacientes reclamarem de fadiga extrema ao realizar tarefas simples, tais como escovar os dentes. Há uma tendência a ficar deitado e ao isolamento. Em casos graves, a lentificação psicomotora pode evoluir para o estupor depressivo.

Funções vegetativas
Funções vegetativas são aquelas reguladas pelo Sistema Nervoso Autônomo (ou Vegetativo). No paciente deprimido estão alterados o sono, o apetite, a função sexual e o ritmo circadiano do humor. A alteração do apetite e/ou do peso é um dos indicadores confiáveis do comprometimento somático da Depressão. As alterações do sono na Depressão envolvem insônia, mais freqüentemente intermediária, quando então a pessoa desperta no meio da noite e tem dificuldade para voltar a dormir, ou acorda muito cedo (insônia terminal).

Alguns pacientes podem dormir demais, como uma espécie de fuga de uma realidade hostil para eles ou como sinal de escasseamento da “energia” necessária para a disposição geral. Dentro dessas funções vegetativas prejudicadas está a função sexual, onde ocorre invariavelmente uma expressiva diminuição da libido, tanto nos em homens e como nas mulheres. E não apenas a libido costuma estar comprometida mas, inclusive, também a função erétil.

Subtipos depressivos
A nomenclatura psiquiátrica é demasiadamente complexa, apesar de inteligível. Há vários tipos de manifestações depressivas, classificadas tanto de acordo com a origem, quanto através da apresentação clínica.  A todos esses subtipos acrescento ainda a sintomatologia depressiva da atualidade, a qual decorre mais dos sentimentos de frustração do que da depressão, propriamente dita.

Depressão Bipolar
É a Depressão que se apresenta em portadores do Transtorno Afetivo Bipolar. Aqui há uma alternância de episódios depressivos e eufóricos (maníacos), não necessariamente um depois do outro (podem surgir vários episódios depressivos e um eufórico ou vice-versa). Trata-se de um quadro de origem constitucional, ou seja, biológica. Normalmente essas crises surgem sem que se possa associar à alguma razão vivencial.

Depressão endógena
Antigamente essa denominação caracterizava a Depressão que se manifestava por episódios agudos, recorrentes e sem a existência de episódios eufóricos. Hoje se fala em Transtorno Depressivo Recorrente, graduado em Leve, Moderado e Grave pela CID.10 ou Maior, pelo DSM.IV. Entretanto, o nome endógeno deveria ser mantido como conceito com objetivo de facilitar a idéia do fator constitucional desse tipo de Depressão.

Na Depressão Endógena os sintomas são mais exuberantes, focando predominantemente o prejuízo da capacidade para sentir prazer (anedonia), na apatia significativa, nos sentimentos de culpa, piora matutina, diminuição de apetite e perda de peso.

Depressão Atípica
As Depressões Atípicas são aquelas que se manifestam, predominantemente, através de sintomas ansiosos (Pânico, Fobia …) e somáticos. Nos quadros de Depressão Atípica encontramos os sintomas vegetativos incaracterísticos (aumento do apetite, do sono, ganho de peso), humor não totalmente rebaixado (capacidade de se alegrar diante de eventos positivos) e grande sensibilidade emocional.

Alguns deprimidos podem manifestar apenas sintomas somáticos (físicos) ao invés de sentimentos de tristeza, como por exemplo, dores vagas e imprecisas, tonturas, cólicas, falta de ar, etc. Para estes, talvez, seja mais fácil comunicar sua aflição e desespero através dos órgãos que do discurso. Também em crianças e adolescentes a depressão pode dissimular-se sob a forma de um humor irritável ou rabugento, ao invés de triste e abatido.

Depressão Psicótica ou Maior
Trata-se de Depressão Grave, na qual ocorrem sintomas psicóticos, tais como os delírios e/ou as alucinações. Geralmente esses delírios são congruentes com o humor, chamados então, Delírios Humor-Congruentes. Podemos chamá-los também de Delírios Secundários ou Idéias Deliróides. Na esquizofrenia os delírios são primários e aqui são secundários (secundários à depressão).

Quando existem delírios esses são, geralmente, de ruína, de grave prejuízo moral, de doença grave, culpa, morte, castigo. Quando existem alucinações, geralmente são auditivas.

 

EUFORIA (Mania)
Assim como a depressão, a euforia ou mania também se caracterizada por alterações no humor, na cognição, na psicomotricidade e nas funções vegetativas, porém com características opostas àquelas alterações observadas na depressão, ou seja, o paciente apresenta elevação do humor, aceleração da psicomotricidade, aumento de energia e idéias de grandeza, as quais podem ser até delirantes.

As formas clínicas da euforia variam de acordo com a intensidade e o predomínio dos sintomas afetivos, das alterações psicomotoras e da presença de sintomas psicóticos. Em sua forma clássica a mania se caracterizada por humor exageradamente expansivo (chamado de elação), aceleração no ritmo do pensamento, agitação psicomotora e pensamentos delirantes de grandiosidade. Dependendo da gravidade do Episódio Eufórico as idéias deliróides podem fazer confundir o quadro com um surto esquizofrênico.

Humor e Afetividade
O humor na euforia é muito expansivo, geralmente irritável, desinibido. Sentimentos de exagerada alegria, júbilo e excitação são comuns. Essa alegria percebe-se patológica e o riso é exagerado, desproporcional ou à toa, há um desmedido entusiasmo e incomum interesse sexual, profissional e social.

 

 

Cognição e Percepção
O pensamento na euforia costuma ser repleto de idéias de grandeza, autoconfiança incomodamente elevada, otimismo exagerado, falta de juízo crítico e da inibição social normal. A impulsividade pode levar a conseqüências desastrosas.

Podem existir idéias deliróides de grandeza, de poder, riqueza e de irreal inteligência. No tipo Grave com Sintomas Psicóticos a euforia é acompanhada de alucinações, sentimentos de influência e de inspiração profética, caracterizando assim o verdadeiro Estado de Elação (Ey e cols., 1978).

A aceleração do pensamento produz um dos sintomas mais clássicos da euforia que e a Fuga de Idéias, onde o paciente começa um assunto novo sem terminar o anterior. Há também uma hipermnésia, com lembrança fácil de eventos passados, porém, prejudicado por excesso da distraibilidade.

Comportamento e Psicomotricidade
A pessoa com euforia sente-se sempre muito bem disposto e capaz de alcançar qualquer objetivo, cheio de energia e sem necessidade de repouso ou sono. Normalmente ela  gargalha, canta, dança, se mexe, corre, faz sexo, trabalha… tudo exageradamente e incansavelmente. Desse jeito é difícil convencê-lo estar doente, já que o bem estar (patológico) é muito contundente.

Durante a fase de euforia do Transtorno Bipolar do Humor, a auto-estima, o vigor e a energia física aumentam e a pessoa passa a agir em ritmo acelerado, fica inquieta e agitada, a necessidade de sono diminui. Começa a ter sentimentos de grandeza, considera-se especial e se sente como se não tivesse limites. Os planos grandiosos e mirabolantes se multiplicam, as idéias fluem rapidamente e não consegue concluir as idéias, pulando rapidamente para outros assuntos.

Quando o paciente já é conhecido, percebe-se claramente estar entrando em euforia até pelo colorido exuberante das roupas, o volume com que ouve músicas, a profusão do discurso, eloqüência com que defende seus pontos de vista. Por outro lado, a aceleração exagerada do pensamento pode dificultar a compreensão do discurso.

Por causa da impulsividade, da desinibição, do aumento de energia e da ausência de crítica, a pessoa em mania acaba se envolvendo em atividades perigosas e insensatas, tais como dirigir em alta velocidade, praticar sexo inseguro, gastar além das possibilidades.

Funções Vegetativas
A diminuição da necessidade de descanso e de sono é o sintoma físico mais freqüente. O paciente necessita de poucas horas e, mesmo assim sente-se bem disposto e cheio de energia (Moreno e Moreno, 1994).

Costuma haver, na euforia, aumento do apetite, do consumo de cigarro, álcool e drogas. Como tudo está acelerado é comum o aumento do apetite sexual, associados à desinibição e à impulsividade.

 

 

Outro sintoma bastante característico da euforia é a perda da inibição social natural. Isso produz atitudes inadequadas ou extravagantes, como por exemplo, fazer compras desenfreadamente ou vestir-se de forma exuberante, agressividade, inadequação e outros comportamentos inconvenientes que, inclusive, podem ocasionar envolvimentos policiais.

De modo geral, as crises de euforia podem ser caracterizadas pelos seguintes sintomas:

 

 

 

1.- auto-estima inflada, grandiosidade, sensação de ser mais e melhor que os outros e, algumas vezes quando tem delírio, reconhecendo ser predestinado a alguma coisa muito importante.
2.- necessidade de sono diminuída, sentindo-se bem e repousado com apenas 3 horas de sono.
3.- mais eloqüente e loquaz do que o habitual, pressão por falar, interrompendo os outros.
4.- perda da inibição social, falta de crítica para com as situações ridículas e vexatórias
5.- fuga de idéias (mudança de assunto rápido sem conclusão do anterior) ou experiência subjetiva de que os pensamentos estão correndo mais do que as palavras podem pronunciar.
6.- distratibilidade, a atenção é desviada com excessiva facilidade para estímulos externos insignificantes ou irrelevantes, dispersão da atenção.
7.- aumento da atividade dirigida a objetivos sociais, no trabalho, na escola ou sexualmente.
8.- agitação psicomotora, excesso de movimentos
9.- envolvimento excessivo em atividades prazerosas com um alto potencial para insensatez, perigo, inconseqüência, como por exemplo, envolvimento em compulsão para compras, indiscrições sexuais ou investimentos financeiros tolos.

HIPOMANIA
A hipomania é um estado semelhante à mania, em grau mais leve, que aparece em pacientes com TAB, no início dos episódios de mania ou, se não for no TAB, no Transtorno Ciclotímico da Personalidade. Observa-se mudança no humor habitual para euforia ou irritabilidade, reconhecida pelas pessoas mais íntimas do paciente. 

Há também na hipomania, hiperatividade, tagarelice, diminuição da necessidade de sono, aumento da sociabilidade, atividade física, iniciativa, atividades prazerosas, libido e sexo, e impaciência. A hipomania não se apresenta com sintomas psicóticos, não precisa de internação e o prejuízo ao paciente não é tão intenso quanto no episódio de mania. 

Como dissemos, em uma sociedade que valoriza demais a extroversão e eloqüência, pacientes e familiares podem considerar a hipomania como se fosse uma atitude normal e até desejável. Assim, a hipomania pode ser confundida com estados de alegria desencadeada por eventos positivos, não percebidos pelos outros como exagerados, comparados com o padrão habitual de humor da pessoa. Já a irritabilidade da hipomania pode ser confundida, também, com reações normais aos eventos negativos, como por exemplo, uma má notícia. 

Mas a hipomania pode ou não ter fatores desencadeantes, sejam positivos ou negativos. Se esses pacientes não forem tratados, podem apresentar ausência do juízo crítico e proporcionar para si ou para seus familiares, severos prejuízos morais e materiais.Incidência
Em nosso meio, segundo dados do Sistema Único de Saúde de São Paulo,  mais de 10 mil internações por ano são devidas ao TAB, predominantemente entre as mulheres, pois, em homens, prevalecem os diagnósticos de alcoolismo e esquizofrenia.

As estimativas acerca da prevalência de TAB na população são bastante acanhadas, devido à rigidez dos critérios de diagnóstico propostos pelas classificações atuais. Assim, a prevalência para o Transtorno Bipolar do Humor do tipo 1, que é o tipo com mais episódios de euforia do que depressão, ao longo da vida, nos EUA, alcança 1%.

Na cidade de São Paulo essa prevalência é de 1% (Andrade, 2002). Estudos que consideram critérios mais flexíveis de diagnóstico já apresentam  uma prevalência de 4% a 8% durante a vida. Apesar do interesse nestes quadros ter aumentado nos últimos anos, os portadores de TAB continua sendo tardiamente diagnosticados e, conseqüentemente, inadequadamente tratado.

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Causas do TAB
Em relação às causas do TAB, tem sido muito relevante a sugestão de hereditariedade. Segundo Cardno (1999), a concordância de TAB entre gêmeos idênticos (monozigóticos) varia de 60% a 80%, e o risco de desenvolver TAB em parentes de primeiro grau de um portador de TAB situa-se entre 2% e 15%. A quantidade de gêmeos monozigóticos onde não há concordância de TAB reflete a importância dos fatores ambientais. 

A genética considera a TAB como tendo de um “modo complexo” de transmissão, cuja manifestação dependeria da presença de um conjunto de genes que interagem entre si, até o momento de conhecimento pouco definido (veja abaixo). Resumindo, compreende-se que o aparecimento dessas doenças de transmissão complexa dependa da presença de um conjunto de genes de suscetibilidade, os quais, ao sofrerem influência do meio, manifestam-se precipitando as alterações necessárias para a eclosão da doença em questão.

Sobre os fatores ambientais associados ao Transtorno Bipolar do Humor, Leandro Michelon e Homero Vallada (2005) citam Tsuchiya e colaboradores, que investigaram a possível associação entre TAB e fatores variados, tais como, demográficos (sexo, etnia), relacionados à complicações da gestação ou do parto, estação do ano no nascimento, nascimento em área urbana ou rural, antecedentes de lateralidade, ajustamento pré-mórbido, padrão socioeconômico, eventos estressantes de vida, disfunção familiar, perda de parente e história de epilepsia, trauma craniencefálico, esclerose múltipla. 

De relevante ocorreu, nessa revisão da literatura, uma associação entre o TAB e a condição socioeconômica desfavorável, bem como com o desemprego, baixa renda e estado civil solteiro. Também houve associação da TAB com mulheres nos três primeiros meses do pós-parto. O restante dos fatores avaliados não mostrou nenhuma associação com ocorrência de TAB

De modo geral, os estudos foram inconclusivos, exceto para a significante associação do desenvolvimento de TAB com história familiar positiva, em vários estudos. Volta aqui a questão dos fatores genéticos, porém, a despeito de todos os fatos que sugerem uma fortíssima participação genética no desenvolvimento do TAB, até o momento não foi possível identificar genes ou regiões cromossômicas envolvidos diretamente no aparecimento desta doença. Embora algumas regiões dos cromossomos se mostrem mais significativamente ligadas ao problema, ainda se aguarda a confirmação científica por meio de novas pesquisas e novas técnicas de investigação. 

Inúmeras alterações na função cerebral têm sido descritas em pacientes apresentando quadros de depressão e mania. Pesquisas utilizando modelos genéticos, neuroanatômicos, neuroquímicos e de neuroimagem no TAB têm trazido importantes hipóteses teóricas e conceituais para o melhor entendimento de como certos mecanismos biológicos podem afetar a manifestação clínica da doença, seu curso e sua resposta aos tratamentos.  e anormalmente elevado, expansivo ou irritável durando pelo menos uma semana. 

Estudos com adotados

Com o propósito de separar a influência ambiental do fator genético, costuma-se pesquisar em adotados. Segundo Moreno e Moreno (2002), o primeiro estudo desse tipo foi conduzido na Bélgica por Mendlewicz e Rainer (1977), que verificaram 29 adotados com a antiga doença maníaco-depressiva (hoje Transtorno Afetivo Bipolar). Esses autores observaram uma prevalência de distúrbios afetivos em 31 % dos pais biológicos dessas pessoas, comparado a uma prevalência de 12% nos pais adotivos.

 

Outro estudo foi de Cadoret (1978), que em uma amostra de mães com o Transtorno Afetivo (bipolar e unipolar) evidenciou uma freqüência seis vezes maior de Depressão em seus filhos biológicos adotados ao nascimento, comparados aos filhos de mães sem o transtorno, também adotados no nascimento.

 

Wender e cols. (1986) pesquisaram, na Dinamarca, 71 pessoas adotadas portadoras de Transtornos do Humor e relataram uma prevalência oito vezes maior em casos de Depressão Unipolar e quinze vezes maior em casos de suicídio nos pais biológicos dessas pessoas quando comparadas com seus pais adotivos.

Outras Classificações
Durante muito tempo o TAB (Transtorno Afetivo Bipolar) foi considerado apenas ao que se considera hoje a sua forma mais grave. A classificação DSM.IV, já com mais de 10 anos, reconhece somente os tipos I e II, entretanto, os pesquisadores estão ampliando os conceitos e os tipos da bipolaridade.

Já se fala em Transtornos do Espectro Bipolar e, de acordo com abordagem mais recente, existem quatro tipos de transtorno bipolar, que se caracterizam basicamente pela intensidade i em que ocorre a alteração do humor.

Tipo I: Afeta apenas 1 % da população, é a forma mais intensa, com forte alteração do humor, por apresentar fases de mania plena. Apresenta toda a amplitude de variação do humor, do pico mais alto (mania plena), que pode durar várias semanas, até depressões graves. Em geral, inicia-se entre 15 e 30 anos, mas há casos de início mais tardio. É comum apresentar sintomas psicóticos, como delírios (pensamentos fora da realidade) ou alucinações (ouvir vozes que não existem, por exemplo). Se não for tratado, em geral prejudica enormemente o curso da vida do paciente. 
Tipo II: A alteração do humor  não é tão intensa quanto no Tipo I, mas apresenta fases de hipomania (pequena mania) e depressão. Assim sendo, nesse tipo a fase maníaca é mais branda e curta, chamada de hipomania. Os sintomas são semelhantes, mas não prejudicam a pessoa de modo tão significativo. As depressões, por outro lado, podem ser profundas. Também pode iniciar na adolescência, com oscilação de humor, mas uma parte dos pacientes só expressa a fase depressiva ao redor dos 40 anos. Com freqüência, os sintomas de humor deixam de ser marcadamente de um pólo para ter características mistas, turbulentas.  
Tipo III:  O Tipo III é semelhante ao tipo II, porém o quadro de hipomania é desencadeado pelo uso de antidepressivos ou psicoestimulantes.  É uma classificação usada apenas quando a fase maníaca ou hipomaníaca é induzida por um antidepressivo ou psicoestimulante, ou seja, os pacientes fazem parte do espectro bipolar, mas o pólo positivo só é descoberto pelo uso destas drogas. Sem o antidepressivo, em geral manifestam características do temperamento hipertímico ou ciclotímico. Como regra, devem ser tratados como bipolares, mesmo que saiam do quadro maníaco com a retirada do antidepressivo.  
Tipo IV: No tipo IV a oscilação de humor é mais leve e o paciente é, geralmente, uma pessoa com temperamento mais determinado, dinâmico, empreendedor, extrovertido e expansivo, e que, esporadicamente, passa a ter o humor mais turbulento e depressivo na meia-idade. Esses pacientes nunca tiveram mania ou hipomania, mas têm uma história de humor um pouco mais vibrante, na faixa hipertímica, que freqüentemente gera vantagens. A fase depressiva pode só ocorrer em torno ou depois dos 50 anos e às vezes é de característica mista e oscilatória.

Além desses quatro tipos, há a ciclotimia, que se caracteriza por um traço de personalidade cujo humor é oscilante e desregulado, e cujas fases não chegam a ser configuradas como mania ou depressão.

 

Curso
O Transtorno Bipolar I é um transtorno recorrente, ou seja, mais de 90% das pessoas que tiveram um Episódio Maníaco terão futuros episódios. Aproximadamente 60 a 70% dos Episódios Maníacos freqüentemente precedem ou se seguem a Episódios Depressivos mas o padrão de alternância é característico para cada pessoa.

O número de episódios durante a vida (tanto Depressivos quanto Maníacos) tende a ser superior para Transtorno Bipolar I, em comparação com Transtorno Depressivo Recorrente. Estudos do curso do Transtorno Bipolar I, antes do tratamento de manutenção com lítio, sugerem que ocorremquatro episódios em média a cada 10 anos. O intervalo entre os episódios tende a diminuir com a idade.

Aproximadamente 5 a 15% das pessoas com Transtorno Bipolar têm quatro ou mais episódios de alterações severas do humor, tais como, Episódio Depressivo Maior, Episódio Maníaco, Episódio Misto ou Episódio Hipomaníaco, que ocorrem dentro de um determinado ano. Embora a maioria das pessoas com Transtorno Bipolar retorne a um nível plenamente normal de funcionamento entre os episódios, alguns deles, entre 20 e 30%, continuam apresentando instabilidade do humor e dificuldades interpessoais ou ocupacionais.

Quando um indivíduo tem Episódios Maníacos com aspectos psicóticos, os episódios subseqüentes têm maior probabilidade de ter aspectos psicóticos. A recuperação incompleta entre os episódios é mais comum quando o episódio atual é acompanhado por aspectos psicóticos incongruentes com o humor.

Bibliografia:
Andrade L, Walters EE, Gentil V e cols.
Prevalence of ICD-10 Mental Disorders in a Catchment a Área in the city of São Paulo, Brazil. Soc Psych Epidemiol 37(7): 316-325, 2002
Cardno AG, Marshall EJ e cols.Heritability Estimates for Psychotic Disorders. Arch Gen Psychiatry 56:162-168, 1999
Michelon L, Vallada HFatores Genéticos e Ambientais na Manifestação do Transtorno Bipolar. Rev Psiq Clínica 32(Sup. Esp.) 1;21-27, 2005.

para referir:
Ballone GJTranstorno Afetivo Bipolar, in. PsiqWeb, internet, disponível em
www.psiqweb.med.br, 2005.

 

Opção ou Orientação Sexual ? – Ana Luiza Ferraz

Postado em Artigos, Filosofia, Psicanálise, Sexualidade com as tags , , , , , em 23/10/2008 por David Duarte Correia Jr

Quando uma criança nasce, sua identidade sexual será reconhecida pelos caracteres sexuais primários. Se essa criança irá confirmar ou não sua identidade sexual, dependerá da complementação de caracteres secundários que são os testículos nos meninos e ovário nas meninas e também de um processo mais complexo – o sexo psicológico – que se desenvolverá com o passar dos anos. Se no sentido fisiológico, as pessoas podem ter sua identidade sexual definida a partir da presença de órgãos sexuais característicos de cada gênero, o mesmo não ocorre com o sexo psicológico. Pensando nisso, a sexualidade se apresenta numa escala variante que vai desde um comportamento extremamente feminino numa mulher, passando por mulheres pouco femininas, mulheres masculinizadas até homossexuais femininas; da mesma forma podemos encontrar homens pouco masculinos, homens feminilizados e homossexuais masculinos.   

O termo orientação sexual é considerado mais apropriado do que opção sexual ou preferência sexual. Mas por quê ? Estudos recentes realizados dentro da sexualidade mostram que ainda na infância, a tendência sexual começa a se desenhar – motivo este o termo opção sexual é inadequado, uma vez que a tendência sexual começa a se manifestar mais ou menos aos sete anos de idade. Neste período a criança ainda não possui uma capacidade avaliativa e que possamos chamar de “escolha”. O que geralmente ocorre é que a criança nesta idade tenta reunir-se às crianças do sexo que irão se identificar psicologicamente e se este não estiver de acordo com a fisiologia, ela tende a ser discriminada pelas outras crianças.            

Um estudo sueco traz novos elementos para a discussão a respeito da base biológica da orientação sexual. A neurologista Ivanka Savic em Estocolmo observou que em resposta a um hormônio masculino, o cérebro de mulheres heterossexuais e de homens homossexuais responde de forma similar e da mesma forma há semelhanças na ativação de regiões cerebrais de homens heteros e mulheres homossexuais em resposta a um hormônio feminino.
Mas afinal o que é orientação sexual ? Ela indica o gênero (masculino e feminino) que uma pessoa se sente preferencialmente atraída física e/ou emocionalmente. Essa orientação pode ser: assexual, bissexual, heterossexual, homossexual ou pansexual. A orientação sexual não-heterossual foi removida da lista de doenças mentais nos Estados Unidos em 1973 e do CID (Classificação Internacional de Doenças) em 1993.            

A assexualidade é a orientação sexual caracterizada pela indiferença à prática sexual, isto é, a pessoa assexual não sente atração nem pelo sexo oposto e nem pelo mesmo sexo que o seu. A assexualidade pode ser classificada como uma disfunção e não uma orientação sexual. Existe um desacordo a respeito se a assexualidade é uma orientação sexual legítima. Algumas pessoas argumentam que seria um distúrbio de hipoatividade sexual ou distúrbio da aversão sexual. Outras causas sugeridas incluem abuso sexual passado, repressão sexual, problemas hormonais e desenvolvimento tardio de atração. Muitas pessoas ditas assexuais negam tais diagnósticos e argumentam que como a assexualidade não traz angústia, não deveria ser classificada como um distúrbio.             

A bissexualidade se trata da atração física e emocional por pessoas tanto do mesmo sexo como do sexo oposto com níveis variantes de interesse por cada um, e à identidade correspondente a esta orientação sexual. Portanto, bissexual sente atração por ambos os sexos, servindo, portanto de um quase meio-termo entre o hetero e o homossexual. Uma equipe de psicólogos de Toronto e Chicago realizaram estudos que serve de apoio para aqueles que se declaram céticos sobre o fato da bissexualidade ser um tipo de orientação distinta e estável. Eles mediram diretamente os padrões de resposta a estímulos a imagens de homens e mulheres. Os homens que se diziam bissexuais mostraram-se muito mais sexualmente excitados diante de outros homens.  As pessoas que afirmam ser bissexuais são geralmente homossexuais, mas são ambivalentes sobre sua homossexualidade.           

Heterossexualidade refere-se à atração sexual e/ou romântica entre pessoas de sexos opostos, e é considerada a mais comum orientação sexual nos seres humanos. A heterossexualidade tem sido identificada como “a normal” ou “natural”, decorrendo diretamente da função biológica relacionada com o instinto reprodutor sendo tudo o resto “anormal” ou “anti-natura”.           

Homossexualidade é o atributo, a característica ou a qualidade daquele ser que é homossexual e define-se por atração física, emocional e estética entre seres do mesmo sexo com eventual inversão de papéis de gênero (homens e mulheres).  Como surgiu o termo homossexual ? Foi criado em 1869 pelo escritor e jornalista Karl-Maria Kertbeny, derivando do grego homos que significa “semelhante”. Em 1870, um texto de Westphal chamado “As sensações sexuais contrárias” definiu a homossexualidade em termos psiquiátricos como um desvio sexual, uma inversão do masculino e do feminino.  A partir de então, no ramo da sexologia, a homossexualidade foi descrita como uma das formas emblemáticas da degeneração.  Experiências em laboratórios com ratos fêmeas e com seres humanos  que receberam testosterona (hormônio sexual masculino) ainda em fase uterina, resultou que desde a primeira fase da vida, mostravam comportamento masculinos como gostos, brincadeiras mais agressivas além de sentirem-se mais atraídas por fêmeas. Geneticistas defendem a tese de que a homossexualidade tem determinação genética. Glenn Wilson e Quazi Rahman, investigadores na área da psicologia, concluem que há diferenças biológicas entre pessoas homossexuais e heterossexuais, e que estas não podem ser ignoradas.  Alegam também que alguns fetos do sexo masculino com pré disposição genética para a homossexualidade são incapazes de absorver corretamente a testosterona no seu processo de desenvolvimento, de modo que os circuitos neurocerebrais responsáveis pela atração pelo sexo oposto, ou nunca se desenvolveram ou o fazem de forma deficiente. Quanto à homossexualidade feminina, esses investigadores avançam com a hipótese de haver uma proteína no útero responsável pela atração dos fetos femininos contra a exposição excessiva a hormônios masculinos que não atuam suficientemente cedo no processo de desenvolvimento.            

Psicólogos e psicanalistas estão contrários a argumentações apenas biogenéticas sobre as causas da homossexualidade e consideram a percepção desta orientação sexual como um traço “apenas” geneticamente determinado incorreta, buscando antes explicações associadas ao meio e à educação dos indivíduos homossexuais. Psicólogos norte americanos desenvolveram pesquisas sobre a importância da formação intra familiar no homossexual.            

Pansexualidade é a orientação sexual, distinta da bissexualidade e caracterizada por atração estética, amor romântico e o desejo sexual por qualquer um, incluindo pessoas que não se encaixam na binária de gênero macho/fêmea implicado pela atração bissexual. Algumas vezes é descrito como a capacidade de amar uma pessoa de forma romântica, independente do gênero. Alguns pansexuais chegam a afirmar que o gênero e sexo não têm importância para eles. Algumas pessoas trans e intersexuais se descrevem como pansexuais, tendo uma percepção íntima que existem muitos níveis entre o masculino e o feminino. Contudo isso não deve ser visto como generalização, já que as pessoas trans podem se identificar como heteros, bissexuais ou homos baseado em sua identidade de gênero.            

Existem três termos: travesti transexual e transgênero que as pesquisas e estudos realizados dentro da sexualidade ainda não têm uma classificação definitiva.            
Travesti era originalmente alguém que se vestia com roupas do sexo oposto para se apresentarem em eventos de fundo artísticos. Mas, essa prática passou a designar o comportamento das drag queens e transformistas. Esse termo atualmente se refere às pessoas que apresentam sua identidade de gênero oposta ao sexo designado no nascimento, mas que não almeja se submeter à cirurgia de resignação sexual que nada mais é do que a mudança de sexo. As pessoas que se definem travestis podem se identificar como homossexuais, heterossexuais, bissexuais ou assexuais.            

Transexual é uma pessoa que possui uma identidade de gênero oposta ao sexo designado, mas o que difere do travesti é que o transexual tanto homem quanto mulher, fazem ou pretendem fazer uma transição do seu sexo designado no nascimento com o sexo oposto. A explicação estereotipada é de uma mulher presa em um corpo masculino ou vice versa.  Transexualidade é um termo entre os comportamentos ou estados que abrigam o termo transgênero. Entretanto muitas pessoas da comunidade transexual não se identificam como transgênero que se refere a pessoas cuja expressão de gênero não corresponde ao papel social atribuído ao gênero designado para elas no nascimento. Mais recentemente o termo tem sido utilizado para definir pessoas que estão constantemente em trânsito entre um gênero e outro. O prefixo trans significa “além de”, “através de”.Não existe cientificamente nada que prove quais são as causas da transexualidade. Todavia, muitas teorias sugerem que as causas têm suas raízes na biologia e outros acreditam que as origens são predominantemente psicológicas. 

Dentre as causas psicológicas temos mães superprotetoras e pais ausentes, pais que almejavam uma criança do sexo oposto e homossexualidade reprimida.             
Em termos de individualidade ou essência, qualquer ser humano possui o gênero masculino e o gênero feminino dentro de si. No campo da sexualidade, temos muito ainda que pesquisar e estudar e definir realmente o que está por trás desses desejos sexuais e principalmente da “variedade” de orientações sexuais. Mas até lá o importante é que, qualquer que seja a orientação sexual dessas pessoas, como qualquer outro ser humano, elas merecem compreensão e são muito mais que um rótulo e que podem e devem ter uma vida comum como todos nós.              

Referências Bibliográficas

www.psicopedagogia.com.brwww.wikipedia.orgCARDOSO, Fernando Luiz, “O que é orientação sexual”, Editora Brasiliense

SCHIAVO, Marcio Ruiz, “Manual de Orientação Sexual”, Editora O Nome da Rosa

O Caráter Histérico e a sua Estrutura – Tovar Tomaselli

Postado em Artigos, Filmes, Literatura, Psicanálise com as tags , , , em 23/10/2008 por David Duarte Correia Jr

Dando continuidade aos meus artigos que versam sobre “A Histeria”, procurei me ater neste trabalho, ao “caráter”, bem como à “estrutura”, pertinentes a esse quadro patológico que tanto sofrimento traz a todos aqueles que dele padecem. Aqueles que tiveram o privilégio de assistir ao filme “Freud, além da alma”, puderam observar que Theodor Meynert, professor de Freud, o chama em seu leito de morte, dizendo a ele que ele, Meynert era um homem histérico, tendo solicitado que Freud lhe atravessasse uma agulha pela perna, para demonstrar a presença de uma “anestesia  histérica”. Fica aqui a sugestão desse maravilhoso filme, onde quem interpreta Freud é Montgomery Cliff. Simplesmente imperdível ! Procurei fazer constar no artigo algumas considerações que versam sobre a histeria masculina.

Após meus outros trabalhos como “Dora e a Identificação Histérica”, “Dora, 25 anos depois”, tentei me ater, neste outro artigo, naquilo que se denomina de “caráter histérico”, bem como em relação à sua “estrutura”. Conceitos absolutamente indispensáveis para que se possa efetuar uma leitura psicanalítica baseada nas evoluções pertinentes ao construto teórico da Psicanálise contemporânea.

Quando pensamos em qualquer estrutura psicopatológica, pode-se notar que os conceitos de conduta e de estrutura, se implicam mutuamente.

Freud não se cansou de destacar a não-existência de neuroses puras, afirmando que as neuroses são mistas, e que todas elas guardam em si certo quantum de hipocondria. Então, coloca-se a questão: “Em um sujeito neurótico, todas as suas condutas são de nível neurótico ou poderemos encontrar condutas que se qualificariam como perversas ou psicóticas?”

Outra questão que se coloca: ” E, em um perverso ou mesmo psicótico, não existiriam condutas neuróticas?”

Sabemos que já em 1938, Freud explicava essa coexistência pela via da “cisão do ego”. Então, embora não existam quadros puros, ficam pendentes algumas questões:

=== em função de que parâmetros avaliamos uma conduta como neurótica, perversa ou psicótica?

=== quando e em função de que nos sentimos no direito de dizer que as condutas de um sujeito, são sinais de uma neurose ou perversão?

Tentaremos apenas encaminhar a resposta a semelhante espectro de questões, apenas com o intuito de podermos vislumbrar a complexidade do tema.

As respostas sempre terão como polaridade principal a prevalência:

1-) do tipo de conflito:

a-) ego x id ou

b-) ego x id, por um lado e ego x realidade, por outro.

2-) do nível em que se propõe o conflito:

a-) edípico

b-) narcisista e pré-edípico

c-) ambos

3-) do grau de afastamento da realidade, da defesa empregada e do modo de restituir o rechaçado da realidade.

4-) do grau de aceitação, desafio ou rechaço da lei e da função paterna.

5-) da área e do modo como se manifesta a sexualidade infantil que demanda ser satisfeita.

6-) da fixidez, estereotipia e exclusividade na maneira de se relacionar com os objetos ou com o objeto sexual.

7-) de uma valorização sexual que brota de uma ideologia preconceituosa e, às vezes, compartilhada pela maioria.

Queremos ressaltar que esta classificação foi retirada do trabalho de H. Mayer, denominado “A Histeria”.

Retomamos agora a mais simples idéia sobre o que seria a estrutura de caráter, fazendo notar, que quando a ela se referir, estamos aludindo aos mecanismos habituais, aos quais apela o aparelho psíquico de um sujeito em sua tentativa  para resolver os seus conflitos psíquicos, os quais são geradores de angústia.

Através de uma vertente teórico-clínica, podemos notar que quando a angústia é muito intensa, bem como quando os mecanismos se mostram insuficientes, recorre-se inconscientemente a operações mentais como, por exemplo: a atuação, o sintoma ou a uma exacerbação dos traços de caráter acompanhada sempre de uma intensa rigidez, vindo a configurar uma espécie de “couraça defensiva”.

Note-se que mesmo quando falamos em mecanismos psicopáticos, neuróticos ou mesmo caracteropáticos, o mais importante a assinalar é que eles têm em comum sempre “o conflito”, cujas raízes residem no inconsciente, e às quais só teremos acesso através do trabalho analítico.

A Teatralidade, o exibicionismo e a sedução

Comumente esses traços são conhecidos como “histrionismo histérico”. Notamos que essas pessoas precisam mostrar-se, exibir-se, através de uma representação da qual não são sequer conscientes. Aqui, a pergunta que se coloca é: “O que representam?” Diríamos que uma trama na qual são encenados os proibidos desejos sexuais da infância.

Fenomenologicamente, então, estaríamos diante de uma menina, fortemente apegada à figura dos pais, a qual luta para vir a ser o par tanto da mãe, como do pai. Desse apego, resultaria a sua dúvida eterna sobre a sua identidade sexual. Na verdade, ela “representa ser uma mulher”, e tem como angústia a diferença sexual anatômica, a qual é interpretada por ela como a castração. Dessa representação, resultaria uma hiperfeminilidade. O que lhe interessa é despertar o desejo de um homem, muito mais do que alcançar o prazer sexual com um companheiro. Sabemos, através da clínica, que o homem que representa o seu companheiro ideal, será aquele fixado a uma mãe fálica.

Essa aproximação só ocorrerá uma vez que no curso da sedução exibicionista, esse homem deverá, através de seu desejo, confirmá-la como mulher, enquanto o que ele busca é ser confirmado em sua virilidade por esta “supermulher”, a qual representa a mãe idealizada, com quem desejara fundir-se na sua infância. Como uma decorrência de caráter, praticamente geral, nestes casos, sabemos que o ato sexual, se ocorrer, implicará numa mútua decepção. A mulher acreditará que está sendo usada como sendo um objeto sexual, e ele que a sua capacidade viril não está sendo suficiente para fazer gozar e deixar satisfeita uma mulher. Em outras palavras, ela se sente inferiorizada (castrada), e ele um menino impotente.

O encanto da fantasia é que ela, a mulher histérica, consegue ser o objeto de amor de um “pai idealizado”. Na verdade, tratam-se de sujeitos que sofrem uma realidade e que sonham acordados com uma outra realidade mais complacente, onde os desejos parecem cumprir-se de forma mágica. Quando o princípio da realidade  se apresenta tão subjugado pelo princípio do prazer, nas áreas em que isso ocorre, a passividade – motriz – contrasta com a força dos afetos que podem dar crédito às suas crenças fantasiosas. É nesse exato momento que alguns autores, destacam a existência da “mitomania”, como um traço de caráter histérico.

Notemos que, através da conversão, fenômeno típico da histeria, o corpo aparece como o lugar em que se expressa aquilo que a censura impede que seja pronunciado através das palavras. (“Quando um indivíduo se cala, ele fala pela ponta dos dedos.” S. Freud) Devemos entender e pensar o corpo da histérica, como sendo plenamente preenchido por metáforas, as quais serão necessárias vir à luz, e através do trabalho analítico.

Podemos inferir que a histérica foi amada por seus pais, não apenas de uma forma narcisista, isto é, que em certa medida desenvolveu seu Complexo de Édipo, e que, também descobriu e aceitou a castração materna, bem como a sua própria, vindo a desejar, assim, que o pai lhe dê o falo que lhe falta.

Será que poderíamos, então, falar de um “pai fálico da histérica”? Se não exatamente fálico, verdade é que se trata de um pai extremamente idealizado. É um pai para o qual se dirige toda a sedução infantil. Ou seja, para um pai e uma filha ou para uma mãe e um filho, o que sabemos é que: “A barreira do incesto nunca é tão frágil como aqui.”(na Histeria). Queremos deixar claro que  o desejo incestuoso e a sua repressão não são, por certo, privativos da histeria, mas na histeria se fazem presentes de maneira singular.

A sedução infantil, ou seja, a mútua sedução incestuosa, se constitui em um  ponto de fixação ao qual a fantasmagoria inconsciente resistirá a renunciar pelo resto da vida. Aqui, colocamos a pergunta para que se possa refletir: “Que satisfação sexual pode um simples homem procurar dar a uma mulher histérica, considerando a existência de um rival fantasmático tão poderoso?”

Algumas características sobre a tipologia histérica

=== A Ingenuidade:

A histérica tende a impressionar o outro quer do ponto de vista estético, quanto do ponto de visa do desejo sexual. Sabemos que isso que lhe dá esse ar de ingenuidade, ou ainda de ser possuidora de um “infantilismo emocional”, o qual, via de regra, é assinalado pelos autores que se dedicam à histeria. Sabemos que se a paciente pudesse tomar conhecimento disso, seria tomada por uma corrente de angústia e culpa, as quais inundariam o ego. A forma utilizada pelo psiquismo para que isso não ocorra, é fazer uso da “repressão”.

No que tange ao Complexo de Édipo, atualmente não mais poderíamos situar os impulsos reprimidos da histeria, somente referentes ao Édipo positivo. Estaríamos diante de uma visão míope da realidade, depois que Freud retificou a sua interpretação do Caso Dora, depois de ter descrito em 1923, o Complexo de Édipo completo. Também recebemos a informação da Clínica, a qual nos mostra incessantemente, a importância do vínculo homossexual na histeria.

=== O Infantilismo

Com esse termo, comumente são descritos uma série de traços habituais pertinentes ao caráter histérico, a saber: o egocentrismo, dependência de certos personagens idealizados, sugestionabilidade, ingenuidade, frigidez ou graus diversos de inibição genital, etc. Assim, costuma-se dizer que “A mulher histérica seduz e frustra”.

Segundo Lucien Israel: “não é uma mulher qualquer que se proponha consciente ou inconscientemente a “castrar” homens. O que devemos considerar é que por traz desse protótipo de mulher se evidencia, a existência de uma menina desvalorizada, que luta desesperadamente para alcançar o amor parental que lhe falta como filha.

Trata-se de uma evidência que verificamos na clínica que  o complemento dessa mãe que só reclama de ser mulher, é um pai submisso e dependente, o qual busca compensar essa humilhação, através da filha a quem manifesta, ou latentemente erotiza, reforçando suas fantasias dela transformar-se em sua parceira. Muitas vezes, o medo de entregar-se a um homem que pode abandoná-la é tal que provoca uma dissociação. Estabelece com o cônjuge com o qual está sexualmente insatisfeita, uma espécie de vínculo terno e dependente, enquanto coloca a satisfação sexual ou em um vínculo imaginário ou atual, mas fora da relação conjugal.

=== A Necessidade de Perfeição

Encontramos nas roupas, maquiagem, perfumes e até na companhia de um homem excepcional. Essa necessidade ficaria atribuída ao fato de que desde a sua posição infantil, teria interpretado a ausência do pênis como sendo uma “falta” humilhante e inaceitável. O vetor resultante dessa insatisfação seria uma busca compulsiva em todos os campos de atividades: físico, intelectual, cultural, etc. Contudo, sabemos que persistirá a eterna dúvida sobre o que lhe é próprio. Na comparação, as outras sempre serão mais belas, terão melhores condições de vida, o que vai “corroendo o seu templo narcisista”. Se está segura de algo é de não ter nunca escolhido suficientemente bem.

Lucien Israel nos diz: “Qual o vazio que, para a histérica, deve ser preenchido pelo homem?”… “Assim, deve ser mais forte e mais potente que o pai. O amo e senhor que atende o desejo da histérica: encontrar um mestre”.

Porém, é impossível para qualquer homem preencher esse vazio, sendo que: “O mestre, como todos os demais decepcionam a histérica. A decepção, insatisfação, se transformam em uma necessidade (…), a tal ponto que podemos acabar nos perguntando se o maior desejo da histérica, não consiste justamente em conservar intacto seu desejo, tendo que por isso, acumular fracassos e decepções”.

Só gostaríamos de citar, reforçando a importância dessa temática que W. Reich, em 1926, teria descrito como se tratando de um “caráter fálico-narcisista”. Encontramos dentro desse tipo caracterológico, várias formas ativas de homossexualidade masculina, bem como feminina, formações paranóicas e distintas perversões sexuais, sempre com um importante componente sádico.

=== Frieza emocional, Dissociação Afetivo-Sexual e Inibição Genital

Notamos, através de uma análise da literatura correspondente, uma preferência pelo termo “inibição genital”, como uma forma de referência à inibição sexual parcial, seletiva, etc. Sabe-se que a inibição por si só, não explica tudo o que ocorre, pois encontramos mulheres que atingem o orgasmo, mas que durante o coito e/ou depois dele, permanecem frias com relação ao homem, e tendem a “fugir” da cama; se deprimem; se mostram queixosas, ou ainda se afastam sob qualquer pretexto. Outras tantas são insensíveis com o marido e alcançam a plenitude do orgasmo em uma relação extra-conjugal esporádica ou mesmo de caráter permanente. Esses fatos conjugados nos levam a pensar que devemos considerar em conjunto a inibição sexual e a dissociação afetivo-sexual.

Ainda citando Lucien Israel, “a obtenção do orgasmo para a histérica, seria a morte”, “a  morte do desejo que faz diminuir a tensão.” Explica o citado autor: “essa atitude da histérica pode ser atribuída à necessidade de manter uma relação clandestina, na fantasia ou na realidade, com um representante paterno, ao mesmo tempo desejado e proibido, como sendo um sintoma que expressa a consumação e a punição frente ao cumprimento de um desejo condenado pelo Ideal, ou mesmo que expressa uma medida preventiva para a não realização de tal desejo”.

Da “novela familiar” da histérica, depreendemos que sua mãe não é consciente do mal que faz à filha, ao mostrar-lhe uma imagem denegrida do pai, ao mesmo tempo em que se apresenta como sendo a “vítima” desse marido. Assim, a filha adivinha e sofre o repúdio de sua identidade sexual por parte da mãe que a “ajudará” a construir um ideal inatingível: “O príncipe azul”, o mestre, como um ideal narcisista sim, porém também inatingível.

Da mesma maneira a menina é seduzida pelo pai, que estimula na filha a condição feminina. Sabemos que o pai da histérica está insatisfeito (sobretudo na sua auto-estima), e a sedução já não mais poderíamos colocá-la só entre aspas, uma vez que se encontra desprovida de uma “intermediação simbólica”.

Apenas algumas considerações sobre a Histeria Masculina

O caráter histérico masculino não difere muito do feminino. Sabemos que o homem histérico quer seduzir, ser amado por todos e não pode escolher, uma vez que se assim proceder, terá que renunciar a todo o resto, sendo que ele não se permite perder nada. Tem uma extremada necessidade de agradar para ser “confirmado” pelo desejo do outro. Quer para si, ser o ponto de condensação dos desejos dos demais— o filho único e maravilhoso— o homem histérico tem tanta insegurança quanto à sua identidade sexual, como a mulher histérica.

Tem uma necessidade ímpar de se apresentar como “superviril” (super-carros; super-mulheres, etc), como uma forma de obtenção fantasiosa de que todos o desejem. Como complemento desse estado de coisas, dessa ostentação machista que se rebelará a mulher histérica, adotando uma atitude frustradora em relação a ele.

Para Lucien Israel: “A relação amorosa entre dois histéricos é uma interminável disputa, ou mesmo uma representação tragicômica”. No homem a angústia de castração, aparece mais diretamente como síndromes de angústia, ou mesmo em virtude de certos deslocamentos, como pequenas ou grandes fobias. Sabemos, através da clínica que são menos freqüentes, mas existem também a presença de sintomas conversivos. Encontramos aqui uma supervalorização do pênis, equiparando-o ao falo. Notamos que o homem histérico sempre quer ser o melhor e o único, o que significaria que não superou a rivalidade com os pais, nem seu temor à punição pelos seus desejos sexuais proibidos.

De uma maneira geral, o pai frágil ou mesmo despótico, teria sido inseguro no exercício da lei. De qualquer forma, ao menino fica faltando a proteção paterna, a qual debilita a periculosidade que atribui aos seus desejos infantis.
Como complemento de um pai com estas características, encontraremos uma mãe que— sutil ou manifestamente— o desqualifica como homem. E, esta mesma mãe poderá seduzir o filho em maior ou menor grau, porém o fará sempre com um objetivo narcisista, faltando-lhe o verdadeiro amor de mãe, ou seja: o “amor terno”. O que deve, entre outras tantas coisas ser trazido à tona, através de um trabalho de análise é que, por traz de um homem histérico, portador de sua impotência, haveria nele uma maior necessidade da obtenção de ternura, do que propriamente de um amor genital .

 

Tovar Tomaselli
Psicólogo Clínico-Psicanalista-Prof.universitário

História da Personalidade e seus Transtornos – Erlei Sassi Jr e Fernanda Celeste O. Martins

Postado em Artigos, Psicanálise com as tags , em 23/10/2008 por David Duarte Correia Jr

A primeira descrição sobre personalidade foi feita por Hipocrates. Em 1891 Koch descreveu alguns “tipos” de personalidade. Depois Kraepelin em 1915 concebeu a seguinte classificação: instáveis, irritáveis, impulsivos, excêntricos, mentirosos, disputadores e anti-sociais. O primeiro a separar os distúrbios de personalidade das “doenças mentais” foi Pinel. Outros como Prichard e Kretschmer contribuíram para a evolução de conceitos e classificações, mas nenhum se destacou como Kurt Schneider que em 1923 publicou “As Personalidades Psicopaticas”, livro em que não classificou e sim descreveu de forma minuciosa as personalidades que propunha. Tal feito redefiniu o conceito de transtorno de personalidade acrescentando a geração de sofrimento para si ou para outros e a dificuldade de aprender com experiências como condições essenciais para o diagnostico. Atualmente transtorno de personalidade e definido como um padrão persistente de comportamento que desvia marcadamente das expectativas para a cultura de origem do individuo causando ma adaptação e inflexibilidade manifestadas através de sofrimento subjetivo ou disfunção sócia econômica. O interesse em estudar tal patologia tem aumentado consideravelmente desde 1980, provavelmente devido à possibilidade de maior diagnostico trazida pela classificação multi axial. Com aumento das pesquisas o conhecimento nesse campo tanto psicopatológico quanto farmacológico tem se desenvolvido e a revisão de conceitos sobre o que e a personalidade e como pode ser avaliada tem evoluído vertiginosamente. Nesse estudo optamos pela teoria biopsicossocial de cloninger e seu inventario de temperamento e caráter visto ser um dos mais validados no mundo, com uma visão das mais amplas e abrangentes do transtorno de personalidade. Segundo Cloninger que se dedicou ao estudo e definição da personalidade, podemos caracterizá-la como uma organização dinâmica dos sistemas psicofísicos do individuo que determinam seu ajuste único ao meio ambiente. Sendo uma entidade dinâmica esta em constante desenvolvimento e mudança, apresentando estabilização aos 50 anos de idade em media. O modelo proposto por cloninger e tridimensional, biopsicossocial e será detalhado posteriormente.

Epidemiologia: Prevalência de 2- 13% sendo as taxas mais elevadas em comunidades urbanas, entre homens e em classes sociais desfavorecidas

Etiologia : Existem varias teorias que tentam esclarecer a etiologia dos transtornos de personalidade (TP), citaremos algumas mais difundidas. Teoria do Espectro de Eixo I: Baseada nas idéias de Ernst Kretchmer em que as alterações da personalidade seriam expressões menores de síndromes de eixo I. Consequentemente partilhariam da mesma etiologia. Essa correlação pode ser encontrada por exemplo entre a Esquizofrenia e o TP Esquizotípico, Fobia social e TP de Esquiva e entre Transtornos afetivos e TP do cluster B. Outra visão seria considerar os TP como fatores predisponentes, pré-morbidos ou síndromes subclinicas dos transtornos do eixo I. Teoria Psicodinâmica: Esse modelo postula que diferentes tipos de TP refletem diferentes expressões do mesmo núcleo deficitário na personalidade. Mecanismos de defesa imaturos e uma formação fragmentada e frágil do self são normais no inicio da formação do individuo e patológicos se persistem na vida adulta. Tal condição e resultado de fatores constitucionais (genética) e fatores ambientais (abuso físico ou mental, separação precoce, negligencia). Por causa desses fatores traumáticos representações negativas do self e objetos externos são incorporados macicamente no mundo psíquico. Para o modelo psicodinâmico o núcleo deficitário e chamado núcleo Borderline: esse funcionamento e caracterizado por ansiedade crônica, neurose polissintomatica, coexistência de impulsos sexuais genitais e pré genitais, descontrole de impulsos e adiccao, processos primitivos de pensamento (fantasias e pensamento mágico) e ligação frouxa com a realidade. Tais sinais e sintomas do núcleo são encontrados em todos TP. Os comportamentos desadaptativos que caracterizam os TP tentam proteger um ser vulnerável e as diversas apresentações clinicas são resultado da combinação de fatores internos (timidez, curiosidade, persistência) e externos (cultura de origem, níveis social e educacional). O termo Borderline assim como a teoria do núcleo e o desenvolvimentos de técnicas para o tratamento desses pacientes foram desenvolvidos por Otto Kenberg nos anos 70. Teoria Biopsicossocial: Esse modelo e o psicodinâmico compartilham a crença em um denominador comum, o núcleo, que representa a “raiz” de todos os TP. Na teoria psicodinâmica o núcleo e chamado Borderline, na teoria tridimensional (biopsicossocial) o núcleo e o pobre desenvolvimento do auto-direcionamento. No entanto apenas o modelo em questão contempla tanto as experiências do individuo quanto a influencia do meio e da genética. O modelo psicodinâmico foi essencial para um primeiro entendimento desse novo campo e ainda hoje e importantíssimo para o desenvolvimento de abordagens psicoterapicas. Essa teoria foi desenvolvida por Clonninger, que acredita ser a personalidade formada por dois componentes, o temperamento e o caráter. O temperamento seria a porção da personalidade herdada, e composto por traços: busca pela novidade, esquiva ao dano, persistência e dependência de gratificação. Tais traços determinam a suceptividade do individuo a processos neuroquimicos específicos gerando emoções e interferindo nos processos de aprendizagem. O caráter seria a porção aprendida, influenciada pelo temperamento e ao mesmo tempo influenciando-o. O caráter e composto principalmente de conceitos internalizados sobre o mundo e o individuo em si. Também pode ser dividido em traços: auto-direcionamento, auto-transcendencia e cooperatividade. A divisão da personalidade nesse modelo ajuda a compreender os vários fatores que a formam, quais se repetem em todos os transtornos e aqueles que são específicos de cada subtipo. O baixo auto-direcionamento marca o surgimento do TP com o perpetuação de mecanismos de defesa imaturos.

 

Epidemiologia:
Prevalência de 2- 13% sendo as taxas mais elevadas em comunidades urbanas, entre homens e em classes sociais desfavorecidas

Etiologia :
Existem varias teorias que tentam esclarecer a etiologia dos transtornos de personalidade (TP), citaremos algumas mais difundidas.
Teoria do Espectro de Eixo I: Baseada nas idéias de Ernst Kretchmer em que as alterações da personalidade seriam expressões menores de síndromes de eixo I. Consequentemente partilhariam da mesma etiologia. Essa correlação pode ser encontrada por exemplo entre a Esquizofrenia e o TP Esquizotípico, Fobia social e TP de Esquiva e entre Transtornos afetivos e TP do cluster B.
Outra visão seria considerar os TP como fatores predisponentes, pré-morbidos ou síndromes subclinicas dos transtornos do eixo I.
Teoria Psicodinâmica: Esse modelo postula que diferentes tipos de TP refletem diferentes expressões do mesmo núcleo deficitário na personalidade.
Mecanismos de defesa imaturos e uma formação fragmentada e frágil do self são normais no inicio da formação do individuo e patológicos se persistem na vida adulta. Tal condição e resultado de fatores constitucionais (genética) e fatores ambientais (abuso físico ou mental, separação precoce, negligencia). Por causa desses fatores traumáticos representações negativas do self e objetos externos são incorporados macicamente no mundo psíquico.
Para o modelo psicodinâmico o núcleo deficitário e chamado núcleo Borderline: esse funcionamento e caracterizado por ansiedade crônica, neurose polissintomatica, coexistência de impulsos sexuais genitais e pré genitais, descontrole de impulsos e adiccao, processos primitivos de pensamento (fantasias e pensamento mágico) e ligação frouxa com a realidade. Tais sinais e sintomas do núcleo são encontrados em todos TP. Os comportamentos desadaptativos que caracterizam os TP tentam proteger um ser vulnerável e as diversas apresentações clinicas são resultado da combinação de fatores internos (timidez, curiosidade, persistência) e externos (cultura de origem, níveis social e educacional).
O termo Borderline assim como a teoria do núcleo e o desenvolvimentos de técnicas para o tratamento desses pacientes foram desenvolvidos por Otto Kenberg nos anos 70.
Teoria Biopsicossocial: Esse modelo e o psicodinâmico compartilham a crença em um denominador comum, o núcleo, que representa a “raiz” de todos os TP. Na teoria psicodinâmica o núcleo e chamado Borderline, na teoria tridimensional (biopsicossocial) o núcleo e o pobre desenvolvimento do auto-direcionamento. No entanto apenas o modelo em questão contempla tanto as experiências do individuo quanto a influencia do meio e da genética. O modelo psicodinâmico foi essencial para um primeiro entendimento desse novo campo e ainda hoje e importantíssimo para o desenvolvimento de abordagens psicoterapicas.
Essa teoria foi desenvolvida por Clonninger, que acredita ser a personalidade formada por dois componentes, o temperamento e o caráter.
O temperamento seria a porção da personalidade herdada, e composto por traços: busca pela novidade, esquiva ao dano, persistência e dependência de gratificação. Tais traços determinam a suceptividade do individuo a processos neuroquimicos específicos gerando emoções e interferindo nos processos de aprendizagem.
O caráter seria a porção aprendida, influenciada pelo temperamento e ao mesmo tempo influenciando-o. O caráter e composto principalmente de conceitos internalizados sobre o mundo e o individuo em si. Também pode ser dividido em traços: auto-direcionamento, auto-transcendencia e cooperatividade.
A divisão da personalidade nesse modelo ajuda a compreender os vários fatores que a formam, quais se repetem em todos os transtornos e aqueles que são específicos de cada subtipo. O baixo auto-direcionamento marca o surgimento do TP com o perpetuação de mecanismos de defesa imaturos.

Definição: Autocrítica

Postado em Artigos, Psicanálise com as tags em 21/10/2008 por David Duarte Correia Jr
 
A autocrítica refere-se à capacidade interna do indivíduo de realizar uma crítica de si mesmo. Ela implica na análise de seus atos, da sua maneira de agir, dos erros cometidos e das possibilidades de realizar uma autocorreção. Desta forma o sujeito se aprimora. Esse mecanismo é inerente ao processo de autoconhecimento – o ser conhece a si mesmo, identifica seus pontos fortes e fracos, suas potencialidades, e a partir daí corrige os rumos de sua jornada existencial, e se aplica também a um grupo social e a uma instituição.Esta sucessão de movimentos psíquicos, que compõe o encontro do indivíduo consigo mesmo, e que passa necessariamente pela autocrítica, é mais complexa do que parece. Normalmente as pessoas estão tão mergulhadas na rotina, e preocupadas em ver no outro os defeitos que lhe são inerentes, bem como em julgar seus semelhantes, que se esquece de voltar-se para si mesmo e realizar um exame minucioso de suas próprias atitudes. Os que se aventuram nessa caminhada interior encontram em sua trilha melindres e suscetibilidades, bloqueios e outras tantas dificuldades.Por outro lado, há pessoas extremamente perfeccionistas que exigem demais de si mesmas, e assim exageram na sua auto-avaliação, mergulhando fundo na autocrítica e só enxergando defeitos e sombras em seu íntimo. Enquanto os outros erram pela falta desta qualidade, estes pecam pelo seu excesso. É necessário encontrar sempre o equilíbrio nesses processos psicológicos.
Em doutrinas político filosóficas, como o marxismo-leninismo – junção das teorias de Karl Marx e de Vladimir Ilitch Ulianov, mais conhecido como Lênin -, a autocrítica é vista como um método científico e também enquanto exercício político constante. Através deste método os socialistas buscam a transformação da sociedade por meio da prática do Comunismo, resultado final de um desenvolvimento dialético – confronto entre tese e antítese, do qual brota a síntese, que se torna tese e dá seqüência a esse processo infinito. Esta forma de abordar a realidade engloba uma constante busca da verdade e do aperfeiçoamento de uma realidade, que assim passa por um exame permanente do real – a crítica – e pela procura de uma perfeição também interior – por intermédio da autocrítica. 

Freud – Além da Alma

Postado em Filosofia, Literatura, Psicanálise, Uncategorized com as tags , , , , em 08/10/2008 por David Duarte Correia Jr

O MAL, O BEM E MAIS ALÉM – FLÁVIO GIKOVATE

Postado em Filosofia, Psicanálise com as tags , , , em 08/10/2008 por David Duarte Correia Jr

Jorge Forbes – Café Filosófico: O adolescente cinquentão

Postado em Filosofia, Psicanálise com as tags , , , em 08/10/2008 por David Duarte Correia Jr

SERÁ QUE É PRECISO AMAR A SI MESMO ANTES DE AMAR AOS OUTROS? – FLÁVIO GIKOVATE

Postado em Artigos, Filosofia, Psicanálise, Sexualidade com as tags , , , em 14/09/2008 por David Duarte Correia Jr
Flavio Gikovate

Flavio Gikovate

 Sempre me surpreendo ao ouvir as pessoas falarem, com convicção, frases conhecidas, tidas como verdades, sobre as quais pouco refletiram. Elas correspondem às crenças, pontos de vista que herdamos daqueles que nos antecederam. Temos o dever de repensar tudo, uma vez que novos conhecimentos podem criar maneiras mais sofisticadas de encarar os temas que tanto nos interessam.

              Esta é uma destas frases: “se eu não conseguir me amar primeiro, não serei capaz de amar ninguém”. Isso é dito e pensado a propósito da possibilidade de estabelecermos um relacionamento íntimo, estável e de boa qualidade. Não se está falando em termos genéricos, de modo que ela não está diretamente ligada ao ditame bíblico de que devemos “amar ao próximo como a nós mesmos”.

              O “próximo” do texto bíblico é qualquer pessoa com a qual estabelecemos algum tipo de relação e não aquele ser especial com quem queremos estabelecer um relacionamento íntimo, de preferência estável e definitivo. Além disso, penso que a idéia religiosa diz respeito ao tratamento e aos direitos, ou seja, de que devemos considerar os outros como portadores de direitos iguais àqueles que atribuímos a nós.

              A forma como tenho pensado acerca do amor não nos permite falar em amor por si mesmo. Isso porque ele acontece sempre em condições interpessoais. O amor corresponde ao sentimento que temos por aquela pessoa cuja presença provoca em nós a adorável sensação de paz e aconchego. A primeira manifestação desse sentimento corresponde ao que acontece entre mãe e filho, talvez ainda durante a vida intra-uterina, mas, certamente, a partir do nascimento: a criança, desamparada e ameaçada por desconfortos de todo o tipo, se sente bem e aconchegada pela presença física da mãe e a ama; esta, por sua vez, sente enorme prazer em estar com seu bebê no colo e sente por ele enorme amor justamente porque ela também se sente aconchegada por ele.

              O primeiro sentimento interpessoal é o de amor. É claro que a criança, frustrada pela ausência da mãe, também pode ficar revoltada e chorar muito por se sentir abandonada. Talvez o segundo sentimento seja mesmo de raiva, que também é interpessoal (depende de um agressor externo). À medida que os meses se passam e a criança vai se diferenciando, ela passa a pesquisar o mundo que a cerca, inclusive a si mesma. Ao tocar certas partes do seu corpo, experimenta uma sensação muito agradável de excitação. Trata-se de excitação sexual, esta sim pessoal e auto-erótica.

              Quando se pensa no sexo e amor como parte do mesmo processo, o que não é o meu ponto de vista, pode-se pensar que exista algum tipo de afeição da criança (e depois do adulto) por si mesmo. Acontece que com a separação entre esses dois fenômenos (sendo fato que o amor acontece antes do sexo), podemos pensar no sexo como um fenômeno pessoal, mas não no amor como tal. Assim, existe auto-erotismo, mas não existe amor por si mesmo: o amor pede objeto e o primeiro objeto é nossa mãe.

              Estas considerações são de natureza mais teórica. Vamos agora à prática, na qual constatamos que a grande maioria das pessoas não tem um bom juízo de si mesma. Isso significa que elas não têm boa auto-estima, o que costuma ser tratado como sinônimo de ausência de amor por si mesmas. Estima é uma palavra que pode estar associada a amor, mas também significa valor; penso mais neste segundo aspecto, de modo que baixa auto-estima significa que não estou satisfeito com o meu jeito de ser. Eu sou o juiz e também aquele que é avaliado, no caso, de forma negativa. Se isso, de fato, implicar em incapacidade para amar, podemos afirmar que o amor não existe!

              O que acontece não é nada disso. Aquele que tem de si um juízo negativo costuma se interessar por alguém que seja o seu oposto. Isso sim é a regra do que acontece na realidade: nos encantamos pelos que são o oposto de nós, já que não gostamos nem um pouco do nosso jeito de ser. As pessoas que acompanham meu trabalho sabem que considero este tipo de aliança um tanto precária e, hoje em dia, com tendência a uma vida curta.

              Podemos dizer que quem não tem boa auto-estima (expressão melhor do que “aquele que não se ama”) tende a amar seu oposto. A qualidade deste tipo de relacionamento é muito duvidosa, de modo que, nesse sentido, podemos dizer que aqueles que têm uma boa auto-estima (expressão que substitui, com vantagens, “aquele que se ama”) tendem a estabelecer relacionamentos amorosos muito melhores encaixados e bastante mais gratificantes.

              Ao pensarmos por esta ótica e se considerarmos como amor apenas este segundo tipo de relacionamento, entre pessoas de temperamento e caráter afins, podemos dizer que ele depende vitalmente de uma boa auto-estima. Como ela é rara, também serão raros os relacionamentos amorosos. Acontece que não me parece razoável pensar assim, já que os relacionamentos entre opostos também implicam em aconchego e intimidade – apesar dos problemas, conflitos, ciúmes e brigas de todos os tipos. Assim, só poderíamos mesmo é afirmar que para sermos muito felizes no amor temos antes que nos entender conosco mesmos. Talvez seja essencial um avanço na capacidade de ficar bem consigo mesmo, de correção daqueles aspectos que não gostamos em nós e do atingimento de um estado de conciliação com nossa forma de ser para que possamos estar verdadeiramente prontos para um relacionamento amoroso no qual as delícias do aconchego possam nos satisfazer plenamente.

Ética na Contemporaneidade – Prof. Dr. Alvaro L. M. Valls (Dep. Filosofia – UFRGS)

Postado em Artigos, Filosofia, Psicanálise com as tags , , , , em 11/09/2008 por David Duarte Correia Jr

 

Espera-se de um filósofo, nesta situação, um enfoque de ética geral e fundamental, e talvez, como o título sugere, numa perspectiva histórica atualizada. O que teria a ética a dizer hoje, em geral, e no fundamental, dentro de um seminário que trata de um tema tão contemporâneo e tão urgente quanto doloroso? Mas antes de desenvolver alguns conceitos da filosofia, reflitamos fenomenologicamente sobre o caso específico da Aids hoje, para ver o que este problema poderia representar enquanto um desafio à ética filosófica:

  1. Aids é uma doença, caracterizada por um enfraquecimento.
  2. Aids é ainda uma doença mortal e com um tratamento muito caro.
  3. Aids não mata de maneira fulminante, é uma doença que dura.
  4. Aids virou uma epidemia, inclusive no Brasil e no Rio Grande do Sul.
  5. Aids é doença sexualmente transmitida ou ligada ao uso de drogas.
  6. Aids tem a ver, muitas vezes, com comportamentos sexuais discutíveis.
  7. Aids produz, mesmo entre os próximos, reações de discriminação.
  8. Aids exige esclarecimento consciente e prevenção sistemática.
  9. Aids exige prevenção radical junto aos jovens e aos grupos de risco.
  10. Aids exige mudança de comportamento no relacionamento humano.

1.3 Esta lista de dez observações, não tendo sido elaborada por um especialista, mas por um leigo, não pretende ser exata nem exaustiva, e apenas espera não estar come-tendo nenhuma injustiça grosseira. Mas pretende, sendo aproximativa apenas, levantar algumas das questões filosóficas e éticas que estejam subjacentes aos problemas que esta doença nos trouxe, bem como aos desafios de novos comportamentos éticos que ela repre-senta. Por outro lado, há na ética uma convicção já antiga de que dos fatos apenas não se podem derivar deveres (“a falácia naturalista”). Portanto, após termos mencionado alguns fatos, precisamos de uma reflexão e de alguns princípios ou argumentos, que só as teorias nos fornecem.1.4 Quanto à terminologia: falaremos da moral ou da ética. Pois podemos usar aqui as duas palavras mais ou menos como sinônimas, a não ser quando quisermos enfatizar mais o lado da reflexão pessoal consciente, então diremos moral, ou o lado dos costumes concretos, das tradições das formas de agir de um povo ou de uma civilização, e então falaremos da ética, acompanhando nisto, mais do que a tradição de nossos irmãos castelhanos, a alemã (com Kant e Hegel e a interpretação que este último deu de Sócrates e da eticidade grega). A palavra ética fica também reservada, ao nível epistemológico, para a disciplina de reflexão filosófica, enquanto se usa em geral a palavra moral para os questionamentos teológicos. Neste sentido, ninguém estranhe se ouvir dizer, por exemplo, que a ética é o estudo da moral.

2 No campo da reflexão sobre o agir humano, destacam-se hoje em dia três grandes tradições filosóficas.

2.1.1 A primeira reporta-se geralmente aos escritos de Aristóteles, o grande mestre grego que viveu há uns 2.300 anos, e que situou a sua “ciência das virtudes” entre a Física e a Política. A rigor, as ciências filosóficas da práxis deveriam ser três: a Ética, centrada no agir individual, a Economia, que deveria estar voltada para a práxis doméstica ou familiar, e a Política, idealizando as relações humanas dentro do universo da cidade/estado e das cidades entre si (pois ela já foi escrita no período do Império Alexandrino). O que caracteriza a ética aristotélica e dos seus seguidores, é que ela estuda o agir a partir de uma concepção do homem como sendo: um animal político, que tem linguagem e muitas vezes age logicamente (ou deveria fazê-lo) e que precisa desenvolver-se dentro de uma sociedade concreta, num período de tempo, dentro de formas concretas de governo de uma cidade, se quiser ser feliz. O ideal de Aristóteles então é o do homem virtuoso, significando a virtude uma força, um vigor, uma excelência relacionada aos valores práticos e intelectuais da existência. O mais virtuoso seria o mais capaz de realizar-se como homem, atingindo assim a felicidade (eudaimonía), meta procurada por todos. Esta felicidade supõe um certo equilíbrio de bens, pois o homem, ser complexo, não busca simplesmente um único bem. Precisa de ar para respirar, de comida e de bebida, de saúde para sentir-se bem, de algum dinheiro, de alguns amigos, de algum reconhecimento público e respeito por parte da sociedade ou do estado, e precisa até ter algum tempo para poder dedicar-se às reflexões filosóficas, metafísicas, bem como precisa assistir a algumas representações teatrais, para, participando das tragédias, crescer moralmente. Como estamos vendo, o comportamento ético, estudado pela filosofia da práxis dos aristotélicos, inclui não somente as reflexões especificamente “morais”, mas supõe também uma certa sabedoria ou prudência para o trato com o mundo. Outra característica da ética aristotélica é uma certa noção de natureza humana. Há coisas que nossa reflexão mostra ajudarem à natureza, outras vemos que lhe são nocivas. Parece-me que esta tradição filosófica, hoje mais uma vez em grande voga, influi decisivamente dentro e fora das igrejas, para o debate com os cientistas. Ou seja, o argumento, às vezes demasiado apressado, é sempre: isto ou aquilo vai contra a natureza humana. Mas poderíamos levantar a pergunta: onde está estabelecida de maneira definitiva esta natureza, este modo de ser próprio do homem? Será que toda ela poderia realmente ser deduzida através de silogismos a partir da definição inicial do “animal rationale”, definição, aliás, que Heidegger considera pouco proveitosa?

2.1.2 De qualquer maneira, para a problemática da Aids, esta concepção não serve apenas para refletir sobre a necessidade da saúde corporal e dos comportamentos mais ou menos “naturais”, mas poderia ser muito inspiradora no que tange à sua teoria das virtudes. Pois mesmo a teoria da virtude como um “justo meio” (tantas vezes incompreendida), tem muito a nos ensinar ao enfrentarmos uma ameaça até recentemente desconhecida. Vejamos apenas o exemplo da coragem, (para nem falarmos da virtude da justiça): coragem, para Aristóteles, é um justo meio termo, adequado ao homem, entre a temeridade e a covardia. Ora, se a coragem é uma virtude desejável, então temos de questionar muitos comporta-mentos covardes, comuns em nossa sociedade atual, que busca geralmente apenas o conforto, a facilidade, a segurança, o prazer e a saúde a qualquer preço. Enquanto a tradição histórica de ordens e famílias religiosas, não somente cristãs, favorecia o heroísmo do atendimento aos mais sofredores, mesmo arriscando a saúde e a própria vida, pois não há maior amor do que dar a própria vida pelos seus irmãos, e uma vez que o Senhor dirá um dia: “a mim o fizestes”, nossos costumes atuais secularizados propendem muitas vezes apenas para o hedonismo, e privilegiam demais o medo, coisa que Aristóteles, um pagão, não deixaria de abominar.

2.2 A segunda grande tradição ética, de estilo mais anglo-saxônico, é a corrente do utilitarismo. Os seguidores deste modo de pensar são geralmente muito pragmáticos, de certo modo imediatistas (contentando-se com uma moral provisória), são menos especulativos, e raciocinam praticamente assim: o maior valor ético deve consistir em procurar o maior bem possível para o maior número possível de homens (ou, como preferiria dizer Peter Singer, em sua Ética Prática, “de pessoas”). Esta formulação é útil e prática, e pode ser usada muitas vezes. Ela tem a vantagem de não perder tempo em especulações que aca-bam atrapalhando, ou mesmo substituindo, o agir. E não há dúvidas de que no campo da moral ou da ética as palavras jamais conseguem substituir as ações. Lembremos apenas dois exemplos: no Evangelho, a parábola dos dois filhos, quando um diz “não”, mas se arrepende e faz a vontade do pai, e o outro diz “sim” e não faz, talvez até achando que já fez o suficiente ao prometer que o faria. O mesmo acontece, partindo agora para a literatura, com as filhas do Rei Lear, em Shakespeare: duas delas juram amor ao pai, mas, como insinua Kent, suas “words of love” não são seguidas por “works of love”. Entretanto, também se poderia objetar que o utilitarismo move-se um pouco no ar, na medida em que não define o que seria este bem. O que se deve conseguir para o maior número possível de pessoas: mais livros ou mais manteiga? E o próprio Aristóteles, muito antes de nosso tempo, já poderia lembrar-lhes de que o útil é sempre um valor relativo, ele não é bom em si, mas bom para uma outra coisa, e portanto esta outra coisa é que merece realmente todos os nossos esforços. Mas sobre o que seria o bem final para os homens, esta corrente geralmente não pensa muito.

2.3.1 A terceira grande tradição filosófica que atua e vigora até hoje é a da linha kantiana, centrada sobre a noção de dever. Parte das idéias da vontade e do dever, conclui então pela liberdade do homem, cujo conceito não pode ser definido cientificamente, mas que tem de ser postulado sempre, sob pena de o homem se rebaixar a um simples ser da natureza. Kant também reflete, é claro, sobre a felicidade e sobre a virtude, mas sempre em função do conceito de dever. É famosa, na obra de Kant, sua formulação do chamado “imperativo categórico”, nas palavras: “Age de tal modo que a máxima da tua vontade pos-sa valer sempre ao mesmo tempo como princípio de uma legislação universal”. – Kant reconhece que esta é apenas uma fórmula, porém ele, que gostava tanto das ciências e que não tinha a intenção de criar uma nova moral, estava apenas preocupado em fornecer-nos uma forma segura de agir. Sua ética é, pois, formal, – alguns até dirão formalista. Ora, o nosso pensador alemão, com seu imperativo categórico, nos forneceu, na prática, um critério para o agir moral. Se queres agir moralmente, (isto é, para Kant, racionalmente,) – o que aliás tu tens de fazer – age então de uma maneira realmente universalizável. Pois aqui está o segredo da ética kantiana: A universalização das nossas máximas (em si subjetivas) é o critério. A moral kantiana, de certo modo, também pressupõe um conceito de homem, como um ser racional que não é simplesmente racional. Portanto, um ser livre, mas ao mesmo tempo atrapalhado por inclinações sensíveis, que ocasionam que o agir bom se apresente a ele como uma obrigação, como uma certa coação, que a sua parte racional terá de exercer sobre sua parte sensível. O dever obriga, força-nos a fazer o que talvez não quiséssemos ou que pelo menos não nos agradaria, porque o homem não é perfeito, e sim dual. Mas o dever, quando nos força, obriga a fazer aquilo que favorece a liberdade do homem, porque o homem é um ser autônomo, isto é, sua liberdade, no sentido positivo, consiste em poder realizar o que ele vê que é o melhor, o mais racional. Poder realizar significa: causar por vontade própria um efeito no mundo, ao lado das causas naturais que pertencem, como diz Kant, (à maneira newtoniana,) ao mecanismo da natureza. O homem, neste sentido, é legislador e membro de uma sociedade ética: é legislador porque é ele que vê o que deve ser feito, e é membro ou súdito porque obedece aos deveres que a sua própria razão lhe formula. Neste sentido, ele não tem um preço, mas uma dignidade, e é por isso que a segunda fórmula do imperativo categórico diz para agirmos de modo a não tratar jamais a humanidade, em nós ou nos outros, tão-somente como um meio, mas sempre pelo menos também como um fim em si. É o que Tugendhat chamaria uma ética do respeito à pessoa.

2.3.2 Não quero e nem posso, aqui, entrar em mais detalhes sobre essas três correntes éticas, mas gostaria de ressaltar que a terceira, a kantiana, é extremamente moderna. A ética do dever é moderna porque confia no homem, na sua razão e na sua liberdade. É a ética do homem empreendedor, e nisto coincide com o surgimento e a ascensão da sociedade industrial e capitalista. Ela é estranha ao capitalismo consumista, na medida em que não dá grande valor ao gozo dos prazeres, acentuando privilegiadamente os deveres. A felicidade de que Kant fala é a da consciência do dever cumprido. A tranqüilidade da boa consciência. E se ele fala na busca dos bens materiais é porque considera que ser feliz, neste aspecto, é um dever do homem, uma vez que um homem frustrado faz mal a si e aos outros. Temos, pois, até uma obrigação de tudo fazermos para ser felizes, desde que seja tudo o que poderia ser universalizável, dentro do respeito aos demais. Não é a felicidade a qualquer preço.

3 O ponto comum destas três concepções éticas é que elas se situam numa posição intermediária entre, por um lado, as morais religiosas ou tradicionais, que poderíamos chamar dogmáticas, isto é, que contém explicitamente preceitos revelados, quer por uma divindade transcendente, quer pela força da tradição histórica, e, por outro lado, as atitudes que poderíamos chamar infra-éticas. Atitudes infra-éticas apresentam, por exemplo, aquelas pessoas que não vivem, ao menos conscientemente, ao nível ético da escolha do “bom”, do “bem”, do “agir bem” ou do “bem comum”. São pessoas que buscam simplesmente o prazer, ou o poder, ou o proveito pessoal, ou as vantagens econômico-financeiras, em todas as ocasiões. Também poderíamos chamar de atitude infra-ética, embora não de “amoral” aquele comportamento motivado apenas por sentimentos, supostamente bons. O sentimento moral ou o “moral sense” não constitui uma base filosoficamente respeitada como suficiente. O mesmo vale para os que defendem valores puramente tradicionais enquanto convencionais. Bem próximo destes estão os hoje chamados “contratualistas”, que embora teorizem sobre formas de convivência humana possível sobre a terra, não se baseiam propriamente numa perspectiva moral. As ações supostamente contratuais podem ser também interpretadas perfeitamente como estratégicas. Uma aliança de famílias mafiosas, dividindo o crime e a contravenção entre si, não atinge um nível moral porque não respeita todos os envolvidos, mas tão-somente os diretamente interessados nos negócios: a clientela não é respeitada em sua dignidade pessoal. Estamos supondo portanto que a ética, porquanto moral fundamentada por uma reflexão (seja ela mais espontânea ou mais sistematizada), sempre tem um respaldo argumentativo, procura mostrar-se racional, e sempre busca a universalização, quer dos interesses, quer de uma natureza comum, quer de um agir segundo máximas que possam constituir-se em leis universais. A busca da argumentação fundamentadora é extremamente importante numa situação de pluralismo de valores e de globalização da sociedade. Os interesses do grupo, do clã ou da família ou corporação não podem mais dizer a última palavra, assim como a moral de uma confissão religiosa não pode ser imposta aos que não compartilham desta.

4 Exposto este panorama, ainda que resumido, das teorias éticas mais contem-porâneas, deveríamos agora ao menos iniciar uma reflexão que ligasse os fundamentos teóricos com alguns dos aspectos do problema hoje vivenciado ao redor da Aids. Os desafios da Aids, que apareceram em nossa fenomenologia de dez pontos, têm de ser especificados na perspectiva mais especializada da Bioética e dos Códigos de Ética. Porém não podemos deixar de tentar ao menos uma primeira ligação entre estes fatos e aquelas formulações de tipo normativo.

4.1 Numa perspectiva néo-aristotélica, teríamos que expressar a luta pela vida e pela felicidade, da parte do doente e dos seus familiares e amigos, bem como a necessidade do exercício das virtudes tais como a prudência, a temperança, a coragem, a justiça e outras, pois sem virtude o homem não está em condições de enfrentar os lados mais trágicos da existência, que nossa ideologia dominante procura até esconder. Os valores do discernimento e da amizade também se mostram como urgentes. A tendência aristotélica que privilegia a lógica que o homem tem ou pode ter insistiria em que nossos comportamentos não podem ser totalmente dominados pelas paixões e inclinações. O homem precisa de autodomínio, até para evitar a doença. Por outro lado, o cientista ou o médico deve aprender de Aristóteles que sua ciência é também uma “virtude”, ou seja, por ser um bom cientista ele já é também virtuoso, uma vez que a ciência, mais do que uma entidade mítica adorada pela mídia, é antes “uma propriedade de seu caráter”, faz parte de seu éthos. Aristóteles, tratando do amor e da amizade, ainda enfatizaria que tais relações consistem em querer o bem do outro, valorizando nele o que ele tem de melhor. As éticas de formato aristotélico tendem, por outro lado, a atitudes conservadoras, abominando qualquer comportamento que se desvie de um certo ideal de “natureza humana”, supostamente pré-estabelecido e definitivo. Esta posição, já por ter em suas bases conceitos metafísicos muito antigos, de tipo essencialista, pertencentes a um mundo completamente diferente do mundo científico-tecnológico em que vivemos, precisa esforçar-se muito para conseguir dizer coisas realmente importantes diante de um problema completamente novo, contemporâneo, como o da epidemia da Aids. Em todo caso, não se deve desprezar as origens aristotélicas desta ética, fundada afinal de contas por um pensador cujo conceito-chave era o da “vida”, conceito presente desde as investigações sobre plantas e animais até as sobre a teoria da tragédia.

4.2 Os pensadores de extração utilitarista não se preocupam com questões sobre natureza humana, embora respeitem os direitos das pessoas. Buscam a felicidade maior possível, entendida em grande parte como ausência de dor e de sofrimento. Alguns desses pensadores são mais sensíveis a problemas como o do prolongamento desnecessário do sofrimento, na hipótese de que o paciente já não suportasse mais o tipo de existência que está tendo. O que não significa, naturalmente, deixar de lutar enquanto a vida apresenta ainda um sentido forte e humano. Um utilitarista também se lembraria de questionar se algumas formas de relacionamento humano englobadas no título geral do amor são realmente benevolentes, e se não deveriam ser modificadas quando prejudiciais. Por outro lado, o esclarecimento sobre a doença e sobre a forma de contraí-la não deveria preocupar-se demasiado com tabus e um suposto pudor, levando-se em conta um cálculo de valores maiores, e numa perspectiva sempre voltada para os resultados concretos e previsíveis, mais do que para as formalidades das intenções.

4.3 Quanto aos éticos do dever, da liberdade e da universalização, sua tendência é sempre de privilegiar a intenção, e não apenas o resultado. De procurar tratar sempre os demais com respeito, como a seres livres e autônomos, que agem livremente e que são capazes de fundamentar suas formas de agir, inclusive pela universalização. Rejeitam, naturalmente, a discriminação por causa de uma doença, pois para eles todos os seres racionais são igualmente dignos. Insistiriam quanto à sinceridade e à transparência das informações, uma vez que o sentido da linguagem é o de revelar e não o de ocultar e, como herdeiros da Aufklärung, defenderiam com o maior empenho o esclarecimento, também a orientação sexual. Valorizariam extremamente os esforços dos pesquisadores, porque esta ética é a outra face da razão pesquisadora e porque o cientista tem de aprimorar os seus talentos. E insistiriam na necessidade de auxiliar os que se encontram em uma situação pior, pois é impossível querer que se proíba uma ajuda possível. Mas teriam grande desconfiança em relação à eutanásia, devido ao respeito à vida, à natureza e à dignidade da pessoa.

 

Texto apresentado no Seminário “Aids Quo Vadis”: Tendências e Perspectivas da Epidemia no Rio Grande do Sul
IV Módulo: Ética, Direitos humanos e Avaliação

CARTA AOS PSICANALISTAS DO ANO 2100 – EMÍLIO RODRIGUÉ

Postado em Artigos, Filosofia, Psicanálise com as tags , em 07/09/2008 por David Duarte Correia Jr

Fantástico!

Felicitações: conseguiram, remontaram o rio da historia. Vocês são os ciberargonautas, alquimistas temporais navegando no túnel do tempo. Já em minha época se especulava que era possível comunicar-se com o passado. Supervisionar a história com um marca-passo. Mas ninguém pensava que isso aconteceria tão cedo e que eu seria um dos corresponsais escolhidos do passado. Talvez essa seja a parte mais surpreendente desta história. Estou orgulhoso de vossa escolha e com toda razão. Imagine! Também confesso que me aliviou saber que a psicanálise continua viva no Século XXII, coisa que muitos de nós duvidávamos. Porque houve uma crise na psicanálise em meu século a partir do maio francês de 1968, momento em que Marx morre, esquecido, e Freud, mal ferido, foi salvo por Lacan, numa ruela do Quartier Latin.

Mas quero saber mais. A psicanálise está bem viva mesmo? Mais viva que os Sistêmicos? É bom saber que ela ainda é uma psicotecnologia de ponta. Desejaria perguntar-te sobre mil pequenas coisas de nosso oficio: número de sessões, duração das mesmas, honorários. Cobra-se quando o paciente falta à sessão? Ainda existe o divã? A IPA? Salvador segue sendo um centro importante? A depressão ainda é a doença dominante? A psicanálise teve uma nova Melanie Klein, um novo Lacan? Alguns analistas continuam trepando com suas pacientas? Proliferam os cismas? Como se foi desenvolvendo o que Derrida denominou o “Pathos eletrônico?” Se usa a análise via Internet? Ainda existem os cognitivos?

Mas estou curioso além da psicanálise. Ainda se fala português? Ainda existem os colégios, as prisões, as fábricas? Vais ao cinema? Teatro com atores no palco? Circo com palhaços? Telenovelas da Globo? Como vocês fazem sexo? Quem ganhou a última Copa do Mundo? Não acredito que possa ser o Brasil uma vez mais! Quando se superou o HIV? Todavia existe o câncer? Se seguem usando giletes? Qual é a expectativa de vida no século XXII? As velhinhas vivem mais do que os velhinhos? Qual é o índice de Qualidade de Vida?

O termo qualidade de vida se expandiu quase como um vírus nos últimos 15 anos. Palavra nova. N.Rescher rastreou suas origens para descobrir que nasceu em 1964, na boca do presidente Lyndon B. Johnson, proferido num discurso em Madison Square Garden, quando diz:

“Nossas metas vão mais além das contas bancárias. Só podem ser medidas pela qualidade de vida de nosso povo”.

Ou seja, a felicidade tem que ser tomada em conta. A noção de felicidade, segundo André Burgière, nasce no três de março de 1794 quando Saint-Just, o Anjo da Morte, a considera uma idéia nova em Europa. Ela chegou como um invento tardio. A fome, as pragas, os miasmas minguaram. Ou seja, a qualidade de vida começou a melhorar a começos do século XVIII, século que se ilumina com os enciclopedistas na França e com a grande figura do utilitarismo, Jeremy Bentham. O bom e o útil para o maior número de pessoas. Bentham predica um sofisticado hedonismo social, criando os parâmetros da qualidade de vida. Nasce o burguês. A felicidade é uma novidade como uma exceção: Aristóteles pensava nessa direção faz 2.200 anos, quando se preocupa pela eudaimonia. Mas não posso deixar de me lamentar, pensando a história da humanidade, que perdemos 2200 anos de felicidade. É bem possível que a Grécia do quarto século antes de Cristo, ajudada pelas correntes asiáticas, chegou a antecipar a noção do bem comum, da felicidade; para os não escravos. Mas depois vem a massificação totalitária de Alexandre o Magno, o imperialismo Romano, os bárbaros, a Idade Media, a Inquisição. A coisa ainda estava muito ruim em 1600 quando queimam Giordano Bruno, não por seu homossexualismo, senão por seu desvio heliocêntrico. Logo vem a recuperação com Spinoza, Montaigne, Descartes, talvez Voltaire, até chegar a Saint-Just que, oh surpresa! Descobre a felicidade.

E aqui vem uma asseveração que pode custar-me alguns amigos: creio piamente que o século XX, estatística, política, social, econômica e epidemiologicamente falando, foi bem superior em qualidade de vida, a todos os séculos anteriores, e em todas as camadas sociais de Ocidente, com a possível exceção desse século IV antes de Cristo1 . Feminismo, Sindicatos, Saúde Pública, Educação Pública, Black e Gay Power, rádio, TV, psicanálise e a pílula. Conseguimos que um quarto da humanidade leve sua vida acima da linha de flotação sub-humana. Antes de 1773, 85 % vivia embaixo dessa linha, boqueando de fome. Facts are facts. Não é questão de jactar-se, porque o século passado, sejamos sinceros, foi um século de merda. Mas, assim e tudo…

Voltando à psicanálise. As coisas vão mudando com o correr dos anos. Podemos nos perguntar, por exemplo, se interpretamos a sexualidade infantil do mesmo modo que nos tempos de Freud. Nesse sentido, lhe damos a mesma importância ao tratamento das resistências e intervimos ainda sobre a forma denominada de interpretação, ou nossa palavra se enuncia hoje em dia de uma forma diferente? De uma forma mais direta, talvez. Mais pós-moderna como disse Radmila Zigouris. Menos oracular. Pergunto-me também se o acento posto na castração não levou nossa prática a muitos desastres. Este conceito foi utilizado de uma forma mais pedagógica que analítica.

Na verdade, o complexo de Édipo já não assusta mais a ninguém. Hoje em dia, só o mafioso Robert de Niro se horroriza quando o analista Billy Chrystal lhe interpreta o desejo incestuoso por sua mãe. Nesse senso, Jacques Lacan disse “Numa palavra, todo o esquema do Édipo deve ser revisado”. Eu acho que a crítica mais séria foi feita nos anos 70 por Deleuze e Guattari e posteriormente por Foucault, levantando o problema do poder como curinga planetário. Em suma: desde o momento que toda a cultura se edipizou todo o comércio cultural “se desenvolve como um drama quase burguês entre o pai, a mãe e o filho”, ou seja, o Édipo é a forma étnica e não universal em que a família se organiza na sociedade burguesa. Por outra parte, ou fato, como tu me contas, João Heráclito, de que os pais de teu século modelam o perfil genético dos filhos, me leva a pensar que a velha filogenia acabou e que não existe mais o acaso do id. Podemos falar de um inconsciente autônomo?

A psicanálise – temos que admitir – é aquilo que os analistas decidem que ela seja. Na medida em que não existe a psicanálise sem uma prática, esta é fundamental não só para uma clínica concomitante, mas porque ela é portadora de todas as questões teóricas fundamentais. As questões fundamentais não podem mais sair dos próprios textos. Que a psicanálise seja também um amplo campo de reflexão, vem em acréscimo. Não há que confundir prática e clínica. Narrar as historias clínicas é uma coisa, a maneira como se trata aos pacientes, os dispositivos terapêuticos, tudo o que constitui a prática de um analista é outra coisa. São as práticas as que hão mudado.

Entre a teoria e a prática não existe continuidade nem relações unívocas. Pode dizer-se que não ha relação teórica do mesmo modo em que pode dizer-se que não ha relação sexual.

Pode ser, por outra parte, que toda conceitualização reconhecida a um nível de dignidade teórica nova ameace aos petimetres locais que são os detentores da transmissão dos saberes constituídos.

Eu acredito, com tudo, que a psicanálise em Salvador vive num certo resguardo. Aqui, graças a Deus, não temos que submetermos aos ditames das multinacionais psicanalíticas que decidem sobre que é psicanálise e que não é. O divã conta ou não conta? A bobagem de se uma sessão semanal é psicanálise ou só psicoterapia. Como disse Radmila Zigourni em sua palestra nos Estados Gerais, a psicanálise está presente quando há um analista disposto a manter uma transferência. Coisa, João Heráclito, que não é fácil. Estarias de acordo, João Heráclito, com a seguinte reflexão: a psicanálise está presente toda vez que um analista é capaz de sustentar uma transferência?

Sabes, João Heráclito, o que é um Frankenfish? Parece ser que os Frankenfish são Frankensalmões. A última palavra na genética do aquário. Uma nova cepa mutante de salmão que cresce seis vezes mais rápido que nosso delicioso salmão do sushimi e que pesa pelo menos 15 vezes mais. Um frankenstein. Com o supersalmão o salmão custaria um décimo do salmão atual e si depois do frankensalmão apareceria um frankenvermelho e uma frankensardinha, os frutos do mar baixariam estupidamente.

Mas sempre aparece um mais. Os ambientalistas, alarmados, dizem que o supersalmão encerra um grande perigo ecológico e que solto pelos mares pode desestabilizar a fauna marinha. Agora sabemos que cada invento tem seu contra. Antes não era assim. A coisa começou com o DDT em 1943. Quando o DDT entrou, na guerra do Pacífico, todo o mundo pensava que os insetos já eram, e ninguém pensou que se tratava de um frankeninsecticida com graves conseqüências tóxicas. Acontece que cada invento tem um doble filo e, se se pensa bem, até a faca tem um doble filo: serve para operar e para destripar.

Acredito que a gente agora está mais que curada de espanto. O século XIX viveu deslumbrado com os frutos da ciência. A poluição prática e politicamente não existia. A palavra ecologia foi cunhada em 1952.

Então, podemos generalizar, todo adianto vem com um risco. Tomemos o caso da psicanálise. Freud em seu artigo Análise terminal e interminável disse que a psicanálise criou condições inéditas no homem. Ela criou um perigoso Homem Novo. Estou convicto de que nos oito anos em que fui analisado, mais os 55 em que analiso, mudaram as fibras mais íntimas de meu ser. Sou um outro, sou diferente. Não será que sou um frankenemilio? Trata-se do tema do Homem Novo ou se se quer, do Super-homem. Fantasma frankenestenico do século XIX. Philip Rieff, analista e filósofo americano assinalou que a psicanálise é a técnica mais sofisticada para a produção de transformações psíquicas, mas que é um instrumento essencialmente egoísta. Acredito que Freud inventou uma nova forma de pensar, decorrente do uso sistemático da associação livre. Freud criou o Homem Metonímico. É utópico pensar que, porque estamos analisados, somos melhores? Acho que sim.

Essa transformação frankenstênica também se dá no nível grupal, no nível das instituições. Não existe uma população mais cismática que a nossa. Na realidade houve duas fases na história do movimento analítico. A primeira foi herética; a segunda, cismática. A primeira, com Jung, Adler e Stekel na cabeça, começa a partir de 1910. A chamo herética porque seus protagonistas acreditavam que existiam sérias dissidências teóricas e os hereges caíam fora da grey e concordo com Rieff em que a ortodoxia era a heresia dominante. Agoura, a partir do que Lyotard denomina o “acontecimento Lacan”, as escolas proliferam como cogumelos, seguindo uma lógica rizomática e uma aceleração exponencial, condizente com os tempos. Estes cismas são muito sutis e interessantes, mas algumas cepas frankenmillerianas são altamente venenosas.

Seria de interesse fazer um levantamento dos grupos analíticos em existência hoje em dia. E aqui entra um fio extra em nossa faca: o uso da transferência, da frankentransferência. Somos um perigo ecológico.

Como tu sabes, acabamos de enterrar nosso velho milênio, meu milênio, meu século que foi o Século de Freud. Ele nos aproxima, imagina, eu sou de 1923, tinha 26 anos quando Freud morreu. Poderia ter tomado um schnapps com ele em Maresfield Gardens. Freud foi a Cruz do Sul de nossa centúria. A grande aventura da alma. Mas quando comecei, aos vinte anos, ser analista era uma profissão bizarra, quase como cabeleireiro de cachorros.

Lembro de uma anedota. Quando comecei a assistir seminários, em 1947, a APA tinha um local pequeno com uma sala onde cabiam umas 15 pessoas. Eram os tempos de Peron e os seminários só podiam ser dados se um policial, de pé, estava presente. Então, nosso divertimento era escandalizar ao homem da lei. A dito fim, por exemplo, líamos em voz alta o trabalho de Garma que dizia que a Virgem era uma puta, que a luz no presépio era o farol do lupanar e que os Reis Magos eram os clientes. O policial abria olhos bem grandes.

Há tantas perguntas que queria te fazer? Por exemplo, existem analistas junguianos em teu tempo? Confessarei que nós devemos muito a Jung no que diz respeito à análise dos sonhos. É incrível como a história esquece seus filhos que uma vez foram celebridades. Janet era o maior psicoterapeuta do mundo em 1900. Mas acontece que, como um passe de mágica, Janet foi borrado do mapa. Esse esquecimento, amargo, cruel e ingrato me intriga. Que passou? Considero que Janet foi eclipsado pela gigantesca sombra de Freud. Os grandes homens, como as árvores frondosas, são assassinos por sua própria natureza, nenhum rival cresce sob sua sombra. Outro exemplo, Adler com sua rede de clínicas em Viena, nos anos 20 era quase tão conhecido como Freud. Hoje em dia, que eu saiba, só existem dois adlerianos em Tel Aviv. À propósito, os judeus seguem guerreando com os palestinos? Islã vem castrar a cidade de Nova York, marcando o inicio da decadência do Império Americano. Você não vai acreditar, mas fiquei feliz quando soube que tu não sabias quem era George Bush.

Sim, a história é uma velha puta amnésica que esquece seus velhos amantes. Por isso me surpreendeu e me encantou ser recordado depois de morto. Pensar que um exemplar de meu Freud está na Universidad de Salamanca! Pensar que em meu tempo, pouca gente sabia o que era a terapia de uma sessão, conhecida como “sauna” e que agora, em teu tempo, é bem conhecida. Mudando de assunto, tenho que confessar, João Heráclito, que estive tentado a perguntar-te sobre a data de minha morte. Mas que não te ocorra passar-me o dato necrológico. Cruzes!

Também me dou conta de porque estou escrevendo mal. Pareço um colegial redigindo uma composição sobre Os Homenzinhos Verdes de Marte. É como se o assunto fora maior do que eu. As perguntas me atropelam. O responsável és tu. Você se transformou, usando o jargão analítico, numa espécie de Grande Outro telequinético. Sinto-me analisado pôr ti. Temo que se reflita em mim a neurose de meu tempo e que me vejas como um antepassado bárbaro responsável por mil prováveis desastres ecológicos que minha geração causou, porque constato que em tua carta falas muito pouco sobre a “qualidade de vida” de teu tempo. Vocês ainda têm atmosfera? Escasseia a água, o oxigênio? Vocês estão melhores ou piores do que nós? E não posso ganhar, porque sentiria inveja se estão melhores e culpa se estão piores. Constato que carrego um macro conflito geracional. Estou competindo com meu tatatataraneto.

Retornando à realidade do divã, como está o tempo da sessão? Nos tempos de Freud as sessões duravam 50 minutos e logo o tempo se foi encurtando de 5 em 5 minutos. Os lacanianos, com seu tempo lógico, chegaram a estabelecer horas topológicas que podem durar de 2 minutos a [em teoria] 2 horas, porém acho que horas de 10 a 15 minutos são a média. A lógica do tempo lógico é enorme, já que rompe com o tic-tac da rotina. Parece-me uma idéia admirável, mas não posso segui-la, porque pronto eu seria um analista corrupto, roubando minutos o tempo tudo. Porque, João Heráclito, há sessões que são insuportavelmente cansativas. Os consultórios estão vazios. Agora tenho poucos pacientes, razão pelo qual escrevo tanto. Antes eu tinha poucos pacientes por uma saudável tomada de posição, por um assunto ideológico de saúde mental ou talvez de sabedoria, onde se dá à praia, ao livro e à exposição ao sol seu lugar. Uma boa vida, ah. Nos últimos anos os pacientes simplesmente não chegam no ritmo habitual. O que me preocupa porque, como a cigarra de La Fontaine, não tenho comida estocada para o inverno.

Suspeito que as vacas magras dos analistas está generalizada e encoberta e, como nos tempos de Groddeck, dissimulamos nosso declínio e aparentamos ser o que uma vez fomos. A psicanálise está em crise. O ensaio da Roudinesco sobre a psicanálise na França é alarmante. Os 80 % dos analistas têm menos de 10 pacientes e nos Estados Unidos nem se fala. É sumamente difícil analisar um paciente rico que quer nos abandonar. Pichon Rivière costumava dizer que os psicanalistas são os “cafishos da angustia”. Razão demais para saber como estão as coisas em teu tempo.

Estou imaginando um assustador cenário possível. Nele o planeta Gaia, depois de haver-se analisado por mais de um século, se levanta do divã, dá a mão ao analista e diz:

__ Obrigado, doutor, muito obrigado por tudo.

O planeta Gaia, talvez com uma lágrima, cruza o consultório e vai embora. A ilusão transferencial deu tudo o que tinha que dar. Gaia não é desagradecida. O que passa é que a cura, como toda cura, não está nunca à altura das expectativas. Mas acredito que a psicanálise mudou a face da Terra. O pensamento freudiano transformou o mundo além de toda expectativa, ao ponto que podemos dizer que o neurótico contemporâneo é uma criatura inventada por Freud. Ele projetou sua própria neurose no planetário atual e aí reside boa parte de seu gênio: sua neurose deu sentido à nossa. Ele modelou o homem atual, mas o modelou até um certo momento e esse momento pode estar acabando.

Também existe um assunto mais metafísico, mais hermenêutico. Acredito que minha geração morrera na praia. O tema foi tratado por vários futurólogos. Arthur Clark vaticinou que o homem vai ser imortal antes do ano 2500. Clark provavelmente exagera, mais tenho certeza de que o homem pronto vai ser imortal. Morreremos então no umbral do novo Éden mundial. Mil anos não é nada em tempo cósmico. Mas tenho que saber uma coisa, João Heráclito, vocês já são quase imortais?

Nota
Conferência proferida no XV Congresso Brasileiro de Psicanálise, sobre o tema ENCONTRO NO ADMIRÁVEL MUNDO NOVO, ocorrido em 2003. Texto publicado em Cógito – Publicação do Círculo Psicanalítico da Bahia, vol. 6 – p. 25-27. Salvador, 2004

O HOMEM FLEXÍVEL – JORGE FORBES

Postado em Uncategorized em 06/09/2008 por David Duarte Correia Jr

Chega ao fim o Homem Macho, de valores fixos, substituído agora por alguém capaz de enfrentar todas as situações.

Jorge Forbes

Jorge Forbes

O Homem Flexível seria um nome possível do homem atual. O Homem Flexível vem substituir o Homem Macho, aquele que era empertigado, sempre igual em todas as situações. Enquanto o Homem Macho respondia a uma época de valores fixos, padronizados, hierárquicos, que tipificaram o mundo industrial e criaram elogios do gênero “Fulano tem um caráter inflexível, ele é sempre o mesmo…”, o Homem Flexível seria aquele capaz de estar pronto para todas as situações.
Ser homem, até relativamente pouco tempo atrás, consistia, superficialmente, em adotar um comportamento quase militar, que era o modelo subentendido em palavras de ordem caricaturais do tipo “ homem não chora”. O que acontece quando essas ferramentas da etiqueta social machista ficam obsoletas? Ora, é fácil entender que os homens possam se sentir ou deslocados – ao insistirem nas velhas fórmulas que não funcionam mais – ou feminizados, por se afastarem dos modelos que lhes asseguravam o pertencimento ao seu gênero sexual.
Os deslocados são os tipos mais fáceis de perceber: ficam deprimidos, reclamam dos novos hábitos, se reúnem em confrarias. Os que se sentem menos viris são mais complexos e podem, paradoxalmente, para se assegurarem enquanto homens, optarem por uma posição homossexual. Como assim? Vejamos: o modelo disciplinar machista da era anterior, embora ultrapassado, ainda sobrevive como identidade cultural. Um homem, ao se ver sensibilizado a novas posturas, em especial, ao ter que incluir no cálculo de seu cotidiano fatores até então desprezados pelo modelo tradicional, como a intuição, o bom ou o mau gosto, o enamoramento, pode se angustiar ao viver essas situações como passivas, ou seja, que fogem ao seu controle ativo tão próprio à velha maneira masculina de ser. Em resposta, podem ativamente “vestir” essas sensibilidades, querer administrá-las ativamente, controlá-las, e, em decorrência, preferirem a homossexualidade. É o que por vezes explica o esforço da barriga tanquinho, o peito bombado, o cabelo de reco, características tão militares, novamente. Não é supérfluo lembrar que a homossexualidade, palavra etimologicamente composta de “homo”’, “igual”, e “sexualidade”, é contrária à heterossexualidade, a vivência da diferença, do que não é igual. Nenhum julgamento moral aqui de certo ou errado, melhor ou pior, uma vez que nada mais próprio ao humano que a falta de um modelo justo sexual. Sobre isso insistia Jacques Lacan: a relação sexual não existe – relação no sentido de proporção correta –, fato que nos obriga a inventá-la todos os dias, com os meios que dispomos.
O Homem Flexível, pronto a todas as circunstâncias, não pode mais basear sua identidade na tradicional dicotomia ativo/passivo.

O RESPEITO PARA COM O OUTRO – FLAVIO GIKOVATE

Postado em Uncategorized em 05/09/2008 por David Duarte Correia Jr
Flavio Gikovate

Flavio Gikovate

            A maioria das pessoas se diz respeitosa e não o é na prática mais elementar da vida cotidiana, quando o seu próprio linguajar é permanentemente autoritário. Algumas outras criaturas aprenderam a se comportar de modo mais respeitoso; estas parecem que conseguem dialogar com pessoas que pensam de modo diferente, colocar ponderadamente seus argumentos e ouvir os do seu interlocutor. Mas no íntimo se tornam irritadiços (e isto às vezes transparece) e seus diálogos interiores são sempre de desprezo pelo modo de pensar do outro, visto como burro ou desonesto. Não é nada fácil admitir que alguém pense diferente de nós sem isto nos irritar profundamente e todos nós sabemos que isto funciona assim; podemos deixar vazar nossa prepotência ou agirmos de modo educado e político; mas é extremamente difícil ser verdadeiramente respeitoso.

            E não deixa de ser surpreendente que uma coisa assim simples seja tão difícil de ser conseguida como uma vivência interior sincera e consistente; é por isso que não acredito nas fórmulas fáceis e rápidas para quem pretende ser livre. É natural que a questão do respeito seja comprometida com profundos processos emocionais — processos de grande importância para o equilíbrio da pessoa — pois senão seria mais fácil de se superar este obstáculo. Uma das situações onde estes aspectos podem muito bem ser observados é no seio da vida familiar e principalmente na relação amorosa homem-mulher. Quando o marido se apercebe de que a mulher não está de acordo com algum ponto de vista seu (sim, porque muitas vezes ele nem dá chance dela se manifestar) isto provoca nele uma irritação descomunal, na maioria das vezes absolutamente desproporcional à magnitude dos fatos em questão. Ele grita, envolve outros dados da vida íntima na briga, faz discursos de persuasão, diz mesmo que a mulher é burra e não entende nada (e como os homens dizem isto com facilidade!), se sente profundamente ofendidos e podem ficar vários dia de “máu”. A mulher o acusa de machista, de prepotente e desrespeitoso, o que é verdade; não diz que ele é burro — porque se não apanha — mas pensa; se sente igualmente ofendida e irritada não apenas pelo comportamento do marido — apesar de que ele muitas vezes pensa que é só por causa disto — mas porque a divergência provoca nela a mesma sensação desagradável.

            A dolorosa sensação que deriva da falta de coincidência de pontos de vista é a de abandono, de desamparo, de se sentir só. E isto fica mais evidente nas ligações amorosas justamente porque elas existem como um importante atenuador desta que é uma das peculiaridades da condição humana; afinal, as pessoas se ligam sentimentalmente justamente para não viverem o estado que se chama de solidão. Quando uma opinião diverge volta a dolorosa consciência de que se é só, e isto é vivido como uma espécie de traição do outro, um abandono, uma deslealdade; da acusação ao outro deriva a raiva e a irritação em sua direção, coisa mais fácil de ser vivenciada do que o desamparo, o ser só. Todos nós temos como primeira tendência o colocar o dedo para fora, acusando o outro de nossos infortúnios, acho sempre muito importante conseguirmos virar o dedo para dentro e tratarmos de nos perguntar porque é que tal atitude de outro repercutiu tanto sobre nós, em que ponto fraco nosso nos sentimos tocados e como fazermos para nos aprimorarmos ao invés de tentarmos modificar o outro (o que, além de desrespeitoso, é sempre ineficaz).

            A irritação é menor em relacionamentos menos importantes do ponto de vista afetivo, mas existe do mesmo modo. E se dá sempre da mesma forma, isto é, quando existem diferenças de opinião. Até mesmo quando estamos lendo um artigo de jornal ou um livro o processo é similar: gostamos dos autores que pensam de modo parecido como o nosso e achamos meio idiota o texto — e seu autor — que contém opiniões divergentes. Assim, nunca aprendemos nada de novo, pois só lemos os livros com os quais concordamos e cujo conteúdo de certa forma já conhecemos; ou seja, só lemos os livros que não precisamos ler. Os outros nós largamos no meio, porque são “chatos” ou idiotas…

O abutre de Kafka e o Prometeu moderno – Marcia Tiburi

Postado em Artigos, Filosofia, Literatura com as tags , , , em 31/08/2008 por David Duarte Correia Jr

Num pequeno conto chamado “O abutre”, das Narrativas do espólio, de Kafka (na invulgar tradução de Modesto Carone), o narrador conta, em primeira pessoa, que um abutre, após bicar suas botas e meia, estraçalhava-lhe os pés. Outro homem, ao ver a cena, perguntou-lhe por que permitia a ação do abutre. O narrador apenas pode informar que estava indefeso, que após enxotá-lo, e até tentar enforcá-lo, decidiu sacrificar-lhe os pés no lugar do rosto primeiramente almejado pelo abutre. O homem, indignado com o fato de que alguém se deixasse torturar daquela maneira, sugeriu buscar sua espingarda em casa para dar um tiro no animal. Demoraria uma meia hora, tempo que o sujeito dos pés carcomidos não sabe se suportaria. Sem ter nada a perder, aceitou a oferta de ajuda. Enquanto isso, conta-nos o narrador, o abutre escutou calmamente a conversa entre os dois entendendo tudo o que conversavam entre si:  “(…) levantou vôo, fez a curva da volta bem longe para ganhar ímpeto suficiente e depois, como um lançador de dardos, arremessou até o fundo de mim o bico pela minha boca. Ao cair para trás, senti, liberto, como ele se afogava sem salvação no meu sangue, que enchia todas as profundezas e inundava todas as margens“.

Kafka

Kafka

 

Talvez esse tenha sido um pesadelo de Kafka. Não importa. É dos contos mais enigmáticos que se pode ler. Evidente surrealismo que nos faria simplesmente admirar a idéia na contramão do real, o conto, no entanto, carrega uma pista simbólica que não pode ser deixada de lado na análise daquilo que nos impele a agir. Também Prometeu, no mito fundador da relação entre o homem ocidental e o conhecimento, teve um de seus órgãos, o fígado, carcomido pela eternidade por um abutre. Pagou pelo seu feito. Prometeu foi punido pelos deuses do Olimpo, por ter dado aos homens o fogo, em seu caráter altamente simbólico de alcance do conhecimento. O homem de Kafka, no entanto, não pode ser punido por nada porque não fez nada a ninguém. Não pode ser acusado não apenas porque sendo moderno já não é controlado pelos deuses nem conhece a eternidade, mas porque está só em seu sofrimento. A culpa objetivamente não existe, talvez pese fantasmagoricamente sobre o sujeito causando-lhe a dor. O conto, porém, não nos informa sobre nada disso. Só o que sabemos é que ele não pode fazer nada, está indefeso. Indignados como o homem da espingarda, este outro civilizado que nos habita, perguntamo-nos, por quê? A resposta está ali. Após tentativas de escapar, até a tentativa de enforcar o animal, sucumbe-se à sua força. O abutre é mais forte do que o homem e, por isso, este é carcomido por aquele e não, obviamente, o contrário. O homem nem pode sofrer de solidão, pois desde sempre está acompanhado pelo abutre. Seria o abutre um emblema da melancolia que da punição de Prometeu com a angustiante prisão no abismo ao homem encurralado de Kafka, não cessa seu gesto de tortura da qual é impossível fugir? Talvez o abutre seja o emblema de todo o sofrimento que acompanha o homem e que jamais permitirá que ele viva só. É o sofrimento que nos vigia e que se apresenta com a única e incontornável solução que se apresenta, ontem como hoje, como pergunta: por quê?
     
É a relação entre a força do abutre e a fraqueza do homem que sinaliza o ensinamento do conto em seu caráter de fábula deixado, por Kafka, à interpretação de seu leitor. Sabemos que as Narrativas do Espólio não deviam ser publicadas, e, por isso, esse leitor não estava, para ele, de modo algum, sacramentado. Pertencem-nos apenas pelo caráter clandestino do fado que ousa interromper o desejo de qualquer um. Não é menor a clandestinidade daquilo que ele nos revela e que reside no homem como uma interrupção de tudo o que ele projetou para si em termos de felicidade, conquista do sucesso, realização, satisfação. O abutre não é apenas a incapacidade de ser feliz ou a vigilância que o nosso próprio sofrimento, tão atuante quanto o desejo, opera sobre nós. Ele não é apenas a figura da desgraça que nos abate. Ele é a confusa performance da impotência da ação que se apresenta mais forte do que toda a nossa capacidade de agir.
     
“O abutre”, de Kafka é nosso. Ele nos coloca diante do desenho completo que carrega o enigma da inação. Se os personagens de Kafka representam uma alegoria, ela diz respeito ao que em nós desiste de agir por impotência enquanto um outro, sabendo o que deve ser feito, possuindo uma arma redentora, vai a buscar socorro sem nunca voltar. Ambos os personagens falam da condição humana. Do ser humano que entregue às próprias tentativas e esperanças é sempre por último observado pelo que nele há de mais forte, a sua própria impotência.
        
Enquanto é observado pelo próprio princípio do mal que tem olhos só para si, nele se opera o seu próprio reconhecimento na satisfação de que, por fim, tudo encontre alento pelo simples fato de que somos um com ele. O abutre que hoje age sobre as bases (o abutre carcome nossos pés com os quais poderíamos ir a algum lugar; ontem, carcomia o fígado, órgão que produzia a bile e, em seu negror, a melancolia) morre, como no homem de Kafka, por seu próprio gesto capaz de ir ao mais fundo de nós. Aquilo que nos carcome é o que nos olha entendendo todos os acordos que possamos fazer para derrotá-lo. É aquilo que tendo o máximo poder sobre nós se afoga em nosso próprio sangue. Está em nós e inundou todas as nossas margens.
           
Derrotar o abutre é derrotar a si mesmo. A inação do homem, sua incapacidade de fazer um mundo diferente – mais justo, menos violento – deveria ser usada a seu favor, como resistência. A inação do homem também nos ensina que o abutre pode ser morto. Ainda que o carreguemos como parte do líquido da vida e fiquemos mancos para sempre. Tal é a potência dúplice da ação: é preciso fazer, é preciso resistência, mas é igualmente preciso entender a força da impotência

O Estrangeiro – Albert Camus

Postado em Artigos, Filosofia, Literatura com as tags , , , em 31/08/2008 por David Duarte Correia Jr

Albert Camus

Albert Camus

Este livro, de pouco mais de 100 páginas, escrito pelo então jornalista franco-argelino Albert Camus, é considerado uma das obras-primas do Existencialismo francês. Nele, Mersault, o personagem central, age com aparente frieza diante dos fatos, incluindo a morte da mãe, narrada logo na abertura da história da seguinte maneira: “Hoje mamãe morreu. Ou talvez, ontem, não sei bem. Recebi um telegrama do asilo: “Sua mãe faleceu. Enterro amanhã. Sentidos pêsames”. Isso não esclarece nada. Talvez tenha sido ontem”.
Indiferente, pessimista, Mersault tem muito do próprio Camus. Nascido em Mondovi, Argélia, de humilde família francesa, o jovem começou a trabalhar como jornalista e ator, em 1940 participou da resistência contra a invasão alemã de Paris e em dois anos depois se consagrou com a publicação de O Estrangeiro, romance curto e intenso, que, somado ao sucesso de A Peste, de 1947, o revelou como um dos grandes escritores de sua época.

O estrangeiro, que se passa na Argélia, é simplesmente a história de um homem que vaga à procura do nada, indiferente à dor que o destino pode lhe reservar. Mais do que isso: totalmente receptivo a essa dor.

Vencedor do Prêmio Nobel de Literatura de 1957, Camus morreu três anos depois, em um misterioso acidente de carro, que, suspeita-se, tenha sido provocado intencionalmente por ele mesmo.

Um Sopro de Vida – Clarice Lispector

Postado em Artigos, Crônicas, Literatura com as tags , , em 31/08/2008 por David Duarte Correia Jr
Clarice Lispector

Clarice Lispector

“Tenho medo de escrever. É tão perigoso. Quem tentou, sabe. Perigo de mexer no que está oculto – e o mundo não está à tona,está oculto em suas raízes submersas em profundidades do mar. Para escrever tenho que me colocar no vazio. Nesse vazio terrivelmente perigoso: dele arranco sangue. Sou um escritor que tem medo da cilada das palavras: as palavra que digo escondem outras – quais? Talvez as diga. Escrever é uma pedra lançada no poço fundo.”

Juízo Final – Nelson Rodrigues

Postado em Artigos, Crônicas, Literatura com as tags , , , em 31/08/2008 por David Duarte Correia Jr
Nelson Rodrigues

Nelson Rodrigues

“Se o homem soubesse amar não elevaria a voz nunca, jamais discutiria, jamais faria sofrer. Mas ele ainda não aprendeu nada. Dir-se-ia que cada amor é o primeiro e que os amorosos dos nossos dias são tão ingênuos, inexperientes, ineptos, como Adão e Eva. Ninguém, absolutamente, sabe amar. D. Juan havia de ser tão cândido como um namoradinho de subúrbio. Amigos, o amor é um eterno recomeçar. Cada novo amor é como se fosse o primeiro e o último. E é por isso que o homem há de sofrer sempre até o fim do mundo – porque sempre há de amar errado.”

Morrer com o ser amado – 1968

Frases e pensamentos de Arthur Schopenhauer

Postado em Filosofia, Literatura, Psicanálise com as tags , , , em 30/08/2008 por David Duarte Correia Jr

Arthur Schopenhauer
Arthur Schopenhauer

 O amor é a compensação da morte.

 A riqueza é como a água salgada: quanto mais se bebe, mais sede se tem.

 Só existe uma criatura falsa: o homem.

 A fé é como o amor: não há nada que a force.

 A intuição não é uma opinião, é a própria coisa.

 Embora sejam muitas as coisas más deste mundo, a pior dentre todas é a sociedade.

 É preciso ter vivido muito tempo para reconhecer como é breve a vida.

 Quem deseja. Quem vive deseja. A vida é dor.

 Geralmente as grandes paixões nascem com o primeiro olhar.

 Perdoar e esquecer significa significa atirar pela janela uma preciosa experiência.

 A glória rapidamente conquistada, rapidamente também se perde. 

 A polidez é para a natureza humana o que é o calor para a cera.

 Para não chegarmos a ser muito infelizes, basta que não desejemos ser muito felizes.

 O que é a chuva para o fogo, é a piedade para a cólera.

 As religiões são como vagalumes: precisam das trevas para esplender.

 A beleza é uma carta aberta de recomendação.

 Os caprichos nascem da imposição da vontade sobre o conhecimento.

 Um homem é um pouco inferior ao tigre e a hiena em crueldade e selvageria.

 O cérebro do homem é mais terrível que a garra do leão.

 Em geral chamamos de destino às asneiras que cometemos.

 Não amar e não odiar é a metade da sabedoria. A outra metade é nada dizer e nada acreditar.

 A arquitetura é uma música petrificada.

 Por sabedoria entendo a arte de tornar a vida o mais agradável e feliz possível.

 O cigarro é o substituto voluntário do pensamento.

 É muito fácil ser extremamente infeliz; e não é difícil, é inteiramente impossível ser feliz.

 O louco corre pelos prazeres da vida e colhe decepções; o prudente limita-se a evitar os males.

 Os homens são, em geral, tão pessoais que no fundo nada lhes interessa mais que eles próprios.

 O gênio e o louco num ponto se assemelham: ambos vivem em um mundo diferente daquele em que vivem os outros mortais.

Os primeiros quarenta anos de vida nos dão o texto; os próximos trinta fornecem o comentário.

O homem mais feliz é aquele que vive a vida sem dores muito grandes quer no físico, quer no moral, e não aquele que desfruta as alegrias mais vivas ou os prazeres mais intensos.

Somente o presente é verdadeiro e real. O presente é o tempo realmente pleno e sobre ele repousa exclusivamente a nossa existência.

 

 

 

 

 

Frases e pensamentos de Friedrich Nietzsche

Postado em Artigos, Literatura, Psicanálise com as tags , , , , em 30/08/2008 por David Duarte Correia Jr
Friedrich Nietzsche

Friedrich Nietzsche

Falando francamente, por vezes é necessário irritarmo-nos para que as coisas corram bem.

 O inimigo mais perigoso que você poderá encontrar será sempre você mesmo.

 Viver quer dizer ser cruel e implacável contra tudo o que em nós se torna fraco e velho

 Mentimos com a boca, mas os gestos denunciam a verdade.

 O mais valoroso dentre todos nós raras vezes tem o valor de afirmar tudo o que sabe.

 Somos muito injustos com Deus. Não Lhe permitimos nem pecar.

 A mulher foi o segundo erro de Deus.

 Quanto mais inteligente a mulher, tanto mais se afasta o homem.

 Não dou esmolas; para isso não sou bastante pobre.

 A felicidade é mulher.

 O que maior punição nos atrai são as nossas virtudes.

 Em geral, as mães, mais que amar os filhos, amam-se nos filhos.

 Nunca odiamos aos que desprezamos. Odiamos aos que nos parecem iguais ou superiores a nós.

 A profissão é a espinha dorsal da vida.

 Há sempre algo de demência no amor. Mas também na demência há algo de razão.

 Não é a força do sentimento elevado, é a sua duração que faz os homens superiores.

 Abençoados os que têm sono, pois não tardarão em dormir.

 Odeio as almas estreitas, sem bálsamo e sem veneno, feitas sem nada de bondade e sem nada de maldade.

 Toda virtude tem seus privilégios: por exemplo, o de levar seu próprio feixezinho de lenha para a fogueira do condenado.

 A vantagem de ter péssima memória é divertir-se muitas vezes com as mesmas coisas boas como se fosse a primeira vez.

 Não pretendo ser feliz, mas verdadeiro.

 Uma sociedade onde a corrupção se instala é acusada de abandono, de fato o prestígio da guerra e do entusiasmo marcial sofrem baixa visível; aspira-se aos prazeres da existência com tanto ardor quanto aqueles antigamente posto em conquistar honras militares.
Mas os observadores talvez tenham negligenciado o fato dessa antiga energia, antiga paixão pela nação, que a guerra e torneios punham em tão pomposa evidência, transformou-se numa infinidade de paixões privadas e limitou-se a se tornar menos visível, que digo eu?
É até provável que no estado de ‘corrupção’ sejam dispendidas uma força, uma violência energética muito maiores que nunca pela nação e que o indivíduo desperdice essa energia com muito maior prodigalidade do que podia fazer anteriormente, quando não tinha suficiente riqueza!.
Precisamente nas épocas de ‘abandono’ é que, portanto, a tragédia corre as ruas e as coisas, que se vê nascer o grande amor, o grande ódio e a chama do acontecimento esbraseia no céu.

 Rir é ser malicioso com boa consciência.

 Entre os ricos a liberdade é uma espécie de timidez.

 Hoje é pobre, mas não porque lhe tenham tirado tudo, sim pela recusa de tudo. Que lhe importa?! Está habituado a encontrar. Os pobres compreendem mal sua voluntária pobreza.

 Nossos pensamentos são as sombras de nossos sentimentos – sempre mais obscuros, mais vazios, mais simples que estes.

 Quando o reconhecimento de um grande número por um único repele qualquer espécie de pudor, a glória começa a nascer.

 É necessário saber dissimular com as pessoas que têm vergonha de seus sentimentos; concebem um ódio repentino pela pessoa que as apanha em flagrante delito de ternura, de entusiasmo ou de nobreza como se seu santuário secreto tivesse sido violado.
Se quereis ser-lhes benéficos nesse momento, fazei-as rir ou tratai de lhes sugerir, brincando, alguma fria maldade: seu humor gela e dominam-se. 

 Qualquer grande homem possui força retroativa: força a reconsideração da totalidade da história; milhares de segredos do passado saem de seus esconderijos para se iluminarem à sua luz. Ninguém pode prever o que acontecerá a história. Essencialmente, o passado talvez ainda continue por ser explorado! Necessitamos ainda tantas forças retroativas!

 O amor perdoa mesmo o desejo do ser amado.

 As explicações místicas são consideradas profundas. Na verdade falta-lhes ainda muito para que sejam superficiais.

 Quem possui até o presente a eloquência mais convincente?
O rufar do tambor, enquanto os reis o tiverem sob o poder serão os melhores agitadores populares.

 A maneira mais pérfida de prejudicar uma causa é defendê-la intencionalmente com más razões.

 É um pensador: isto quer dizer que se empenha em tomar as coisas com maior simplicidade que realmente contém.

 Nenhum vencedor acredita no acaso.

 O que nós fazemos nunca é compreendido, apenas louvado ou condenado.

 Quando amamos, queremos que nossos defeitos permaneçam ocultos, não por vaidade, mas porque o objeto amado não deve sofrer. Sim, aquele que ama desejaria aparecer como um deus, e isto não por vaidade.

 Já dei tudo. Nada me resta de tudo quanto tive, exceto tu, esperança!

 Eu também quero a volta à natureza. Mas essa volta não significa ir para tráz, e sim para a frente.

 Não existe, na realidade, entre a religião e a ciência nem parentesco, nem amizade, nem inimizade: elas vivem em esferas diferentes.

 A vaidade alheia só nos é antipática quando vai de encontro a nossa.

 A independência é o privilégio dos fortes, da reduzida minoria que tem o calor de auto-afirmar-se. E aquele que trata de ser independente, sem estar obrigado a isso, mostra que não apenas é forte mas também possuidor de uma audácia imensa. Aventura-se num labirinto, multiplica os mil perigos que implica a vida; se isola e se deixa arrastar por algum minotauro oculto na caverna de sua consciência. Se tal homem se extinguisse estaria tão longe da compreensão dos homens que estes nem o sentiriam nem se comoveriam em absoluto. Seu caminho está traçado, não pode voltar atrás, nem sequer lograr a compaixão dos seres humanos.

 Odeio quem me rouba a solidão sem em troca me oferecer verdadeira companhia.

É necessário ter o caos cá dentro para gerar uma estrela.

E aqueles que foram vistos dançando foram julgados insanos por aqueles que não podiam escutar a música.

‘Brokeback’ é um filme sobre heróis machos – ARNALDO JABOR

Postado em Filmes, Música, Sexualidade com as tags , , em 30/08/2008 por David Duarte Correia Jr
Brokeback Mountain

Brokeback Mountain

Eu não queria ver o filme “Segredo de Brokeback Mountain”. Não queria. Ver filme de viados, eu? (Escrevo viado porque, como disse Millôr, quem escreve “veado” é viado). Muito bem; eu resistia à idéia, mais ou menos como o Larry David (o roteirista de “Seinfeld”) disse, num artigo engraçadíssimo, que tinha medo de virar gay se ficasse emocionado.

O viado sempre encarnou a ambigüidade de nossos sentimentos. Claro que, hoje, os civilizados todos dizem que “tudo bem, que são contra a homofobia” e todo o bullshit costumeiro. Eu mesmo já fiz filmes em que viados são protagonistas, em que o ator principal escolhe o homosexualismo no final (“Toda nudez será castigada”), já filmei travesti em “Eu te amo” e em “Eu sei que vou te amar”, além da biba louca do “O casamento”, em que o grande ator André Valli dá um show inesquecível. Em todos os meus filmes há uma boneca ativa e digna. E, no entanto, eu não queria ver o tal filme do Ang Lee, apelidado pelos machistas finos de “Chapada dos Viadeiros”.

Minhas razões eram mais discretas, intelectuais: “Ah… porque o Ang Lee é um cineasta mediano, ah… porque será mais um filme politicamente correto, onde o amor de dois caubóis é justificado romanticamente… Vou fazer o que no cinema? Ver mais um panfletinho que ensina que os gays devem ser compreendidos em seu “desvio”? “Não. Não vou”, pensei.

Aliás, eu sou do tempo em que os viados apanhavam na cara em plena rua. Havia pouquíssimos gays declarados no Brasil. No Rio, havia o Murilinho… cantor de fox em boates, havia o Clovis Bornay e poucos outros… O viado passava na rua sob os rosnados dos boçais prontos para lhes tirar sangue. E, no anonimato, enxameavam os pobres “pederastas”, de terno e gravata, pais de família se esgueirando nas esquinas, nas noites escuras, em busca de satisfação.

Mais tarde, com o tempo, surgiram as “bichas loucas”, que se assumiam com um toque de autoflagelação, de autoderrisão, caricaturas da mãe odiada e amada, que berravam e desfilavam nos carnavais num freje humorístico, que até hoje alimenta nossos shows na TV. A “bicha” virou uma personagem clássica do humor, como os palhaços e os bacalhaus de circo. E tudo bem… são engraçados mesmo.

Depois, com os direitos civis dos anos 60, surgiu a gay power, com homossexuais fortes e de bigode, malhados, cheios de orgulho. A viadagem virou um poder político importante, claro, mas até meio sério demais, aspirando a uma “normalidade” que contrariava sua “missão” trangressiva que tanto nos acalmava. Como disse Paulo Francis um dia, sacaneando-os: “Se esses caras querem todos os direitos e deveres dos caretas como nós, qual é então a vantagem de ser viado?”

Em suma, por mais que “aceitemos” os gays, eles sempre foram uma fonte de angústia, pois atrapalham nosso sossego, nossa identidade “clara”. O gay é duplo, é dois, o viado tem algo de centauro, de ameaçador para a unicidade do desejo. A bicha louca ou o travesti, a biba doida ou o perobo, o boy, o puto, a santa, a tia, a paca, todos eles nos tranqüilizavam com suas caricaturas auto-excludentes. Já o gay sério inquieta. O gay banqueiro, o gay de terno, o gay forte, o gay caubói são muito próximos de nos, a diferença fica mínima.

Por isso, eu não queria ver o tal filme dos caubóis. Como? Caubói de mãos dadas, dando beijos românticos, com tristes rostos diante do impossível? Não. Eu, não. Mas, aí, por falta de programa, “distraidamente”… (aí, hein, santa?…) fui ver o filme. E meu susto foi bem outro. O filme não me pedia aprovação alguma para o homossexualismo, o filme não demandava minha solidariedade. Não. Trata-se de um filme sobre o império profundo do desejo e não uma narração simpática de um amor “desviante”. O filmes se impõe assustadoramente. Os dois caubóis jovens e fortes se amam com um tesão incontido e são tomados por uma paixão que poucas vezes vi num filme, hetero ou não. Foi preciso um chinês culto para fazer isso. Americano não agüentava. Nem europeu, que ia ficar filosofando. “Brokeback” é imperioso, realista, sem frescuras. Eu fiquei chocado dentro do cinema, quando os dois começam a transar subitamente, se beijando na boca com a fome ancestral vinda do fundo do corpo. O filme não demandava a minha compreensão. Eu é que tinha de pedir compreensão aos autores do filme, eu é que tive de me adaptar à enorme coragem da história, do Ang Lee. Eu é que precisava de apoio dentro do cinema, flagrado, ali, desamparado no meu machismo “tolerante”. Eu é que era o careta, eu é que era o viado no cinema, e eles, os machos corajosos, se desejando não como pederastas passivos ou ativos, mas como dois homens sólidos, belos e corajosos, entre os quais um desejo milenar explodiu. Não há no filme nada de gay, no sentido alegre, ou paródico ou humorístico do termo. Ninguém está ali para curtir uma boa perversão. Não. Trata-se de um filme de violento e poderoso amor. É dos mais emocionantes relatos de uma profunda entrega entre dois seres, homos ou heteros. Acaba em tragédia, claro, mas não são “vítimas da sociedade”. Não. Viveram acima de nós todos porque viveram um amor corajosíssimo e profundo. Há qualquer coisa de épico na história, muito mais que romântica. Há um heroísmo épico, grego, como entre Aquiles e Pátroclo na “Ilíada”, algo desse nível. O filme não é importante pela forma, linguagem ou coisas assim. Não. Ele é muito bom por ser uma reflexão sobre a fome que nos move para os outros, sobre a pulsação pura de uma animalidade dominante, que há muito tempo não vemos no cinema e na literatura, nesses tempos de sexo de mercado e de amorezinhos narcisistas.

Merece os Oscars que ganhou. Este filme amplia a visão sobre nossa sexualidade.

CITAÇÕES – CLARICE LISPECTOR

Postado em Literatura com as tags , , em 30/08/2008 por David Duarte Correia Jr
Clarice Lispector

Clarice Lispector

CITAÇÕES

“Aliás – descubro eu agora – eu também não faço a menor falta, e até o que escrevo um outro escreveria.”
A hora da estrela

“Onde aprender a odiar para não morrer de amor?”
Laços de família

“Não é que vivo em eterna mutação, com novas adaptações a meu renovado viver e nunca chego ao fim de cada um dos modos de existir. Vivo de esboços não acabados e vacilantes. Mas equilibro-me como posso, entre mim e eu, entre mim e os homens, entre mim e o Deus.”
Um sopro de vida

“É curioso como não sei dizer quem sou. Quer dizer, sei-o bem, mas não posso dizer. Sobretudo tenho medo de dizer porque no momento em que tento falar não só não exprimo o que sinto como o que sinto se transforma lentamente no que eu digo.”
Perto do coração selvagem

“Talvez a pergunta vazia fosse apenas para que um dia alguém não viesse a dizer que ela nem ao menos havia perguntado. Por falta de quem lhe respondesse ela mesma parecia se ter respondido: é assim porque é assim.”
A hora da estrela

“E de tal modo haviam se disposto as coisas que o amor doloroso lhe pareceu felicidade.”
Laços de família

“Quem não é um acaso na vida?”
A hora da estrela

“Isto não é um lamento. É um grito de ave de rapina, irisada e intranqüila.”
Um sopro de vida

“Com Deus a gente também pode abrir caminho pela violência. Ele mesmo quando precisa mais especialmente de um de nós, Ele nos escolhe e nos violenta.”
A paixão segundo G.H.

“Só quem guarda as armas a chave é quem receia atirar sobre todos.”
Perto do coração selvagem

“Nem todos chegam a fracassar porque é tão trabalhoso, é preciso antes subir penosamente até enfim atingir a altura de poder cair.”
A paixão segundo G.H.

“Sua sensibilidade incomodava sem ser dolorosa, como uma unha quebradiça.”
Laços de família

“Abandone-se, tente tudo suavemente, não se esforce por conseguir – esqueça completamente o que aconteceu e tudo voltará com naturalidade.”
Laços de família

“O cacto é cheio de raiva com os dedos todos retorcidos e é impossível acarinhá-lo. Ele te odeia em cada espinho espetado porque dói-lhe no corpo esse mesmo espinho cuja primeira espetada foi na sua própria grossa carne. Mas pode-se cortá-lo em pedaços e chupar-lhe a áspera seiva: leite de mãe severa.”
Um sopro de vida

“Quem sabe a que escuridão de amor pode chegar o carinho.”
Laços de família

“Não se pode dar uma prova de existência do que é mais verdadeiro, o jeito é acreditar. Acreditar chorando.”
A hora da estrela

“Oh Deus, eu que faço concorrência a mim mesma. Me detesto. Felizmente os outros gostam de mim. É uma tranqüilidade.”
Um sopro de vida

“Enquanto eu tiver perguntas e não houver respostas continuarei a escrever.”
A hora da estrela

“A eternidade é o estado das coisas neste momento.”
A hora da estrela

“Escrevo por ter nada a fazer no mundo: sobrei e não há lugar para mim na terra dos homens.”
A hora da estrela

“Eu nunca fui livre na minha vida inteira. Por que dentro eu sempre me persegui. Eu me tornei intolerável para mim mesma.”
Um sopro de vida

“Ser um ser permissível a si mesmo é a glória de existir.”
Um sopro de vida

“Perder-se significa ir achando e nem saber o que fazer do que se for achando.”
A paixão segundo G.H.

“Tudo o que poderia existir, já existe. Nada mais pode ser criado senão revelado.”
Perto do coração selvagem

“Vida e morte foram minhas, e eu fui monstruosa, minha coragem foi a de um sonâmbulo que simplesmente vai.”
A paixão segundo G.H.

LOUCOS E SANTOS – OSCAR WILDE

Postado em Artigos, Literatura com as tags , , em 30/08/2008 por David Duarte Correia Jr
Oscar Wilde

Oscar Wilde

 

“Escolho meus amigos não pela pele ou outro arquétipo qualquer,
mas pela pupila.
Tem que ter brilho questionador e tonalidade inquietante.
A mim não interessam os bons de espírito nem os maus de hábitos.
Fico com aqueles que fazem de mim louco e santo.
Deles não quero respostas, quero meu avesso.
Que me tragam dúvidas e angústias e agüentem o que há de pior em mim.
Para isso, só sendo louco.
Quero os santos, para que não duvidem das diferenças
e peçam perdão pelas injustiças.
Escolho meus amigos pela cara lavada e pela alma exposta.
Não quero só o ombro ou o colo, quero também sua maior alegria.
Amigo que não ri junto não sabe sofrer junto.
Meus amigos são todos assim: metade bobeira, metade seriedade.
Não quero risos previsíveis nem choros piedosos.
Quero amigos sérios, daqueles que fazem da realidade
sua fonte de aprendizagem,
mas lutam para que a fantasia não desapareça.
Não quero amigos adultos nem chatos.
Quero-os metade infância e outra metade velhice!
Crianças, para que não esqueçam o valor do vento no rosto,
e velhos, para que nunca tenham pressa.
Tenho amigos para saber quem eu sou.
Pois os vendo loucos e santos, bobos e sérios, crianças e velhos,
nunca me esquecerei de que normalidade é uma ilusão imbecil e estéril.”

 

CAUSAS DA HOMOSSEXUALIDADE – DRAUZIO VARELLA

Postado em Artigos, Sexualidade com as tags , , em 30/08/2008 por David Duarte Correia Jr

 

Drauzio Varella

Existe gente que acha que os homossexuais já nascem assim. Outros, ao contrário, dizem que a conjunção do ambiente social com a figura dominadora do genitor do sexo oposto é que são decisivos na expressão da homossexualidade masculina ou feminina.
Como separar o patrimônio genético herdado involuntariamente de nossos antepassados da influência do meio foi uma discussão que monopolizou o estudo do comportamento humano durante pelo menos dois terços do século XX.
Os defensores da origem genética da homossexualidade usam como argumento os trabalhos que encontraram concentração mais alta de homossexuais em determinadas famílias e os que mostraram maior prevalência de homossexualidade em irmãos gêmeos univitelinos criados por famílias diferentes sem nenhum contato pessoal.
Mais tarde, com os avanços dos métodos de neuro-imagem, alguns autores procuraram diferenças na morfologia do cérebro que explicassem o comportamento homossexual.
Os que defendem a influência do meio têm ojeriza aos argumentos genéticos. Para eles, o comportamento humano é de tal complexidade que fica ridículo limitá-lo à bioquímica da expressão de meia dúzia de genes. Como negar que a figura excessivamente protetora da mãe, aliada à do pai pusilânime, seja comum a muitos homens homossexuais? Ou que uma ligação forte com o pai tenha influência na definição da sexualidade da filha?
Sinceramente, acho essa discussão antiquada. Tão inútil insistirmos nela como discutir se a música que escutamos ao longe vem do piano ou do pianista.
A propriedade mais importante do sistema nervoso central é sua plasticidade. De nossos pais herdamos o formato da rede de neurônios que trouxemos ao mundo. No decorrer da vida, entretanto, os sucessivos impactos do ambiente provocaram tamanha alteração plástica na arquitetura dessa rede primitiva que ela se tornou absolutamente irreconhecível e original.
Cada indivíduo é um experimento único da natureza porque resulta da interação entre uma arquitetura de circuitos neuronais geneticamente herdada e a experiência de vida. Ainda que existam irmãos geneticamente iguais, jamais poderemos evitar as diferenças dos estímulos que moldarão a estrutura microscópica de seus sistemas nervosos. Da mesma forma, mesmo que o oposto fosse possível – garantirmos estímulos ambientais idênticos para dois recém-nascidos diferentes – nunca obteríamos duas pessoas iguais por causa das diferenças na constituição de sua circuitaria de neurônios. Por isso, é impossível existirem dois habitantes na Terra com a mesma forma de agir e de pensar.
Se taparmos o olho esquerdo de um recém-nascido por 30 dias, a visão daquele olho jamais se desenvolverá em sua plenitude. Estimulado pela luz, o olho direito enxergará normalmente, mas o esquerdo não. Ao nascer, os neurônios das duas retinas eram idênticos, porém os que permaneceram no escuro perderam a oportunidade de ser ativados no momento crucial. Tem sentido, nesse caso, perguntar o que é mais importante para a visão: os neurônios ou a incidência da luz na retina?
Em matéria de comportamento, o resultado do impacto da experiência pessoal sobre os eventos genéticos, embora seja mais complexo e imprevisível, é regido por interações semelhantes. No caso da sexualidade, para voltar ao tema, uma mulher com desejo sexual por outras pode muito bem se casar e até ser fiel a um homem, mas jamais deixará de se interessar por mulheres. Quantos homens casados vivem experiências homossexuais fora do casamento? Teoricamente, cada um de nós tem discernimento para escolher o comportamento pessoal mais adequado socialmente, mas não há quem consiga esconder de si próprio suas preferências sexuais.
Até onde a memória alcança, sempre existiram maiorias de mulheres e homens heterossexuais e uma minoria de homossexuais. O espectro da sexualidade humana é amplo e de alta complexidade, no entanto; vai dos heterossexuais empedernidos aos que não têm o mínimo interesse pelo sexo oposto. Entre os dois extremos, em gradações variadas entre a hetero e a homossexualidade, oscilam os menos ortodoxos.
Como o presente não nos faz crer que essa ordem natural vá se modificar, por que é tão difícil aceitarmos a riqueza da biodiversidade sexual de nossa espécie? Por que insistirmos no preconceito contra um fato biológico inerente à condição humana?
Em contraposição ao comportamento adotado em sociedade, a sexualidade humana não é questão de opção individual, como muitos gostariam que fosse, ela simplesmente se impõe a cada um de nós. Simplesmente, é!

 

O AMOR IMPOSSÍVEL É O VERDADEIRO AMOR – ARNALDO JABOR

Postado em Uncategorized em 30/08/2008 por David Duarte Correia Jr

Arnaldo Jabor

Arnaldo Jabor

Outro dia escrevi um artigo sobre o amor. Depois, escrevi outro sobre sexo.Os dois artigos mexeram com a cabeça de pessoas que encontro na rua e que me agarram, dizendo: “Mas… afinal, o que é o amor?” E esperam, de olho muito aberto, uma resposta “profunda”. Sei apenas que há um amor mais comum, do dia-a-dia, que é nosso velho conhecido, um amor datado, um amor que muda com as décadas, o amor prático que rege o “eu te amo” ou “não te amo”. Eu, branco, classe média, brasileiro, já vi esse amor mudar muito. Quando eu era jovem, nos anos 60/70, o amor era um desejo romântico, um sonho político, contra o sistema, amor da liberdade, a busca de um “desregramento dos sentidos”. Depois, nos anos 80/90 foi ficando um amor de consumo, um amor de mercado, uma progressiva apropriação indébita do “outro”. O ritmo do tempo acelerou o amor, o dinheiro contabilizou o amor, matando seu mistério impalpável. Hoje, temos controle, sabemos por que “amamos”, temos medo de nos perder no amor e fracassar na produção. A cultura americana está criando um “desencantamento” insuportável na vida social. O amor é a recusa desse desencanto. O amor quer o encantamento que os bichos têm, naturalmente.
Por isso, permitam-me hoje ser um falso “profundo” (tratar só de política me mata…) e falar de outro amor, mais metafísico, mais seminal, que transcende as décadas, as modas. Esse amor é como uma demanda da natureza ou, melhor, do nosso exílio da natureza. É um amor quase como um órgão físico que foi perdido. Como escreveu o Ferreira Gullar outro dia, num genial poema publicado sobre a cor azul, que explica indiretamente o que tento falar: o amor é algo “feito um lampejo que surgiu no mundo/ essa cor/ essa mancha/ que a mim chegou/ de detrás de dezenas de milhares de manhãs/ e noites estreladas/ como um puído aceno humano/ mancha azul que carrego comigo como carrego meus cabelos ou uma lesão oculta onde ninguém sabe”.

Pois, senhores, esse amor existe dentro de nós como uma fome quase que “celular”. Não nasce nem morre das “condições históricas”; é um amor que está entranhado no DNA, no fundo da matéria. É uma pulsão inevitável, quase uma “lesão oculta” dos seres expulsos da natureza. Nós somos o único bicho “de fora”, estrangeiro. Os bichos têm esse amor, mas nem sabem.

(Estou sendo “filosófico”, mas… tudo bem… não perguntaram?) Esse amor bate em nós como os frêmitos primordiais das células do corpo e como as fusões nucleares das galáxias; esse amor cria em nós a sensação do Ser, que só é perceptível nos breves instantes em que entramos em compasso com o universo. Nosso amor é uma reprodução ampliada da cópula entre o espermatozóide e óvulo se interpenetrando. Por obra do amor, saímos do ventre e queremos voltar, queremos uma “reintegração de posse” de nossa origem celular, indo até a dança primitiva das moléculas. Somos grandes células que querem se re-unir, separados pelo sexo, que as dividiu. (“Sexo” vem de “secare” em latim: separar, cortar.) O amor cria momentos em que temos a sensação de que a “máquina do mundo” ou a máquina da vida se explica, em que tudo parece parar num arrepio, como uma lembrança remota. Como disse Artaud, o louco, sobre a arte (ou o amor) : “A arte não é a imitação da vida. A vida é que é a imitação de algo transcendental com que a arte nos põe em contato.” E a arte não é a linguagem do amor? E não falo aqui dos grandes momentos de paixão, dos grandes orgasmos, dos grande beijos – eles podem ser enganosos. Falo de brevíssimos instantes de felicidade sem motivo, de um mistério que subitamente parece revelado. Há, nesse amor, uma clara geometria entre o sentimento e a paisagem, como na poesia de Francis Ponge, quando o cabelo da amada se liga aos pinheiros da floresta ou quando o seu brilho ruivo se une com o sol entre os ramos das árvores ou entre as tranças da mulher amada e tudo parece decifrado. Mas, não se decifra nunca, como a poesia. Como disse alguém: a poesia é um desejo de retorno a uma língua primitiva. O amor também. Melhor dizendo: o amor é essa tentativa de atingir o impossível, se bem que o “impossível” é indesejado hoje em dia; só queremos o controlado, o lógico. O amor anda transgênico, geneticamente modificado, fast love.

Escrevi outro dia que “o amor vive da incompletude e esse vazio justifica a poesia da entrega. Ser impossível é sua grande beleza. Claro que o amor é também feito de egoísmos, de narcisismos mas, ainda assim, ele busca uma grandeza – mesmo no crime de amor há um terrível sonho de plenitude. Amar exige coragem e hoje somos todos covardes”.

Mas, o fundo e inexplicável amor acontece quando você “cessa”, por brevíssimos instantes. A possessividade cessa e, por segundos, ela fica compassiva. Deixamos o amado ser o que é e o outro é contemplado em sua total solidão. Vemos um gesto frágil, um cabelo molhado, um rosto dormindo, e isso desperta em nós uma espécie de “compaixão” pelo nosso desamparo.

Esperamos do amor essa sensação de eternidade. Queremos nos enganar e achar que haverá juventude para sempre, queremos que haja sentido para a vida, que o mistério da “falha” humana se revele, queremos esquecer, melhor, queremos “não-saber” que vamos morrer, como só os animais não sabem. O amor é uma ilusão sem a qual não podemos viver. Como os relâmpagos, o amor nos liga entre a Terra e o céu. Mas, como souberam os grandes poetas como Cabral e Donne, a plenitude do amor não nos faz virar “anjos”, não. O amor não é da ordem do céu, do espírito. O amor é uma demanda da terra, é o profundo desejo de vivermos sem linguagem, sem fala, como os animais em sua paz absoluta. Queremos atingir esse “absoluto”, que está na calma felicidade dos animais.

 

 

UM PAÍS QUE CAI DE BUNDA E CHORA – JAMES PIZARRO

Postado em Uncategorized em 30/08/2008 por David Duarte Correia Jr

                                            

Sou tomado de profunda melancolia ao contemplar o desempenho do Brasil nas Olimpíadas…e constatar nossa colocação no quadro de medalhas…comparar nosso país com os países que estão à nossa frente.
Fico triste ao ver que na nossa seleção olímpica de futebol existem jogadores que ganham milhões e milhões de dólares, enquanto representantes do nosso judô choram e são humilhados por não ter dinheiro para pagar o exame de faixa preta.
Fico irado ao ver o Galvão Bueno, nas transmissões da Globo, enaltecer delirantemente ‘o gênio mágico’ do ‘fenômeno’ Phelps, nadador norte-americano…e não falar no mesmo tom do nosso nadador Cielo, este sim, um fenômeno. Fenômeno porque treinou seis horas por dia nos três últimos anos, numa cidade do interior dos EUA, sustentado pelos próprios pais e pela generosidade de alguns amigos, pois não recebe um auxílio oficial.
Fico depressivo ao contemplar na TV nossas minguadas medalhas de bronze.E fico pensando que, de cada mega-sena e outras loterias oficiais, o governo paga apenas 30 % do arrecado ao ganhador e propaga que os outros 70 % são destinados a isso ou aquilo, sem que a gente possa fiscalizar com nitidez essa aplicação.
Estou por completar 66 anos. E desde pequenino tem sido assim. Lembro do Ademar Ferreira da Silva, nosso bicampeão olímpico do salto tríplice que foi competir tuberculoso!
E jamais me sairá da mente o olhar de estupor de Diego Hipólito caindo de bunda no chão no final da sua apresentação, quando por infelicidade e questão de dois segundos deixou de subir ao pódio. E de suas lágrimas pedindo desculpas, quando ele não tem culpa de nada. Das lágrimas de outros atletas brasileiras dizendo que não deu. Pedindo desculpas aos familiares e ao povo.Meus Deus!
Será que vou morrer vendo um povo que só chora e pede desculpas?
Será que vou morrer num país que se estatela de bunda no chão, enquanto os políticos roubam descadaradamente e as CPIs não dão em nada?
Será que vou morrer num país que se contenta com o assistencialismo e o paternalismo oficiais, um povo que vende seu voto por bolsa-família e por receber um botijão de gás de esmola por mês?
Até quando, meu Deus?

MICHEL FOUCAULT E A INVENÇÃO DO HOMEM – MARCIA TIBURI

Postado em Uncategorized em 30/08/2008 por David Duarte Correia Jr
Michel Foucault

Michel Foucault

 


Michel Foucault agia como um luminoso ator do pensamento. Titular da cátedra do Collège de France de 1971 até o ano de sua morte (1984), encarnava um ritual cênico: acendia uma luminária, afastava os gravadores e começava a falar com a coerência de quem escreve. Vivia a sala de aula como palco de ebulição e idéias, apresentando em primeira mão as novidades de sua pesquisa. Nas vinte e seis horas anuais de curso, criava em público, assim como fizera Jean Hippolyte que o antecedera. Essas aulas de Foucault tornaram-se míticas. Conta-se que mais de quinhentas pessoas disputavam espaço em um anfiteatro de trezentos lugares para assistir a verdadeira performance de gênio. O que chamava atenção no teatro-Foucault era a precisão na exposição de uma vasta e corajosa investigação em curto espaço de tempo. O tamanho do gênio estava à mostra ao fazer da rotina de aulas o momento magno que anunciava a mudança dos rumos do pensamento do século XX e do século que vemos nascer.

Foucault foi um dos maiores filósofos do século XX. A grandiosidade de seu pensamento revela-se na ordem estritamente teórica de seu pensamento ao momento pragmático estabelecido nas ressonâncias de sua teoria. Este último se vê no fato a cada dia ainda experimentado por professores, alunos e estudiosos em contato com sua obra, da reunião que conseguiu estabelecer entre as diversas ciências. As ciências humanas, cuja concepção ele ajudou a forjar, tornam-se resultado dos saberes entrelaçados no tempo e dos modos como armam-se em estruturas de poder. A interrelação entre saber e poder permitirá conhecer a chamada “invenção do homem”, uma das idéias críticas do pensador que cavava nos documentos e livros mais inabituais da história a sua verdade recôndita ou mesmo oculta.

História dos Sistemas de Pensamento fora o nome sintético que aglomerou a preocupação em estabelecer pela descoberta o processo de fundação do saber ocidental. No famoso livro As Palavras e as Coisas, Foucault declarou radicalmente essa intenção de analisar o que ele chamou a “experiência nua da ordem”. Essa experiência fará a diferença entre o uso dos códigos ordenadores dentro dos quais vivemos e as reflexões sobre a ordem realizada por teóricos e que estabelecerá o projeto de uma “arqueologia do saber”, diferente de uma história das idéias ou das ciências. O projeto arqueológico – o período de trabalho de Foucault entre 1961 e 1969 – baseou-se na alteração da noção de história para além da noção de progresso rumo ao futuro ou ao passado, procurando o contexto e a fonte onde as condições de possibilidade das teorias e conhecimentos, filosofias e racionalidades, idéias e conceitos deixavam-se desenhar fundando uma noção do “homem” – como objeto e como sujeito – que marca até hoje a história e a investigação científica. Foucault pesquisava a falta, o desvio, o desconhecido procurando entender as tramas invisíveis e os silêncios da história.

A arqueologia foucaultiana propõe um método no mais adequado sentido do termo, um modo de olhar que altera a todo momento seus princípios e que, por isso, não pode valer como medida de toda a história que se impõe como busca pelo saber de qualquer objeto. A arqueologia ensina ainda hoje a olhar cada objeto respeitando a sua verdade e construindo um discurso a partir da observação. O discurso da arqueologia vem do objeto, não é o objeto que vem do discurso, sendo construído por ele. A História da Loucura, talvez o livro mais conhecido de Foucault, inaugura essa fase arqueológica – conclusa em A Arqueologia do Saber de 1969 – como experiência do pensamento do próprio Foucault, no qual a atenção ao objeto da investigação faz falar o método. O método é a exposição do olhar que se esforça por deixar de ser olhar para atingir a coisa com a palavra disponível. A filosofia de Foucault será próxima da literatura enquanto procura do silêncio contido nas palavras e na linguagem.

A História da Loucura não é apenas uma história da psiquiatria ou de seu surgimento, mas uma investigação sobre o enclausuramento do louco, a sua reclusão em um espaço manicomial, para realizar, paradoxalmente, sua exclusão. A intenção do livro é mais que explicar uma história cronológica ou progressiva da loucura, entender a relação entre a modernidade e a loucura que continuará sendo desenvolvida no livro O Nascimento da Clínica. O que Foucault irá descobrir é que a doença mental tem menos de duzentos anos e que o louco foi patologizado pela psiquiatria apenas a partir do século XVIII, ou seja, medido a partir de uma ordem da razão da qual essa ciência recente fazia parte. A partir de A História da Loucura, tornou-se possível compreender o processo de inclusão concomitante à exclusão do louco, sua inscrição como objeto do poder da razão que separa e exclui de si o que a nega, instaurando um “outro” num gesto historicamente repetitivo que precisava ser avaliado. A História da Loucura era – pelo avesso – a história da razão, esta a medida que instaurara, já na época da Renascença, o valor real e prático de uma questão anteriormente apenas simbólica: a nau dos insensatos, narrativa das mais curiosas com a qual Foucault começa seu livro e que explica como loucos eram escorraçados de suas cidades indo parar em outras plagas até que o manicômio veio a fixar-lhe a âncora. Estes e outros temas entram na análise da produção da loucura que passa de viagem andarilha à doença mental e anormalidade a ser execrada. Este livro deixa uma brecha teórica que fundará o restante do pensamento foucaultiano.

A etapa arqueológica que investigava sobre o saber foi seguida pela genealogia – termo que Foucault empresa de Nietzsche. Se a primeira explicava “como” apareciam os saberes e suas transformações, a genealogia situava-se em torno do desvendamento do “porquê” sobre os saberes inseridos na ordem política, ou seja, pensando-os na conexão com as relações de poder. Livros como Vigiar e Punir de 1975 e a História da Sexualidade que tem seu primeiro volume A Vontade de Saber publicado em 1976, revelam esse novo tema. O poder passa a ser o eixo a partir do qual pode-se compreender o surgimento dos saberes. Poder não é uma essência ou uma unidade interpretativa da realidade, mas uma prática social que se constitui na história. Toda análise derivada de um objeto tão mutável quanto o poder deveria estar atenta à mutabilidade do próprio processo. Poder, para o filósofo, são práticas ou relações, não somente o Estado, este apenas um articulador do poder, ao lado das demais instituições. O poder se realiza na vida pragmática de uma sociedade e formula-se em técnicas de dominação. Nesse aspecto o corpo do indivíduo é o lugar especial onde o poder vai realizar-se. A história do saber ali define-se como “história dos corpos” e estes são analisados em sua submissão a uma “microfísica do poder”. Um poder exercido em escala social precisa ter sua realização concreta na produção e controle do indivíduo: ele será a disciplina exercida sobre esse indivíduo no controle de seus gestos, hábitos, comportamentos, discursos. Atomizado na sociedade e servindo, ao mesmo tempo, a um mecanismo magno que não tendia a expulsar os homens da vida social, mas antes administrar e ordenar seus cotidianos com objetivos políticos e econômicos, o poder é o nome da manipulação do corpo. O poder foi – e é – a disciplina aplicada aos corpos. Talvez toda disciplina seja sempre disciplina do corpo. Por isso, Foucault analisará o modo como seres humanos se relacionaram a seus corpos e, na História da Sexualidade, como esta foi o eixo de um poder disciplinar que produziu uma das mais curiosas reviravoltas nas concepções mais avançadas sobre sexo que talvez nem suspeitemos. Em vez de pensar o sexo segundo clichê da libertação e da revolução, na soberania da lei do sexo como produção da subjetividade livre, Foucault apresenta uma de suas idéias mais corajosas: como que um lado perverso do dispositivo social da sexualidade que nos faz crer que nela está a nossa liberação enquanto nos submete aos seus mecanismos. Nesse ponto, vemos ainda a atualidade da análise de Foucault num tempo em que pornografia e censura ainda comandam o destinos de nossa sociedade enquanto ocultam-se de nosso olhar. A teoria de Foucault, vinte anos após sua morte, causa-nos um espanto que será ainda maior quando pudermos perceber a enormidade do alcance de sua investigação como diagnóstico do que vivemos, do que somos, do que deixamos de ser, do modo como inventamos a nós mesmos.

Publicado no Caderno Cultura do Jornal Zero Hora de 12 de Junho de 2004. Página 8.

AMIGOS PARA SEMPRE – MARCIA TIBURI

Postado em Artigos, Psicanálise com as tags , , , , , em 30/08/2008 por David Duarte Correia Jr
Marcia Tiburi

Marcia Tiburi

 


A filosofia, cuja etimologia implica a palavra grega Philia que significa amizade, nasceu da amizade entre os homens que, por sua vez, tinham amizade pela sabedoria. Como o amor, a amizade é uma espécie de desejo, mas um desejo diferente da posse. Quando os filósofos falam da amizade entre seres humanos estão dizendo algo muito parecido ao “desejo de saber”, literalmente melhor traduzido por “amizade pela sabedoria” que anima sua atividade. Amigos não eram aqueles que se reuniam em torno da economia, nem em torno da cosmética, da ginástica, nem em torno da culinária ou da retórica. Que laço era este que unia alguns entre si em nome de algo tão complexo como a sabedoria? Qual a forma da relação a que chamamos até hoje amizade se ela é um desejo sem posse? Quando amamos alguém desejando seu bem sem que este seja o nosso próprio bem?

PESSOAS DE BEM

Sócrates defendia que a amizade só acontecia entre pessoas de bem não ocorrendo entre pessoas más e incapazes de amar o outro. Para seguir este raciocínio socrático precisamos nos perguntar se nos encaixamos na definição de uma “pessoa de bem”. Pensava ele que as pessoas totalmente de bem são auto-suficientes, não se pode dizer delas que “precisem” de amigos. Mas todos precisamos e, somos apenas humanos, não somos deuses auto-suficientes. Por isso, concluirá Sócrates no diálogo Lísis de Platão, que para se ter amigos é preciso ser alguém que sabe o que é o mal, mas deseja o bem. Desejar o bem (a alguém ou à sabedoria) é a definição mais perfeita da amizade. Amigo é, portanto, aquela pessoa na qual se acredita que os bens parciais da vida podem se agregar na realização do Bem – com letra maiúscula – que equivalia ao Bem superior, uma espécie de Bem Geral, Bem de todos, para todos, em relação a tudo o que existe. Como se fosse possível falar de um Bem do Cosmos, uma harmonia total no universo que, mesmo sendo uma utopia, é a idéia que deveria nortear as ações das pessoas de bem.

A AMIZADE É UMA VIRTUDE

 

Como virtude, para Aristóteles, a amizade é tanto necessária quanto desejável. Diz ele em seu principal livro sobre as questões morais – a Ética a Nicômaco – que, mesmo alguém que possuísse todos os bens, não gostaria de viver sem amigos.  A amizade será até mesmo superior à justiça: quando as pessoas são amigas não é necessária a justiça, mas havendo a justiça ainda precisaremos da amizade.

Aristóteles fala de formas diferentes de amizades: a acidental comum entre idosos e jovens que precisam de amigos úteis que facilitem pensamentos, ações e os apóiem em suas fragilidades, e da amizade perfeita que é aquela que une os homens de bem e que são semelhantes em suas virtudes. A amizade perfeita é rara e incomum, tanto quanto é raro e incomum. Há certa exclusividade na amizade. Quem leva a sério a amizade costuma dizer que tem poucos amigos. O que não quer dizer que não se possa agradar muitos, ao mesmo tempo, oferecendo-lhes bens e vantagens ou simplesmente coisas úteis e agradáveis. Um amigo verdadeiro merece mais que isso.

 

 

 

QUERER BEM É SER RESPONSÁVEL PELO OUTRO

A amizade é uma palavra que se aplica às pessoas das quais se quer o bem enquanto delas pode-se esperar certa reciprocidade. Amigo é aquele que desejamos ver feliz e que quer nos ver do mesmo modo. Muitas pessoas demonstram não ser amigas tanto nos momentos difíceis quanto nos momentos alegres da vida de seus conhecidos. Para ser amigo é preciso alegrar-se com a alegria de outro e ajudá-lo em suas tristezas. Diz Aristóteles que “quando há reciprocidade, a boa intenção é a amizade”. Levando em conta que a amizade é um sentimento que obedece aos limites dos laços humanos, ela exige sempre reciprocidade. Não é, neste caso, apenas um sentimento, mas uma construção de laço com o que há de responsabilidade para sua sustentação. O laço que os une é o desejo do bem. Neste caso ela não é um simples sentimento, mas um sentimento complexo que envolve uma noção de liberdade do outro a ser preservada.Amizade é, sobretudo, desejar o bem de quem se ama, não desejar seus bens, nem proveitos, nem os prazeres que advém de seus bens. Não há amizade que se sustente por interesses, nem pelo status de se ter muitos amigos. Amigo é quem tem que valer por ele mesmo, pelo que é, e não pelo que possui em termos materiais ou pragmáticos. O amigo, como pessoa, não pode ser um meio pelo qual se pode alcançar um outro fim, mas deve ser um fim ele mesmo, o objetivo da amizade.

A amizade não pode ser uma máscara. Por isso, sua noção envolve sempre a verdade da relação para que seja algo excelente. Só é amizade se for verdadeira. Descobrir que um amigo não era verdadeiramente amigo é uma dor que pode ser maior que a perda de um amor. A um amigo, não basta, ser agradável ou útil, mas ter caráter. Nele não está em jogo a paixão que nos torna cegos e, por isso, por ser a amizade uma escolha com forte carga de racionalidade e consciência, sofremos tanto quando somos enganados. A rigor, podíamos ver e saber tudo e nos percebemos traídos por nós mesmos.

 

 

 Publicado na Revista Vida Simples. Novembro de 2006. Ed. 47. P. 54-55.