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O Caráter Histérico e a sua Estrutura – Tovar Tomaselli

Postado em Artigos, Filmes, Literatura, Psicanálise com as tags , , , em 23/10/2008 por David Duarte Correia Jr

Dando continuidade aos meus artigos que versam sobre “A Histeria”, procurei me ater neste trabalho, ao “caráter”, bem como à “estrutura”, pertinentes a esse quadro patológico que tanto sofrimento traz a todos aqueles que dele padecem. Aqueles que tiveram o privilégio de assistir ao filme “Freud, além da alma”, puderam observar que Theodor Meynert, professor de Freud, o chama em seu leito de morte, dizendo a ele que ele, Meynert era um homem histérico, tendo solicitado que Freud lhe atravessasse uma agulha pela perna, para demonstrar a presença de uma “anestesia  histérica”. Fica aqui a sugestão desse maravilhoso filme, onde quem interpreta Freud é Montgomery Cliff. Simplesmente imperdível ! Procurei fazer constar no artigo algumas considerações que versam sobre a histeria masculina.

Após meus outros trabalhos como “Dora e a Identificação Histérica”, “Dora, 25 anos depois”, tentei me ater, neste outro artigo, naquilo que se denomina de “caráter histérico”, bem como em relação à sua “estrutura”. Conceitos absolutamente indispensáveis para que se possa efetuar uma leitura psicanalítica baseada nas evoluções pertinentes ao construto teórico da Psicanálise contemporânea.

Quando pensamos em qualquer estrutura psicopatológica, pode-se notar que os conceitos de conduta e de estrutura, se implicam mutuamente.

Freud não se cansou de destacar a não-existência de neuroses puras, afirmando que as neuroses são mistas, e que todas elas guardam em si certo quantum de hipocondria. Então, coloca-se a questão: “Em um sujeito neurótico, todas as suas condutas são de nível neurótico ou poderemos encontrar condutas que se qualificariam como perversas ou psicóticas?”

Outra questão que se coloca: ” E, em um perverso ou mesmo psicótico, não existiriam condutas neuróticas?”

Sabemos que já em 1938, Freud explicava essa coexistência pela via da “cisão do ego”. Então, embora não existam quadros puros, ficam pendentes algumas questões:

=== em função de que parâmetros avaliamos uma conduta como neurótica, perversa ou psicótica?

=== quando e em função de que nos sentimos no direito de dizer que as condutas de um sujeito, são sinais de uma neurose ou perversão?

Tentaremos apenas encaminhar a resposta a semelhante espectro de questões, apenas com o intuito de podermos vislumbrar a complexidade do tema.

As respostas sempre terão como polaridade principal a prevalência:

1-) do tipo de conflito:

a-) ego x id ou

b-) ego x id, por um lado e ego x realidade, por outro.

2-) do nível em que se propõe o conflito:

a-) edípico

b-) narcisista e pré-edípico

c-) ambos

3-) do grau de afastamento da realidade, da defesa empregada e do modo de restituir o rechaçado da realidade.

4-) do grau de aceitação, desafio ou rechaço da lei e da função paterna.

5-) da área e do modo como se manifesta a sexualidade infantil que demanda ser satisfeita.

6-) da fixidez, estereotipia e exclusividade na maneira de se relacionar com os objetos ou com o objeto sexual.

7-) de uma valorização sexual que brota de uma ideologia preconceituosa e, às vezes, compartilhada pela maioria.

Queremos ressaltar que esta classificação foi retirada do trabalho de H. Mayer, denominado “A Histeria”.

Retomamos agora a mais simples idéia sobre o que seria a estrutura de caráter, fazendo notar, que quando a ela se referir, estamos aludindo aos mecanismos habituais, aos quais apela o aparelho psíquico de um sujeito em sua tentativa  para resolver os seus conflitos psíquicos, os quais são geradores de angústia.

Através de uma vertente teórico-clínica, podemos notar que quando a angústia é muito intensa, bem como quando os mecanismos se mostram insuficientes, recorre-se inconscientemente a operações mentais como, por exemplo: a atuação, o sintoma ou a uma exacerbação dos traços de caráter acompanhada sempre de uma intensa rigidez, vindo a configurar uma espécie de “couraça defensiva”.

Note-se que mesmo quando falamos em mecanismos psicopáticos, neuróticos ou mesmo caracteropáticos, o mais importante a assinalar é que eles têm em comum sempre “o conflito”, cujas raízes residem no inconsciente, e às quais só teremos acesso através do trabalho analítico.

A Teatralidade, o exibicionismo e a sedução

Comumente esses traços são conhecidos como “histrionismo histérico”. Notamos que essas pessoas precisam mostrar-se, exibir-se, através de uma representação da qual não são sequer conscientes. Aqui, a pergunta que se coloca é: “O que representam?” Diríamos que uma trama na qual são encenados os proibidos desejos sexuais da infância.

Fenomenologicamente, então, estaríamos diante de uma menina, fortemente apegada à figura dos pais, a qual luta para vir a ser o par tanto da mãe, como do pai. Desse apego, resultaria a sua dúvida eterna sobre a sua identidade sexual. Na verdade, ela “representa ser uma mulher”, e tem como angústia a diferença sexual anatômica, a qual é interpretada por ela como a castração. Dessa representação, resultaria uma hiperfeminilidade. O que lhe interessa é despertar o desejo de um homem, muito mais do que alcançar o prazer sexual com um companheiro. Sabemos, através da clínica, que o homem que representa o seu companheiro ideal, será aquele fixado a uma mãe fálica.

Essa aproximação só ocorrerá uma vez que no curso da sedução exibicionista, esse homem deverá, através de seu desejo, confirmá-la como mulher, enquanto o que ele busca é ser confirmado em sua virilidade por esta “supermulher”, a qual representa a mãe idealizada, com quem desejara fundir-se na sua infância. Como uma decorrência de caráter, praticamente geral, nestes casos, sabemos que o ato sexual, se ocorrer, implicará numa mútua decepção. A mulher acreditará que está sendo usada como sendo um objeto sexual, e ele que a sua capacidade viril não está sendo suficiente para fazer gozar e deixar satisfeita uma mulher. Em outras palavras, ela se sente inferiorizada (castrada), e ele um menino impotente.

O encanto da fantasia é que ela, a mulher histérica, consegue ser o objeto de amor de um “pai idealizado”. Na verdade, tratam-se de sujeitos que sofrem uma realidade e que sonham acordados com uma outra realidade mais complacente, onde os desejos parecem cumprir-se de forma mágica. Quando o princípio da realidade  se apresenta tão subjugado pelo princípio do prazer, nas áreas em que isso ocorre, a passividade – motriz – contrasta com a força dos afetos que podem dar crédito às suas crenças fantasiosas. É nesse exato momento que alguns autores, destacam a existência da “mitomania”, como um traço de caráter histérico.

Notemos que, através da conversão, fenômeno típico da histeria, o corpo aparece como o lugar em que se expressa aquilo que a censura impede que seja pronunciado através das palavras. (“Quando um indivíduo se cala, ele fala pela ponta dos dedos.” S. Freud) Devemos entender e pensar o corpo da histérica, como sendo plenamente preenchido por metáforas, as quais serão necessárias vir à luz, e através do trabalho analítico.

Podemos inferir que a histérica foi amada por seus pais, não apenas de uma forma narcisista, isto é, que em certa medida desenvolveu seu Complexo de Édipo, e que, também descobriu e aceitou a castração materna, bem como a sua própria, vindo a desejar, assim, que o pai lhe dê o falo que lhe falta.

Será que poderíamos, então, falar de um “pai fálico da histérica”? Se não exatamente fálico, verdade é que se trata de um pai extremamente idealizado. É um pai para o qual se dirige toda a sedução infantil. Ou seja, para um pai e uma filha ou para uma mãe e um filho, o que sabemos é que: “A barreira do incesto nunca é tão frágil como aqui.”(na Histeria). Queremos deixar claro que  o desejo incestuoso e a sua repressão não são, por certo, privativos da histeria, mas na histeria se fazem presentes de maneira singular.

A sedução infantil, ou seja, a mútua sedução incestuosa, se constitui em um  ponto de fixação ao qual a fantasmagoria inconsciente resistirá a renunciar pelo resto da vida. Aqui, colocamos a pergunta para que se possa refletir: “Que satisfação sexual pode um simples homem procurar dar a uma mulher histérica, considerando a existência de um rival fantasmático tão poderoso?”

Algumas características sobre a tipologia histérica

=== A Ingenuidade:

A histérica tende a impressionar o outro quer do ponto de vista estético, quanto do ponto de visa do desejo sexual. Sabemos que isso que lhe dá esse ar de ingenuidade, ou ainda de ser possuidora de um “infantilismo emocional”, o qual, via de regra, é assinalado pelos autores que se dedicam à histeria. Sabemos que se a paciente pudesse tomar conhecimento disso, seria tomada por uma corrente de angústia e culpa, as quais inundariam o ego. A forma utilizada pelo psiquismo para que isso não ocorra, é fazer uso da “repressão”.

No que tange ao Complexo de Édipo, atualmente não mais poderíamos situar os impulsos reprimidos da histeria, somente referentes ao Édipo positivo. Estaríamos diante de uma visão míope da realidade, depois que Freud retificou a sua interpretação do Caso Dora, depois de ter descrito em 1923, o Complexo de Édipo completo. Também recebemos a informação da Clínica, a qual nos mostra incessantemente, a importância do vínculo homossexual na histeria.

=== O Infantilismo

Com esse termo, comumente são descritos uma série de traços habituais pertinentes ao caráter histérico, a saber: o egocentrismo, dependência de certos personagens idealizados, sugestionabilidade, ingenuidade, frigidez ou graus diversos de inibição genital, etc. Assim, costuma-se dizer que “A mulher histérica seduz e frustra”.

Segundo Lucien Israel: “não é uma mulher qualquer que se proponha consciente ou inconscientemente a “castrar” homens. O que devemos considerar é que por traz desse protótipo de mulher se evidencia, a existência de uma menina desvalorizada, que luta desesperadamente para alcançar o amor parental que lhe falta como filha.

Trata-se de uma evidência que verificamos na clínica que  o complemento dessa mãe que só reclama de ser mulher, é um pai submisso e dependente, o qual busca compensar essa humilhação, através da filha a quem manifesta, ou latentemente erotiza, reforçando suas fantasias dela transformar-se em sua parceira. Muitas vezes, o medo de entregar-se a um homem que pode abandoná-la é tal que provoca uma dissociação. Estabelece com o cônjuge com o qual está sexualmente insatisfeita, uma espécie de vínculo terno e dependente, enquanto coloca a satisfação sexual ou em um vínculo imaginário ou atual, mas fora da relação conjugal.

=== A Necessidade de Perfeição

Encontramos nas roupas, maquiagem, perfumes e até na companhia de um homem excepcional. Essa necessidade ficaria atribuída ao fato de que desde a sua posição infantil, teria interpretado a ausência do pênis como sendo uma “falta” humilhante e inaceitável. O vetor resultante dessa insatisfação seria uma busca compulsiva em todos os campos de atividades: físico, intelectual, cultural, etc. Contudo, sabemos que persistirá a eterna dúvida sobre o que lhe é próprio. Na comparação, as outras sempre serão mais belas, terão melhores condições de vida, o que vai “corroendo o seu templo narcisista”. Se está segura de algo é de não ter nunca escolhido suficientemente bem.

Lucien Israel nos diz: “Qual o vazio que, para a histérica, deve ser preenchido pelo homem?”… “Assim, deve ser mais forte e mais potente que o pai. O amo e senhor que atende o desejo da histérica: encontrar um mestre”.

Porém, é impossível para qualquer homem preencher esse vazio, sendo que: “O mestre, como todos os demais decepcionam a histérica. A decepção, insatisfação, se transformam em uma necessidade (…), a tal ponto que podemos acabar nos perguntando se o maior desejo da histérica, não consiste justamente em conservar intacto seu desejo, tendo que por isso, acumular fracassos e decepções”.

Só gostaríamos de citar, reforçando a importância dessa temática que W. Reich, em 1926, teria descrito como se tratando de um “caráter fálico-narcisista”. Encontramos dentro desse tipo caracterológico, várias formas ativas de homossexualidade masculina, bem como feminina, formações paranóicas e distintas perversões sexuais, sempre com um importante componente sádico.

=== Frieza emocional, Dissociação Afetivo-Sexual e Inibição Genital

Notamos, através de uma análise da literatura correspondente, uma preferência pelo termo “inibição genital”, como uma forma de referência à inibição sexual parcial, seletiva, etc. Sabe-se que a inibição por si só, não explica tudo o que ocorre, pois encontramos mulheres que atingem o orgasmo, mas que durante o coito e/ou depois dele, permanecem frias com relação ao homem, e tendem a “fugir” da cama; se deprimem; se mostram queixosas, ou ainda se afastam sob qualquer pretexto. Outras tantas são insensíveis com o marido e alcançam a plenitude do orgasmo em uma relação extra-conjugal esporádica ou mesmo de caráter permanente. Esses fatos conjugados nos levam a pensar que devemos considerar em conjunto a inibição sexual e a dissociação afetivo-sexual.

Ainda citando Lucien Israel, “a obtenção do orgasmo para a histérica, seria a morte”, “a  morte do desejo que faz diminuir a tensão.” Explica o citado autor: “essa atitude da histérica pode ser atribuída à necessidade de manter uma relação clandestina, na fantasia ou na realidade, com um representante paterno, ao mesmo tempo desejado e proibido, como sendo um sintoma que expressa a consumação e a punição frente ao cumprimento de um desejo condenado pelo Ideal, ou mesmo que expressa uma medida preventiva para a não realização de tal desejo”.

Da “novela familiar” da histérica, depreendemos que sua mãe não é consciente do mal que faz à filha, ao mostrar-lhe uma imagem denegrida do pai, ao mesmo tempo em que se apresenta como sendo a “vítima” desse marido. Assim, a filha adivinha e sofre o repúdio de sua identidade sexual por parte da mãe que a “ajudará” a construir um ideal inatingível: “O príncipe azul”, o mestre, como um ideal narcisista sim, porém também inatingível.

Da mesma maneira a menina é seduzida pelo pai, que estimula na filha a condição feminina. Sabemos que o pai da histérica está insatisfeito (sobretudo na sua auto-estima), e a sedução já não mais poderíamos colocá-la só entre aspas, uma vez que se encontra desprovida de uma “intermediação simbólica”.

Apenas algumas considerações sobre a Histeria Masculina

O caráter histérico masculino não difere muito do feminino. Sabemos que o homem histérico quer seduzir, ser amado por todos e não pode escolher, uma vez que se assim proceder, terá que renunciar a todo o resto, sendo que ele não se permite perder nada. Tem uma extremada necessidade de agradar para ser “confirmado” pelo desejo do outro. Quer para si, ser o ponto de condensação dos desejos dos demais— o filho único e maravilhoso— o homem histérico tem tanta insegurança quanto à sua identidade sexual, como a mulher histérica.

Tem uma necessidade ímpar de se apresentar como “superviril” (super-carros; super-mulheres, etc), como uma forma de obtenção fantasiosa de que todos o desejem. Como complemento desse estado de coisas, dessa ostentação machista que se rebelará a mulher histérica, adotando uma atitude frustradora em relação a ele.

Para Lucien Israel: “A relação amorosa entre dois histéricos é uma interminável disputa, ou mesmo uma representação tragicômica”. No homem a angústia de castração, aparece mais diretamente como síndromes de angústia, ou mesmo em virtude de certos deslocamentos, como pequenas ou grandes fobias. Sabemos, através da clínica que são menos freqüentes, mas existem também a presença de sintomas conversivos. Encontramos aqui uma supervalorização do pênis, equiparando-o ao falo. Notamos que o homem histérico sempre quer ser o melhor e o único, o que significaria que não superou a rivalidade com os pais, nem seu temor à punição pelos seus desejos sexuais proibidos.

De uma maneira geral, o pai frágil ou mesmo despótico, teria sido inseguro no exercício da lei. De qualquer forma, ao menino fica faltando a proteção paterna, a qual debilita a periculosidade que atribui aos seus desejos infantis.
Como complemento de um pai com estas características, encontraremos uma mãe que— sutil ou manifestamente— o desqualifica como homem. E, esta mesma mãe poderá seduzir o filho em maior ou menor grau, porém o fará sempre com um objetivo narcisista, faltando-lhe o verdadeiro amor de mãe, ou seja: o “amor terno”. O que deve, entre outras tantas coisas ser trazido à tona, através de um trabalho de análise é que, por traz de um homem histérico, portador de sua impotência, haveria nele uma maior necessidade da obtenção de ternura, do que propriamente de um amor genital .

 

Tovar Tomaselli
Psicólogo Clínico-Psicanalista-Prof.universitário

‘Brokeback’ é um filme sobre heróis machos – ARNALDO JABOR

Postado em Filmes, Música, Sexualidade com as tags , , em 30/08/2008 por David Duarte Correia Jr
Brokeback Mountain

Brokeback Mountain

Eu não queria ver o filme “Segredo de Brokeback Mountain”. Não queria. Ver filme de viados, eu? (Escrevo viado porque, como disse Millôr, quem escreve “veado” é viado). Muito bem; eu resistia à idéia, mais ou menos como o Larry David (o roteirista de “Seinfeld”) disse, num artigo engraçadíssimo, que tinha medo de virar gay se ficasse emocionado.

O viado sempre encarnou a ambigüidade de nossos sentimentos. Claro que, hoje, os civilizados todos dizem que “tudo bem, que são contra a homofobia” e todo o bullshit costumeiro. Eu mesmo já fiz filmes em que viados são protagonistas, em que o ator principal escolhe o homosexualismo no final (“Toda nudez será castigada”), já filmei travesti em “Eu te amo” e em “Eu sei que vou te amar”, além da biba louca do “O casamento”, em que o grande ator André Valli dá um show inesquecível. Em todos os meus filmes há uma boneca ativa e digna. E, no entanto, eu não queria ver o tal filme do Ang Lee, apelidado pelos machistas finos de “Chapada dos Viadeiros”.

Minhas razões eram mais discretas, intelectuais: “Ah… porque o Ang Lee é um cineasta mediano, ah… porque será mais um filme politicamente correto, onde o amor de dois caubóis é justificado romanticamente… Vou fazer o que no cinema? Ver mais um panfletinho que ensina que os gays devem ser compreendidos em seu “desvio”? “Não. Não vou”, pensei.

Aliás, eu sou do tempo em que os viados apanhavam na cara em plena rua. Havia pouquíssimos gays declarados no Brasil. No Rio, havia o Murilinho… cantor de fox em boates, havia o Clovis Bornay e poucos outros… O viado passava na rua sob os rosnados dos boçais prontos para lhes tirar sangue. E, no anonimato, enxameavam os pobres “pederastas”, de terno e gravata, pais de família se esgueirando nas esquinas, nas noites escuras, em busca de satisfação.

Mais tarde, com o tempo, surgiram as “bichas loucas”, que se assumiam com um toque de autoflagelação, de autoderrisão, caricaturas da mãe odiada e amada, que berravam e desfilavam nos carnavais num freje humorístico, que até hoje alimenta nossos shows na TV. A “bicha” virou uma personagem clássica do humor, como os palhaços e os bacalhaus de circo. E tudo bem… são engraçados mesmo.

Depois, com os direitos civis dos anos 60, surgiu a gay power, com homossexuais fortes e de bigode, malhados, cheios de orgulho. A viadagem virou um poder político importante, claro, mas até meio sério demais, aspirando a uma “normalidade” que contrariava sua “missão” trangressiva que tanto nos acalmava. Como disse Paulo Francis um dia, sacaneando-os: “Se esses caras querem todos os direitos e deveres dos caretas como nós, qual é então a vantagem de ser viado?”

Em suma, por mais que “aceitemos” os gays, eles sempre foram uma fonte de angústia, pois atrapalham nosso sossego, nossa identidade “clara”. O gay é duplo, é dois, o viado tem algo de centauro, de ameaçador para a unicidade do desejo. A bicha louca ou o travesti, a biba doida ou o perobo, o boy, o puto, a santa, a tia, a paca, todos eles nos tranqüilizavam com suas caricaturas auto-excludentes. Já o gay sério inquieta. O gay banqueiro, o gay de terno, o gay forte, o gay caubói são muito próximos de nos, a diferença fica mínima.

Por isso, eu não queria ver o tal filme dos caubóis. Como? Caubói de mãos dadas, dando beijos românticos, com tristes rostos diante do impossível? Não. Eu, não. Mas, aí, por falta de programa, “distraidamente”… (aí, hein, santa?…) fui ver o filme. E meu susto foi bem outro. O filme não me pedia aprovação alguma para o homossexualismo, o filme não demandava minha solidariedade. Não. Trata-se de um filme sobre o império profundo do desejo e não uma narração simpática de um amor “desviante”. O filmes se impõe assustadoramente. Os dois caubóis jovens e fortes se amam com um tesão incontido e são tomados por uma paixão que poucas vezes vi num filme, hetero ou não. Foi preciso um chinês culto para fazer isso. Americano não agüentava. Nem europeu, que ia ficar filosofando. “Brokeback” é imperioso, realista, sem frescuras. Eu fiquei chocado dentro do cinema, quando os dois começam a transar subitamente, se beijando na boca com a fome ancestral vinda do fundo do corpo. O filme não demandava a minha compreensão. Eu é que tinha de pedir compreensão aos autores do filme, eu é que tive de me adaptar à enorme coragem da história, do Ang Lee. Eu é que precisava de apoio dentro do cinema, flagrado, ali, desamparado no meu machismo “tolerante”. Eu é que era o careta, eu é que era o viado no cinema, e eles, os machos corajosos, se desejando não como pederastas passivos ou ativos, mas como dois homens sólidos, belos e corajosos, entre os quais um desejo milenar explodiu. Não há no filme nada de gay, no sentido alegre, ou paródico ou humorístico do termo. Ninguém está ali para curtir uma boa perversão. Não. Trata-se de um filme de violento e poderoso amor. É dos mais emocionantes relatos de uma profunda entrega entre dois seres, homos ou heteros. Acaba em tragédia, claro, mas não são “vítimas da sociedade”. Não. Viveram acima de nós todos porque viveram um amor corajosíssimo e profundo. Há qualquer coisa de épico na história, muito mais que romântica. Há um heroísmo épico, grego, como entre Aquiles e Pátroclo na “Ilíada”, algo desse nível. O filme não é importante pela forma, linguagem ou coisas assim. Não. Ele é muito bom por ser uma reflexão sobre a fome que nos move para os outros, sobre a pulsação pura de uma animalidade dominante, que há muito tempo não vemos no cinema e na literatura, nesses tempos de sexo de mercado e de amorezinhos narcisistas.

Merece os Oscars que ganhou. Este filme amplia a visão sobre nossa sexualidade.