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SUTIL DIFERENÇA

Postado em Arte, Artigos, Crônicas, Filosofia, Literatura, Prosa, Psicanálise, Sexualidade em 10/11/2009 por David Duarte Correia Jr

 

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Depois de algum tempo você aprende a diferença, a sutil diferença, entre dar a mão e acorrentar uma alma. E você aprende que amar não significa apoiar-se, e que companhia nem sempre significa segurança.

E começa a aprender que beijos não são contratos, e, presentes não são promessas.

E começa a aceitar suas derrotas com a cabeça erguida e olhos adiante, com a graça de um adulto e não com a tristeza de uma criança.

E aprende a construir todas as suas estradas no hoje, porque o terreno do amanhã é incerto demais para os planos, e o futuro tem o costume de cair em meio ao vão.

Depois de um tempo você aprende que o sol queima se ficar exposto por muito tempo.
E aprende que não importa o quanto você se importe, algumas pessoas simplesmente não se importam…
E aceita que não importa quão boa seja uma pessoa, ela vai feri-lo de vez em quando e você precisa perdoá-la por isso. Aprende que falar pode aliviar dores emocionais.

Descobre que se leva anos para construir confiança e apenas segundos para destruí-la, e que você pode fazer coisas em um instante, das quais se arrependerá pelo resto da vida.

Aprende que verdadeiras amizades continuam a crescer mesmo a longas distâncias.
E o que importa não é o que você tem na vida, mas quem você tem da vida. E que bons amigos são a família que nos permitiram escolher.

Aprende que não temos que mudar de amigos, se compreendemos que os amigos mudam, percebe que seu melhor amigo e você podem fazer qualquer coisa, ou nada, e terem bons momentos juntos.
Descobre que as pessoas com quem você mais se importa na vida são tomadas de você muito depressa – por isso, sempre devemos deixar as pessoas que amamos com palavras amorosas, pode ser a ultima vez que as vejamos.

Aprende que as circunstâncias e os ambientes têm influência sobre nós, mas nós somos responsáveis por nós mesmos.
Começa a aprender que não se deve comparar com os outros, mas com o melhor que pode ser. Descobre que se leva muito tempo para se tornar a pessoa que quer ser, e que o tempo é curto.

Aprende que não importa onde já chegou, mas onde está indo, mas se você não sabe para onde está indo, qualquer lugar serve.

Aprende que, ou você controla seus atos ou eles o controlarão, e que ser flexível não significa ser fraco ou não ter personalidade, pois não importa quão delicada e frágil seja uma situação, sempre existem dois lados.

Aprende que heróis são pessoas que fizeram o que era necessário fazer, enfrentando as conseqüências.

Aprende que paciência requer muita prática. Descobre que algumas vezes, a pessoa que você espera que o chute quando você cai, é uma das poucas que o ajudam a levantar-se.

Aprende que maturidade tem mais a ver com os tipos de experiência que se teve e o que você aprendeu com elas, do que com quantos aniversários, você celebrou.

Aprende que há mais dos seus pais em você do que você supunha.

Aprende que nunca se deve dizer a uma criança que sonhos são bobagens, poucas coisas são tão humilhantes e seria uma tragédia se ela acreditasse nisso.

Aprende que quando está com raiva tem o direito de estar com raiva, mas isso não te dá o direito de ser cruel.
Descobre que só porque alguém não o ama do jeito que você quer que ame, não significa que esse alguém não o ama com tudo o que pode, pois existem pessoas que nos amam, mas simplesmente não sabem como demonstrar ou viver isso.

Aprende que nem sempre é suficiente ser perdoado por alguém, algumas vezes você tem que aprender a perdoar-se a si mesmo.

Aprende que com a mesma severidade com que julga, você será em algum momento condenado.

Aprende que não importa em quantos pedaços seu coração foi partido, o mundo não pára para que você o conserte.

Aprende que o tempo não é algo que possa voltar para trás. Portanto, plante seu jardim e decore sua alma, ao invés de esperar que alguém lhe traga flores.

E você aprende que realmente pode suportar… que realmente é forte, e que pode ir muito mais longe depois de pensar que não se pode mais. E que realmente a vida tem valor e que você tem valor diante da vida!.

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HÁ HORAS EM NOSSA VIDA QUE…

Postado em Arte, Artigos, Crônicas, Filosofia, Literatura, Prosa, Psicanálise, Sexualidade em 03/11/2009 por David Duarte Correia Jr

 

tempo

Há horas em nossa vida que somos tomados por uma enorme sensação de inutilidade, de vazio. Questionamos o porquê de nossa existência e nada parece fazer sentido. Concentramos nossa atenção no lado mais cruel da vida, aquele que é implacável e a todos afeta indistintamente: As perdas do ser humano.

Ao nascer, perdemos o aconchego, a segurança e a proteção do útero. Estamos, a partir de então, por nossa conta. Sozinhos. Começamos a vida em perda e nela continuamos.
Paradoxalmente, no momento em que perdemos algo, outras possibilidades nos surgem. Ao perdermos o aconchego do útero, ganhamos os braços do mundo. Ele nos acolhe: encanta e assusta, nos eleva e nos destrói. E continuamos a perder e seguimos a ganhar.

Perdemos primeiro a inocência da infância. A confiança absoluta na mão que segura nossa mão, a coragem de andar na bicicleta sem rodinhas porque alguém ao nosso lado nos assegura que não nos deixará cair… E ao perdê-la, adquirimos a capacidade de questionar. Por quê? Perguntamos a todos e de tudo. Abrimos portas para um novo mundo e fechamos janelas, irremediavelmente deixadas para trás.

Estamos crescendo. Nascer, crescer, adolescer, amadurecer, envelhecer, morrer. Vamos perdendo aos poucos alguns direitos e conquistando outros. Perdemos o direito de poder chorar bem alto, aos gritos mesmo, quando algo nos é tomado contra a vontade. Perdemos o direito de dizer absolutamente tudo que nos passa pela cabeça sem medo de causar melindres. Assim, se nossa tia às vezes nos parece gorda tememos dizer-lhe isso.

Receamos dar risadas escandalosamente da bermuda ridícula do vizinho ou puxar as “pelanquinhas” do braço da avó com a maior naturalidade do mundo e ainda falar bem alto sobre o assunto. Estamos crescidos e nos ensinam que não devemos ser tão sinceros. E aprendemos. E vamos adolescendo, ganhamos peso, ganhamos seios, ganhamos pelos, ganhamos altura, ganhamos o mundo.

Neste ponto, vivemos em grande conflito. O mundo todo nos parece inadequado aos nossos sonhos ah, os sonhos!!! Ganhamos muitos sonhos. Sonhamos dormindo, sonhamos acordados, sonhamos o tempo todo.  Aí, de repente, caímos na real! Estamos amadurecendo, todos nos admiram. Tornamo-nos equilibrados, contidos, ponderados. Perdemos a espontaneidade. Passamos a utilizar o raciocínio, a razão acima de tudo. Mas não é justamente essa a condição que nos coloca acima (?) dos outros animais? A racionalidade, a capacidade de organizar nossas ações de modo lógico e racionalmente planejado?

E continuamos amadurecendo, ganhamos um carro novo, um companheiro, ganhamos um diploma. E desgraçadamente perdemos o direito de gargalhar, de andar descalço, tomar banho de chuva, lamber os dedos e soltar pum sem querer. Mas perdemos peso!!! Já não pulamos mais no pescoço de quem amamos e tascamos-lhe aquele beijo estalado, mas apertamos as mãos de todos, ganhamos novos amigos, ganhamos um bom salário, ganhamos reconhecimento, honrarias, títulos honorários e a chave da cidade. E assim, vamos ganhando tempo, enquanto envelhecemos.

De repente percebemos que ganhamos algumas rugas, algumas dores nas costas (ou nas pernas), ganhamos celulite, estrias, ganhamos peso. e perdemos cabelos. Nos damos conta que perdemos também o brilho no olhar, esquecemos os nossos sonhos, deixamos de sorrir, perdemos a esperança. Estamos envelhecendo. Não podemos deixar pra fazer algo quando estivermos morrendo. Afinal, quem nos garante que haverá mesmo um renascer, exceto aquele que se faz em vida, pelo perdão a si próprio, pelo compreender que as perdas fazem parte, mas que apesar delas, o sol continua brilhando e felizmente chove de vez em quando, que a primavera sempre chega após o inverno, que necessita do outono que o antecede.

Que a gente cresça e não envelheça simplesmente. Que tenhamos dores nas costas e alguém que as massageie. Que tenhamos rugas e boas lembranças. Que tenhamos juízo, mas mantenhamos o bom humor e um pouco de ousadia. Que sejamos racionais, mas lutemos por nossos sonhos. E, principalmente, que não digamos apenas eu te amo, mas ajamos de modo que aqueles a quem amamos, sintam-se amados mais do que saibam-se amados.

Afinal, o que é o tempo? Não é nada em relação a nossa grande missão.

E que missão! 

Fique em Paz!

"Salvador Dalí"

REVOLUÇÃO DA ALMA – ARISTÓTELES

Postado em Arte, Filosofia, Literatura, Psicanálise, Sexualidade em 03/11/2009 por David Duarte Correia Jr

ARISTÓTELES - MUSEU DO LOUVRE

Aristóteles, filósofo grego, escreveu este texto “Revolução da Alma” no ano 360 A.C. . . Ninguém é dono da sua felicidade, por isso não entregue a sua alegria, a sua paz, a sua vida nas mãos de ninguém, absolutamente ninguém.

Somos livres, não pertencemos a ninguém e não podemos querer ser donos dos desejos, da vontade ou dos sonhos de quem quer que seja. A razão de ser da sua vida é você mesmo. A sua paz interior deve ser a sua meta de vida; quando sentir um vazio na alma, quando acreditar que ainda falta algo, mesmo tendo tudo, remeta o seu pensamento para os seus desejos mais íntimos e busque a divindade que existe dentro de si.

Pare de procurar a sua felicidade cada dia mais longe. Não tenha objetivos longe demais das suas mãos, abrace aqueles que estão ao seu alcance hoje. Se está desesperado devido a problemas financeiros, amorosos ou de relacionamentos familiares, busque no seu interior a resposta para se acalmar, você é reflexo do que pensa diariamente. Pare de pensar mal de si mesmo, e seja o seu próprio melhor amigo, sempre.

Sorrir significa aprovar, aceitar, felicitar. Então abra um sorriso de aprovação para o mundo, que tem o melhor para lhe oferecer. Com um sorriso, as pessoas terão melhor impressão sua, e você estará afirmando para si mesmo, que está “pronto”para ser feliz. Trabalhe, trabalhe muito a seu favor. Pare de esperar que a felicidade chegue sem trabalho.

Pare de exigir das pessoas aquilo que nem você conquistou ainda. Agradeça tudo aquilo que está na sua vida, neste momento, incluindo nessa gratidão, a dor. A nossa compreensão do universo ainda é muito pequena, para julgarmos o que quer que seja na nossa vida.

“A grandeza não consiste em receber honras, mas em merecê-las.”

Procure sempre lembrar…

Postado em Arte, Artigos, Literatura em 25/10/2009 por David Duarte Correia Jr

Que duas pessoas discutindo, não quer dizer que se odeiam.

Que duas pessoas felizes, não quer dizer que se amam.

Que o mundo dá voltas e a vida é uma seqüência de desafios.

Que algumas feridas saram, outras não.

Que com a pessoa certa, uma vida é pouco tempo. Que com a pessoa errada, um minuto é muito.

Que mesmo acompanhado ainda pode estar só.

Que caráter vem de berço, não se compra.

Que Amor não se exige; se dá.

Que seus amigos eventualmente vão te machucar. São humanos.

Que um ato pode mudar toda uma vida.

Que nem toda uma vida pode mudar alguns dos nossos atos.

Que o importante pra mim, pode não ser o mesmo pra outros, e isso não é um defeito.

Que a decência é uma prática diária.

Que humilhar é a pior das covardias.

Que a capacidade de amar, é nata. Não depende de terceiros.

Que a beleza está na alma.

 

“A cada dia que vivo, mais me convenço de que o desperdício da vida está no amor que não damos, nas forças que não usamos, na prudência egoísta que nada arrisca, e que, esquivando-se do sofrimento, perdemos também a felicidade”.

Carlos Drummond de Andrade

QUERO – CARLOS DRUMMOND DE ANDRADE

Postado em Arte, Literatura, Poesia, Sexualidade em 21/09/2009 por David Duarte Correia Jr

Quero que todos os dias do ano
todos os dias da vida
de meia em meia hora
de 5 em 5 minutos
me digas: Eu te amo.

Ouvindo-te dizer: Eu te amo,
creio, no momento, que sou amado.
No momento anterior
e no seguinte,
como sabê-lo?

Quero que me repitas até a exaustão
que me amas que me amas que me amas.
Do contrário evapora-se a amação
pois ao não dizer: Eu te amo,
desmentes
apagas
teu amor por mim.

Exijo de ti o perene comunicado.
Não exijo senão isto,
isto sempre, isto cada vez mais.
Quero ser amado por e em tua palavra
nem sei de outra maneira a não ser esta
de reconhecer o dom amoroso,
a perfeita maneira de saber-se amado:
amor na raiz da palavra
e na sua emissão,
amor
saltando da língua nacional,
amor
feito som
vibração espacial.

No momento em que não me dizes:
Eu te amo,
inexoravelmente sei
que deixaste de amar-me,
que nunca me amastes antes.

Se não me disseres urgente repetido
Eu te amoamoamoamoamo,
verdade fulminante que acabas de desentranhar,
eu me precipito no caos,
essa coleção de objetos de não-amor.

SABEDORIA: PASSAGEM DO TALMUD

Postado em Arte, Artigos, Filosofia, Literatura, Psicanálise em 03/09/2009 por David Duarte Correia Jr
  sabedoria “Presta atenção em teus pensamentos,
pois eles se tornarão palavras
preste atenção em tuas palavras,
pois elas se tornarão atos
preste atenção em teus atos,
pois eles se tornarão hábitos,
preste atenção em teus hábitos,
pois eles se tornarão o teu caráter
preste atenção em teu caráter,
pois ele é o teu destino.”
 

POEMAS – CECÍLIA MEIRELES

Postado em Arte, Literatura, Poesia, Prosa com as tags , , , , em 19/07/2009 por David Duarte Correia Jr

 

 Cecilia Meireles

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 Canção

Pus o meu sonho num navio
e o navio em cima do mar;
- depois, abri o mar com as mãos,
para o meu sonho naufragar

Minhas mãos ainda estão molhadas
do azul das ondas entreabertas,
e a cor que escorre de meus dedos
colore as areias desertas.

O vento vem vindo de longe,
a noite se curva de frio;
debaixo da água vai morrendo
meu sonho, dentro de um navio…

Chorarei quanto for preciso,
para fazer com que o mar cresça,
e o meu navio chegue ao fundo
e o meu sonho desapareça.

Depois, tudo estará perfeito;
praia lisa, águas ordenadas,
meus olhos secos como pedras
e as minhas duas mãos quebradas.

 

Motivo
 

Eu canto porque o instante existe
e a minha vida está completa.
Não sou alegre nem sou triste:
sou poeta.

Irmão das coisas fugidias,
não sinto gozo nem tormento.
Atravesso noites e dias
no vento.

Se desmorono ou se edifico,
se permaneço ou me desfaço,
— não sei, não sei. Não sei se fico
ou passo.

Sei que canto. E a canção é tudo.
Tem sangue eterno a asa ritmada.
E um dia sei que estarei mudo:
— mais nada.

 

Discurso
 

E aqui estou, cantando.

Um poeta é sempre irmão do vento e da água:
deixa seu ritmo por onde passa.

Venho de longe e vou para longe:
mas procurei pelo chão os sinais do meu caminho
e não vi nada, porque as ervas cresceram e as serpentes
andaram.

Também procurei no céu a indicação de uma trajetória,
mas houve sempre muitas nuvens.
E suicidaram-se os operários de Babel.

Pois aqui estou, cantando.

Se eu nem sei onde estou,
como posso esperar que algum ouvido me escute?

Ah! Se eu nem sei quem sou,
como posso esperar que venha alguém gostar de mim?

 

Retrato
 

Eu não tinha este rosto de hoje,
assim calmo, assim triste, assim magro,
nem estes olhos tão vazios,
nem o lábio amargo.

Eu não tinha estas mãos sem força,
tão paradas e frias e mortas;
eu não tinha este coração
que nem se mostra.

Eu não dei por esta mudança,
tão simples, tão certa, tão fácil:
— Em que espelho ficou perdida
a minha face?

 

 

 Atitude

 

Minha esperança perdeu seu nome…
Fechei meu sonho, para chamá-la.
A tristeza transfigurou-me
como o luar que entra numa sala.

O último passo do destino
parará sem forma funesta,
e a noite oscilará como um dourado sino
derramando flores de festa.

Meus olhos estarão sobre espelhos, pensando
nos caminhos que existem dentro das coisas transparentes.

E um campo de estrelas irá brotando
atrás das lembranças ardentes.

 

Timidez
 

Basta-me um pequeno gesto,
feito de longe e de leve,
para que venhas comigo
e eu para sempre te leve…

— mas só esse eu não farei.

Uma palavra caída
das montanhas dos instantes
desmancha todos os mares
e une as terras mais distantes…

— palavra que não direi.

Para que tu me adivinhes,
entre os ventos taciturnos,
apago meus pensamentos,
ponho vestidos noturnos,

— que amargamente inventei.

E, enquanto não me descobres,
os mundos vão navegando
nos ares certos do tempo,
até não se sabe quando…

— e um dia me acabarei.

 

Depois do sol…
 

Fez-se noite com tal mistério,
Tão sem rumor, tão devagar,
Que o crepúsculo é como um luar
Iluminando um cemitério . . .
 

Tudo imóvel . . . Serenidades . . .
Que tristeza, nos sonhos meus!
E quanto choro e quanto adeus
Neste mar de infelicidades!
 

Oh! Paisagens minhas de antanho . . .
Velhas, velhas . . . Nem vivem mais . . .
— As nuvens passam desiguais,
Com sonolência de rebanho . . .
 

Seres e coisas vão-se embora . . .
E, na auréola triste do luar,
Anda a lua, tão devagar,
Que parece Nossa Senhora

Pelos silêncios a sonhar . . .

  

Pássaro
 

Aquilo que ontem cantava
já não canta.
Morreu de uma flor na boca:
não do espinho na garganta.
 

Ele amava a água sem sede,
e, em verdade,
tendo asas, fitava o tempo,
livre de necessidade.
 

Não foi desejo ou imprudência:
não foi nada.
E o dia toca em silêncio
a desventura causada.
 

Se acaso isso é desventura:
ir-se a vida
sobre uma rosa tão bela,
por uma tênue ferida.

 

É preciso não esquecer nada
 

É preciso não esquecer nada:
nem a torneira aberta nem o fogo aceso,
nem o sorriso para os infelizes
nem a oração de cada instante.
 

É preciso não esquecer de ver a nova borboleta
nem o céu de sempre.
 

O que é preciso é esquecer o nosso rosto,
o nosso nome, o som da nossa voz, o ritmo do nosso pulso.
 

O que é preciso esquecer é o dia carregado de atos,
a idéia de recompensa e de glória.
 

O que é preciso é ser como se já não fôssemos,
vigiados pelos próprios olhos
severos conosco, pois o resto não nos pertence.

FRAGMENTOS DE CLARICE LISPECTOR

Postado em Arte, Artigos, Literatura com as tags , , em 12/07/2009 por David Duarte Correia Jr

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 Temperamento impulsivo

“Sou o que se chama de pessoa impulsiva. Como descrever? Acho que assim: vem-me uma idéia ou um sentimento e eu, em vez de refletir sobre o que me veio, ajo quase que imediatamente. O resultado tem sido meio a meio: às vezes acontece que agi sob uma intuição dessas que não falham, às vezes erro completamente, o que prova que não se tratava de intuição, mas de simples infantilidade.
       Trata-se de saber se devo prosseguir nos meus impulsos. E até que ponto posso controlá-los. [...] Deverei continuar a acertar e a errar, aceitando os resultados resignadamente? Ou devo lutar e tornar-me uma pessoa mais adulta? E também tenho medo de tornar-me adulta demais: eu perderia um dos prazeres do que é um jogo infantil, do que tantas vezes é uma alegria pura. Vou pensar no assunto. E certamente o resultado ainda virá sob a forma de um impulso. Não sou madura bastante ainda. Ou nunca serei.”

Lúcida em excesso

       “Estou sentindo uma clareza tão grande que me anula como pessoa atual e comum: é uma lucidez vazia, como explicar? assim como um cálculo matemático perfeito do qual, no entanto, não se precise. Estou por assim dizer vendo claramente o vazio. E nem entendo aquilo que entendo: pois estou infinitamente maior do que eu mesma, e não me alcanço. Além do quê: que faço dessa lucidez? Sei também que esta minha lucidez pode-se tornar o inferno humano — já me aconteceu antes. Pois sei que — em termos de nossa diária e permanente acomodação resignada à irrealidade — essa clareza de realidade é um risco. Apagai, pois, minha flama, Deus, porque ela não me serve para viver os dias. Ajudai-me a de novo consistir dos modos possíveis. Eu consisto, eu consisto, amém.”.

Ideal de vida

       “Um nome para o que eu sou, importa muito pouco. Importa o que eu gostaria de ser.
       O que eu gostaria de ser era uma lutadora. Quero dizer, uma pessoa que luta pelo bem dos outros. Isso desde pequena eu quis. Por que foi o destino me levando a escrever o que já escrevi, em vez de também desenvolver em mim a qualidade de lutadora que eu tinha? Em pequena, minha família por brincadeira chamava-me de ‘a protetora dos animais’. Porque bastava acusarem uma pessoa para eu imediatamente defendê-la.
       [...] No entanto, o que terminei sendo, e tão cedo? Terminei sendo uma pessoa que procura o que profundamente se sente e usa a palavra que o exprima.
É pouco, é muito pouco.”

Escritora, sim; intelectual, não

       “Outra coisa que não parece ser entendida pelos outros é quando me chamam de intelectual e eu digo que não sou. De novo, não se trata de modéstia e sim de uma realidade que nem de longe me fere. Ser intelectual é usar sobretudo a inteligência, o que eu não faço: uso é a intuição, o instinto. Ser intelectual é também ter cultura, e eu sou tão má leitora que agora já sem pudor, digo que não tenho mesmo cultura. Nem sequer li as obras importantes da humanidade.
[...] Literata também não sou porque não tornei o fato de escrever livros ‘uma profissão’, nem uma ‘carreira’. Escrevi-os só quando espontaneamente me vieram, e só quando eu realmente quis. Sou uma amadora?
       O que sou então? Sou uma pessoa que tem um coração que por vezes percebe, sou uma pessoa que pretendeu pôr em palavras um mundo ininteligível e um mundo impalpável. Sobretudo uma pessoa cujo coração bate de alegria levíssima quando consegue em uma frase dizer alguma coisa sobre a vida humana ou animal.”

A síntese perfeita

       “Sou tão misteriosa que não me entendo.”

A certeza do divino

       “Através de meus graves erros — que um dia eu talvez os possa mencionar sem me vangloriar deles — é que cheguei a poder amar. Até esta glorificação: eu amo o Nada. A consciência de minha permanente queda me leva ao amor do Nada. E desta queda é que começo a fazer minha vida. Com pedras ruins levanto o horror, e com horror eu amo. Não sei o que fazer de mim, já nascida, senão isto: Tu, Deus, que eu amo como quem cai no nada.”

Viver e escrever

       “Quando comecei a escrever, que desejava eu atingir? Queria escrever alguma coisa que fosse tranqüila e sem modas, alguma coisa como a lembrança de um alto monumento que parece mais alto porque é lembrança. Mas queria, de passagem, ter realmente tocado no monumento. Sinceramente não sei o que simbolizava para mim a palavra monumento. E terminei escrevendo coisas inteiramente diferentes.”
       “Não sei mais escrever, perdi o jeito. Mas já vi muita coisa no mundo. Uma delas, e não das menos dolorosas, é ter visto bocas se abrirem para dizer ou talvez apenas balbuciar, e simplesmente não conseguirem. Então eu quereria às vezes dizer o que elas não puderam falar. Não sei mais escrever, porém o fato literário tornou-se aos poucos tão desimportante para mim que não saber escrever talvez seja exatamente o que me salvará da literatura.
       O que é que se tornou importante para mim? No entanto, o que quer que seja, é através da literatura que poderá talvez se manifestar.”
       “Até hoje eu por assim dizer não sabia que se pode não escrever. Gradualmente, gradualmente até que de repente a descoberta tímida: quem sabe, também eu já poderia não escrever. Como é infinitamente mais ambicioso. É quase inalcançável”.

A importância da maternidade

       “Há três coisas para as quais eu nasci e para as quais eu dou minha vida. Nasci para amar os outros, nasci para escrever, e nasci para criar meus filhos. O ‘amar os outros’ é tão vasto que inclui até perdão para mim mesma, com o que sobra. As três coisas são tão importantes que minha vida é curta para tanto. Tenho que me apressar, o tempo urge. Não posso perder um minuto do tempo que faz minha vida. Amar os outros é a única salvação individual que conheço: ninguém estará perdido se der amor e às vezes receber amor em troca [...].”

OUSADIA

Postado em Artigos, Literatura, Prosa com as tags , , , , , , , em 25/04/2009 por David Duarte Correia Jr

“Seja qual for seu sonho, comece.
Ousadia tem genialidade, poder e magia.”

Johann Wolfgang Goethe (1749-1832)

Então, falam tanto em crise, as pessoas estão endividadas, muitas nem dormem, muitas choram, se lamentam, fazem promessas, reclamam dos santos, xingam os políticos, e em grande maioria, nada fazem além de esperar , seja um milagre ou uma solução do além.

Crise é oportunidade para sair do lugar comum.

Ford percorreu vários bancos para obter um financiamento, para construir a sua linha de montagem sofreu humilhações, foi ridicularizado, ouviu tantos “não” que se fosse outro, desistiria e talvez você estivesse andando de carroça até hoje.
Santos Dumont quase morreu tentando levantar vôo, quebrou peças e costelas e não desistiu até contornar a Torre Eifel.

Dona Maria das Caçarolas, quase passou fome ao ser demitida, sem estudos, sem conhecimento de economia, montou uma barraca na rua, começou vendendo as próprias panelas de casa, hoje tem uma rede de lojas de “Houseware”.

Crise?

Tire o “s” e terá a solução imediata para os seus problemas: CRIE!

O mundo está cheio de oportunidades, não olhe para o chão, olhe para o mundo, encare a situação, perceba onde as pessoas precisam de alguma coisa nova, seja a inovação, até mesmo em coisas antigas.

Reinvente-se, tome coragem, seja ousado!

Faça um bolo e venda-o em pedaços, cate sucata e transforme em arte, limpe um gramado, crie um jardim.

Descruze os braços, pare com a choradeira, se é piedade que você quer dos outros, continue sofrendo, reclamando e falando mal do mundo.

Mas se você quer conquistar, quer sair dessa situação, você precisa só de uma coisa: BOM ÂNIMO!, DISPOSIÇÃO e muito trabalho, quando começar a conquistar, alguns vão dizer que é sorte, eu digo que é DIGNIDADE.

CRISE NUNCA MAIS, CRIE SEMPRE!

“Eu acredito em você”

POESIAS – CARLOS DRUMMOND DE ANDRADE

Postado em Arte, Literatura, Poesia com as tags , , em 10/12/2008 por David Duarte Correia Jr
 
 Carlos Drummond de Andrade
 
 
Inconfesso Desejo 

 

Queria ter coragem
Para falar deste segredo
Queria poder declarar ao mundo
Este amor
Não me falta vontade
Não me falta desejo
Você é minha vontade
Meu maior desejo
Queria poder gritar
Esta loucura saudável
Que é estar em teus braços
Perdido pelos teus beijos
Sentindo-me louco de desejo
Queria recitar versos
Cantar aos quatros ventos
As palavras que brotam
Você é a inspiração
Minha motivação
Queria falar dos sonhos
Dizer os meus secretos desejos
Que é largar tudo
Para viver com você
Este inconfesso desejo

 

As Sem-razões do Amor

Eu te amo porque te amo.
Não precisas ser amante,
e nem sempre sabes sê-lo.
Eu te amo porque te amo.
Amor é estado de graça
e com amor não se paga.
Amor é dado de graça,
é semeado no vento,
na cachoeira, no eclipse.
Amor foge a dicionários
e a regulamentos vários.
Eu te amo porque não amo
bastante ou demais a mim.
Porque amor não se troca,
não se conjuga nem se ama.
Porque amor é amor a nada,
feliz e forte em si mesmo.
Amor é primo da morte,
e da morte vencedor,
por mais que o matem (e matam)
a cada instante de amor.

 

Ausência

 Por muito tempo achei que a ausência é falta.
E lastimava, ignorante, a falta.
Hoje não a lastimo.
Não há falta na ausência.
A ausência é um estar em mim.
E sinto-a, branca, tão pegada, aconchegada nos meus braços,
que rio e danço e invento exclamações alegres,
porque a ausência, essa ausência assimilada,
ninguém a rouba mais de mim.

A ARTE DE SER FELIZ – CECÍLIA MEIRELES

Postado em Arte, Artigos, Literatura, Prosa com as tags , , , , em 09/12/2008 por David Duarte Correia Jr
Cecilia Meireles

Cecília Meireles

HOUVE um tempo em que a minha janela se abria para um chalé. Na ponta do chalé brilhava um grande ovo de louça azul. Nesse ovo costumava pousar um pombo branco. Ora, nos dias límpidos, quando o céu ficava da mesma cor do ovo de louça, o pombo parecia pousado no ar. Eu era criança, achava essa ilusão maravilhosa e sentia-me completamente feliz.

HOUVE um tempo em que a minha janela dava para um canal. No canal oscilava um barco. Um barco carregado de flores. Para onde iam aquelas flores? Quem as comprava? Em que jarra, em que sala, diante de quem brilhariam, na sua breve existência? E que mãos as tinham criado? E que pessoas iam sorrir de alegria ao recebê- las? Eu não era mais criança, porém a minha alma ficava completamente feliz.

HOUVE um tempo em que minha janela se abria para um terreiro, onde uma vasta mangueira alargava sua copa redonda. À sombra da árvore, numa esteira, passava quase todo o dia sentada uma mulher, cercada de crianças. E contava histórias. Eu não podia ouvir, da altura da janela; e mesmo que a ouvisse, não a entenderia, porque isso foi muito longe, num idioma difícil. Mas as crianças tinham tal expressão no rosto, a às vezes faziam com as mãos arabescos tão compreensíveis, que eu participava do auditório, imaginava os assuntos e suas peripécias e me sentia completamente feliz.

HOUVE um tempo em que a minha janela se abria sobre uma cidade que parecia feita de giz. Perto da janela havia um pequeno jardim seco. Era uma época de estiagem, de terra esfarelada, e o jardim parecia morto. Mas todas as manhãs vinha um pobre homem com um balde e em silêncio, ia atirando com a mão umas gotas de água sobre as plantas. Não era uma rega: era uma espécie de aspersão ritual, para que o jardim não morresse. E eu olhava para as plantas, para o homem, para as gotas de água que caíam de seus dedos magros e meu coração ficava completamente feliz.

MAS, quando falo dessas pequenas felicidades certas, que estão diante de cada janela, uns dizem que essas coisas não existem, outros que só existem diante das minhas janelas e outros, finalmente, que é preciso aprender a olhar, para poder vê-las assim.

ANALYSIS OF A MIND – SIGMUND FREUD

Postado em Filosofia, Literatura, Psicanálise, Sexualidade com as tags , , , em 01/12/2008 por David Duarte Correia Jr

O Caráter Histérico e a sua Estrutura – Tovar Tomaselli

Postado em Artigos, Filmes, Literatura, Psicanálise com as tags , , , em 23/10/2008 por David Duarte Correia Jr

Dando continuidade aos meus artigos que versam sobre “A Histeria”, procurei me ater neste trabalho, ao “caráter”, bem como à “estrutura”, pertinentes a esse quadro patológico que tanto sofrimento traz a todos aqueles que dele padecem. Aqueles que tiveram o privilégio de assistir ao filme “Freud, além da alma”, puderam observar que Theodor Meynert, professor de Freud, o chama em seu leito de morte, dizendo a ele que ele, Meynert era um homem histérico, tendo solicitado que Freud lhe atravessasse uma agulha pela perna, para demonstrar a presença de uma “anestesia  histérica”. Fica aqui a sugestão desse maravilhoso filme, onde quem interpreta Freud é Montgomery Cliff. Simplesmente imperdível ! Procurei fazer constar no artigo algumas considerações que versam sobre a histeria masculina.

Após meus outros trabalhos como “Dora e a Identificação Histérica”, “Dora, 25 anos depois”, tentei me ater, neste outro artigo, naquilo que se denomina de “caráter histérico”, bem como em relação à sua “estrutura”. Conceitos absolutamente indispensáveis para que se possa efetuar uma leitura psicanalítica baseada nas evoluções pertinentes ao construto teórico da Psicanálise contemporânea.

Quando pensamos em qualquer estrutura psicopatológica, pode-se notar que os conceitos de conduta e de estrutura, se implicam mutuamente.

Freud não se cansou de destacar a não-existência de neuroses puras, afirmando que as neuroses são mistas, e que todas elas guardam em si certo quantum de hipocondria. Então, coloca-se a questão: “Em um sujeito neurótico, todas as suas condutas são de nível neurótico ou poderemos encontrar condutas que se qualificariam como perversas ou psicóticas?”

Outra questão que se coloca: ” E, em um perverso ou mesmo psicótico, não existiriam condutas neuróticas?”

Sabemos que já em 1938, Freud explicava essa coexistência pela via da “cisão do ego”. Então, embora não existam quadros puros, ficam pendentes algumas questões:

=== em função de que parâmetros avaliamos uma conduta como neurótica, perversa ou psicótica?

=== quando e em função de que nos sentimos no direito de dizer que as condutas de um sujeito, são sinais de uma neurose ou perversão?

Tentaremos apenas encaminhar a resposta a semelhante espectro de questões, apenas com o intuito de podermos vislumbrar a complexidade do tema.

As respostas sempre terão como polaridade principal a prevalência:

1-) do tipo de conflito:

a-) ego x id ou

b-) ego x id, por um lado e ego x realidade, por outro.

2-) do nível em que se propõe o conflito:

a-) edípico

b-) narcisista e pré-edípico

c-) ambos

3-) do grau de afastamento da realidade, da defesa empregada e do modo de restituir o rechaçado da realidade.

4-) do grau de aceitação, desafio ou rechaço da lei e da função paterna.

5-) da área e do modo como se manifesta a sexualidade infantil que demanda ser satisfeita.

6-) da fixidez, estereotipia e exclusividade na maneira de se relacionar com os objetos ou com o objeto sexual.

7-) de uma valorização sexual que brota de uma ideologia preconceituosa e, às vezes, compartilhada pela maioria.

Queremos ressaltar que esta classificação foi retirada do trabalho de H. Mayer, denominado “A Histeria”.

Retomamos agora a mais simples idéia sobre o que seria a estrutura de caráter, fazendo notar, que quando a ela se referir, estamos aludindo aos mecanismos habituais, aos quais apela o aparelho psíquico de um sujeito em sua tentativa  para resolver os seus conflitos psíquicos, os quais são geradores de angústia.

Através de uma vertente teórico-clínica, podemos notar que quando a angústia é muito intensa, bem como quando os mecanismos se mostram insuficientes, recorre-se inconscientemente a operações mentais como, por exemplo: a atuação, o sintoma ou a uma exacerbação dos traços de caráter acompanhada sempre de uma intensa rigidez, vindo a configurar uma espécie de “couraça defensiva”.

Note-se que mesmo quando falamos em mecanismos psicopáticos, neuróticos ou mesmo caracteropáticos, o mais importante a assinalar é que eles têm em comum sempre “o conflito”, cujas raízes residem no inconsciente, e às quais só teremos acesso através do trabalho analítico.

A Teatralidade, o exibicionismo e a sedução

Comumente esses traços são conhecidos como “histrionismo histérico”. Notamos que essas pessoas precisam mostrar-se, exibir-se, através de uma representação da qual não são sequer conscientes. Aqui, a pergunta que se coloca é: “O que representam?” Diríamos que uma trama na qual são encenados os proibidos desejos sexuais da infância.

Fenomenologicamente, então, estaríamos diante de uma menina, fortemente apegada à figura dos pais, a qual luta para vir a ser o par tanto da mãe, como do pai. Desse apego, resultaria a sua dúvida eterna sobre a sua identidade sexual. Na verdade, ela “representa ser uma mulher”, e tem como angústia a diferença sexual anatômica, a qual é interpretada por ela como a castração. Dessa representação, resultaria uma hiperfeminilidade. O que lhe interessa é despertar o desejo de um homem, muito mais do que alcançar o prazer sexual com um companheiro. Sabemos, através da clínica, que o homem que representa o seu companheiro ideal, será aquele fixado a uma mãe fálica.

Essa aproximação só ocorrerá uma vez que no curso da sedução exibicionista, esse homem deverá, através de seu desejo, confirmá-la como mulher, enquanto o que ele busca é ser confirmado em sua virilidade por esta “supermulher”, a qual representa a mãe idealizada, com quem desejara fundir-se na sua infância. Como uma decorrência de caráter, praticamente geral, nestes casos, sabemos que o ato sexual, se ocorrer, implicará numa mútua decepção. A mulher acreditará que está sendo usada como sendo um objeto sexual, e ele que a sua capacidade viril não está sendo suficiente para fazer gozar e deixar satisfeita uma mulher. Em outras palavras, ela se sente inferiorizada (castrada), e ele um menino impotente.

O encanto da fantasia é que ela, a mulher histérica, consegue ser o objeto de amor de um “pai idealizado”. Na verdade, tratam-se de sujeitos que sofrem uma realidade e que sonham acordados com uma outra realidade mais complacente, onde os desejos parecem cumprir-se de forma mágica. Quando o princípio da realidade  se apresenta tão subjugado pelo princípio do prazer, nas áreas em que isso ocorre, a passividade – motriz – contrasta com a força dos afetos que podem dar crédito às suas crenças fantasiosas. É nesse exato momento que alguns autores, destacam a existência da “mitomania”, como um traço de caráter histérico.

Notemos que, através da conversão, fenômeno típico da histeria, o corpo aparece como o lugar em que se expressa aquilo que a censura impede que seja pronunciado através das palavras. (“Quando um indivíduo se cala, ele fala pela ponta dos dedos.” S. Freud) Devemos entender e pensar o corpo da histérica, como sendo plenamente preenchido por metáforas, as quais serão necessárias vir à luz, e através do trabalho analítico.

Podemos inferir que a histérica foi amada por seus pais, não apenas de uma forma narcisista, isto é, que em certa medida desenvolveu seu Complexo de Édipo, e que, também descobriu e aceitou a castração materna, bem como a sua própria, vindo a desejar, assim, que o pai lhe dê o falo que lhe falta.

Será que poderíamos, então, falar de um “pai fálico da histérica”? Se não exatamente fálico, verdade é que se trata de um pai extremamente idealizado. É um pai para o qual se dirige toda a sedução infantil. Ou seja, para um pai e uma filha ou para uma mãe e um filho, o que sabemos é que: “A barreira do incesto nunca é tão frágil como aqui.”(na Histeria). Queremos deixar claro que  o desejo incestuoso e a sua repressão não são, por certo, privativos da histeria, mas na histeria se fazem presentes de maneira singular.

A sedução infantil, ou seja, a mútua sedução incestuosa, se constitui em um  ponto de fixação ao qual a fantasmagoria inconsciente resistirá a renunciar pelo resto da vida. Aqui, colocamos a pergunta para que se possa refletir: “Que satisfação sexual pode um simples homem procurar dar a uma mulher histérica, considerando a existência de um rival fantasmático tão poderoso?”

Algumas características sobre a tipologia histérica

=== A Ingenuidade:

A histérica tende a impressionar o outro quer do ponto de vista estético, quanto do ponto de visa do desejo sexual. Sabemos que isso que lhe dá esse ar de ingenuidade, ou ainda de ser possuidora de um “infantilismo emocional”, o qual, via de regra, é assinalado pelos autores que se dedicam à histeria. Sabemos que se a paciente pudesse tomar conhecimento disso, seria tomada por uma corrente de angústia e culpa, as quais inundariam o ego. A forma utilizada pelo psiquismo para que isso não ocorra, é fazer uso da “repressão”.

No que tange ao Complexo de Édipo, atualmente não mais poderíamos situar os impulsos reprimidos da histeria, somente referentes ao Édipo positivo. Estaríamos diante de uma visão míope da realidade, depois que Freud retificou a sua interpretação do Caso Dora, depois de ter descrito em 1923, o Complexo de Édipo completo. Também recebemos a informação da Clínica, a qual nos mostra incessantemente, a importância do vínculo homossexual na histeria.

=== O Infantilismo

Com esse termo, comumente são descritos uma série de traços habituais pertinentes ao caráter histérico, a saber: o egocentrismo, dependência de certos personagens idealizados, sugestionabilidade, ingenuidade, frigidez ou graus diversos de inibição genital, etc. Assim, costuma-se dizer que “A mulher histérica seduz e frustra”.

Segundo Lucien Israel: “não é uma mulher qualquer que se proponha consciente ou inconscientemente a “castrar” homens. O que devemos considerar é que por traz desse protótipo de mulher se evidencia, a existência de uma menina desvalorizada, que luta desesperadamente para alcançar o amor parental que lhe falta como filha.

Trata-se de uma evidência que verificamos na clínica que  o complemento dessa mãe que só reclama de ser mulher, é um pai submisso e dependente, o qual busca compensar essa humilhação, através da filha a quem manifesta, ou latentemente erotiza, reforçando suas fantasias dela transformar-se em sua parceira. Muitas vezes, o medo de entregar-se a um homem que pode abandoná-la é tal que provoca uma dissociação. Estabelece com o cônjuge com o qual está sexualmente insatisfeita, uma espécie de vínculo terno e dependente, enquanto coloca a satisfação sexual ou em um vínculo imaginário ou atual, mas fora da relação conjugal.

=== A Necessidade de Perfeição

Encontramos nas roupas, maquiagem, perfumes e até na companhia de um homem excepcional. Essa necessidade ficaria atribuída ao fato de que desde a sua posição infantil, teria interpretado a ausência do pênis como sendo uma “falta” humilhante e inaceitável. O vetor resultante dessa insatisfação seria uma busca compulsiva em todos os campos de atividades: físico, intelectual, cultural, etc. Contudo, sabemos que persistirá a eterna dúvida sobre o que lhe é próprio. Na comparação, as outras sempre serão mais belas, terão melhores condições de vida, o que vai “corroendo o seu templo narcisista”. Se está segura de algo é de não ter nunca escolhido suficientemente bem.

Lucien Israel nos diz: “Qual o vazio que, para a histérica, deve ser preenchido pelo homem?”… “Assim, deve ser mais forte e mais potente que o pai. O amo e senhor que atende o desejo da histérica: encontrar um mestre”.

Porém, é impossível para qualquer homem preencher esse vazio, sendo que: “O mestre, como todos os demais decepcionam a histérica. A decepção, insatisfação, se transformam em uma necessidade (…), a tal ponto que podemos acabar nos perguntando se o maior desejo da histérica, não consiste justamente em conservar intacto seu desejo, tendo que por isso, acumular fracassos e decepções”.

Só gostaríamos de citar, reforçando a importância dessa temática que W. Reich, em 1926, teria descrito como se tratando de um “caráter fálico-narcisista”. Encontramos dentro desse tipo caracterológico, várias formas ativas de homossexualidade masculina, bem como feminina, formações paranóicas e distintas perversões sexuais, sempre com um importante componente sádico.

=== Frieza emocional, Dissociação Afetivo-Sexual e Inibição Genital

Notamos, através de uma análise da literatura correspondente, uma preferência pelo termo “inibição genital”, como uma forma de referência à inibição sexual parcial, seletiva, etc. Sabe-se que a inibição por si só, não explica tudo o que ocorre, pois encontramos mulheres que atingem o orgasmo, mas que durante o coito e/ou depois dele, permanecem frias com relação ao homem, e tendem a “fugir” da cama; se deprimem; se mostram queixosas, ou ainda se afastam sob qualquer pretexto. Outras tantas são insensíveis com o marido e alcançam a plenitude do orgasmo em uma relação extra-conjugal esporádica ou mesmo de caráter permanente. Esses fatos conjugados nos levam a pensar que devemos considerar em conjunto a inibição sexual e a dissociação afetivo-sexual.

Ainda citando Lucien Israel, “a obtenção do orgasmo para a histérica, seria a morte”, “a  morte do desejo que faz diminuir a tensão.” Explica o citado autor: “essa atitude da histérica pode ser atribuída à necessidade de manter uma relação clandestina, na fantasia ou na realidade, com um representante paterno, ao mesmo tempo desejado e proibido, como sendo um sintoma que expressa a consumação e a punição frente ao cumprimento de um desejo condenado pelo Ideal, ou mesmo que expressa uma medida preventiva para a não realização de tal desejo”.

Da “novela familiar” da histérica, depreendemos que sua mãe não é consciente do mal que faz à filha, ao mostrar-lhe uma imagem denegrida do pai, ao mesmo tempo em que se apresenta como sendo a “vítima” desse marido. Assim, a filha adivinha e sofre o repúdio de sua identidade sexual por parte da mãe que a “ajudará” a construir um ideal inatingível: “O príncipe azul”, o mestre, como um ideal narcisista sim, porém também inatingível.

Da mesma maneira a menina é seduzida pelo pai, que estimula na filha a condição feminina. Sabemos que o pai da histérica está insatisfeito (sobretudo na sua auto-estima), e a sedução já não mais poderíamos colocá-la só entre aspas, uma vez que se encontra desprovida de uma “intermediação simbólica”.

Apenas algumas considerações sobre a Histeria Masculina

O caráter histérico masculino não difere muito do feminino. Sabemos que o homem histérico quer seduzir, ser amado por todos e não pode escolher, uma vez que se assim proceder, terá que renunciar a todo o resto, sendo que ele não se permite perder nada. Tem uma extremada necessidade de agradar para ser “confirmado” pelo desejo do outro. Quer para si, ser o ponto de condensação dos desejos dos demais— o filho único e maravilhoso— o homem histérico tem tanta insegurança quanto à sua identidade sexual, como a mulher histérica.

Tem uma necessidade ímpar de se apresentar como “superviril” (super-carros; super-mulheres, etc), como uma forma de obtenção fantasiosa de que todos o desejem. Como complemento desse estado de coisas, dessa ostentação machista que se rebelará a mulher histérica, adotando uma atitude frustradora em relação a ele.

Para Lucien Israel: “A relação amorosa entre dois histéricos é uma interminável disputa, ou mesmo uma representação tragicômica”. No homem a angústia de castração, aparece mais diretamente como síndromes de angústia, ou mesmo em virtude de certos deslocamentos, como pequenas ou grandes fobias. Sabemos, através da clínica que são menos freqüentes, mas existem também a presença de sintomas conversivos. Encontramos aqui uma supervalorização do pênis, equiparando-o ao falo. Notamos que o homem histérico sempre quer ser o melhor e o único, o que significaria que não superou a rivalidade com os pais, nem seu temor à punição pelos seus desejos sexuais proibidos.

De uma maneira geral, o pai frágil ou mesmo despótico, teria sido inseguro no exercício da lei. De qualquer forma, ao menino fica faltando a proteção paterna, a qual debilita a periculosidade que atribui aos seus desejos infantis.
Como complemento de um pai com estas características, encontraremos uma mãe que— sutil ou manifestamente— o desqualifica como homem. E, esta mesma mãe poderá seduzir o filho em maior ou menor grau, porém o fará sempre com um objetivo narcisista, faltando-lhe o verdadeiro amor de mãe, ou seja: o “amor terno”. O que deve, entre outras tantas coisas ser trazido à tona, através de um trabalho de análise é que, por traz de um homem histérico, portador de sua impotência, haveria nele uma maior necessidade da obtenção de ternura, do que propriamente de um amor genital .

 

Tovar Tomaselli
Psicólogo Clínico-Psicanalista-Prof.universitário

Freud – Além da Alma

Postado em Filosofia, Literatura, Psicanálise, Uncategorized com as tags , , , , em 08/10/2008 por David Duarte Correia Jr

O abutre de Kafka e o Prometeu moderno – Marcia Tiburi

Postado em Artigos, Filosofia, Literatura com as tags , , , em 31/08/2008 por David Duarte Correia Jr

Num pequeno conto chamado “O abutre”, das Narrativas do espólio, de Kafka (na invulgar tradução de Modesto Carone), o narrador conta, em primeira pessoa, que um abutre, após bicar suas botas e meia, estraçalhava-lhe os pés. Outro homem, ao ver a cena, perguntou-lhe por que permitia a ação do abutre. O narrador apenas pode informar que estava indefeso, que após enxotá-lo, e até tentar enforcá-lo, decidiu sacrificar-lhe os pés no lugar do rosto primeiramente almejado pelo abutre. O homem, indignado com o fato de que alguém se deixasse torturar daquela maneira, sugeriu buscar sua espingarda em casa para dar um tiro no animal. Demoraria uma meia hora, tempo que o sujeito dos pés carcomidos não sabe se suportaria. Sem ter nada a perder, aceitou a oferta de ajuda. Enquanto isso, conta-nos o narrador, o abutre escutou calmamente a conversa entre os dois entendendo tudo o que conversavam entre si:  “(…) levantou vôo, fez a curva da volta bem longe para ganhar ímpeto suficiente e depois, como um lançador de dardos, arremessou até o fundo de mim o bico pela minha boca. Ao cair para trás, senti, liberto, como ele se afogava sem salvação no meu sangue, que enchia todas as profundezas e inundava todas as margens“.

Kafka

Kafka

 

Talvez esse tenha sido um pesadelo de Kafka. Não importa. É dos contos mais enigmáticos que se pode ler. Evidente surrealismo que nos faria simplesmente admirar a idéia na contramão do real, o conto, no entanto, carrega uma pista simbólica que não pode ser deixada de lado na análise daquilo que nos impele a agir. Também Prometeu, no mito fundador da relação entre o homem ocidental e o conhecimento, teve um de seus órgãos, o fígado, carcomido pela eternidade por um abutre. Pagou pelo seu feito. Prometeu foi punido pelos deuses do Olimpo, por ter dado aos homens o fogo, em seu caráter altamente simbólico de alcance do conhecimento. O homem de Kafka, no entanto, não pode ser punido por nada porque não fez nada a ninguém. Não pode ser acusado não apenas porque sendo moderno já não é controlado pelos deuses nem conhece a eternidade, mas porque está só em seu sofrimento. A culpa objetivamente não existe, talvez pese fantasmagoricamente sobre o sujeito causando-lhe a dor. O conto, porém, não nos informa sobre nada disso. Só o que sabemos é que ele não pode fazer nada, está indefeso. Indignados como o homem da espingarda, este outro civilizado que nos habita, perguntamo-nos, por quê? A resposta está ali. Após tentativas de escapar, até a tentativa de enforcar o animal, sucumbe-se à sua força. O abutre é mais forte do que o homem e, por isso, este é carcomido por aquele e não, obviamente, o contrário. O homem nem pode sofrer de solidão, pois desde sempre está acompanhado pelo abutre. Seria o abutre um emblema da melancolia que da punição de Prometeu com a angustiante prisão no abismo ao homem encurralado de Kafka, não cessa seu gesto de tortura da qual é impossível fugir? Talvez o abutre seja o emblema de todo o sofrimento que acompanha o homem e que jamais permitirá que ele viva só. É o sofrimento que nos vigia e que se apresenta com a única e incontornável solução que se apresenta, ontem como hoje, como pergunta: por quê?
     
É a relação entre a força do abutre e a fraqueza do homem que sinaliza o ensinamento do conto em seu caráter de fábula deixado, por Kafka, à interpretação de seu leitor. Sabemos que as Narrativas do Espólio não deviam ser publicadas, e, por isso, esse leitor não estava, para ele, de modo algum, sacramentado. Pertencem-nos apenas pelo caráter clandestino do fado que ousa interromper o desejo de qualquer um. Não é menor a clandestinidade daquilo que ele nos revela e que reside no homem como uma interrupção de tudo o que ele projetou para si em termos de felicidade, conquista do sucesso, realização, satisfação. O abutre não é apenas a incapacidade de ser feliz ou a vigilância que o nosso próprio sofrimento, tão atuante quanto o desejo, opera sobre nós. Ele não é apenas a figura da desgraça que nos abate. Ele é a confusa performance da impotência da ação que se apresenta mais forte do que toda a nossa capacidade de agir.
     
“O abutre”, de Kafka é nosso. Ele nos coloca diante do desenho completo que carrega o enigma da inação. Se os personagens de Kafka representam uma alegoria, ela diz respeito ao que em nós desiste de agir por impotência enquanto um outro, sabendo o que deve ser feito, possuindo uma arma redentora, vai a buscar socorro sem nunca voltar. Ambos os personagens falam da condição humana. Do ser humano que entregue às próprias tentativas e esperanças é sempre por último observado pelo que nele há de mais forte, a sua própria impotência.
        
Enquanto é observado pelo próprio princípio do mal que tem olhos só para si, nele se opera o seu próprio reconhecimento na satisfação de que, por fim, tudo encontre alento pelo simples fato de que somos um com ele. O abutre que hoje age sobre as bases (o abutre carcome nossos pés com os quais poderíamos ir a algum lugar; ontem, carcomia o fígado, órgão que produzia a bile e, em seu negror, a melancolia) morre, como no homem de Kafka, por seu próprio gesto capaz de ir ao mais fundo de nós. Aquilo que nos carcome é o que nos olha entendendo todos os acordos que possamos fazer para derrotá-lo. É aquilo que tendo o máximo poder sobre nós se afoga em nosso próprio sangue. Está em nós e inundou todas as nossas margens.
           
Derrotar o abutre é derrotar a si mesmo. A inação do homem, sua incapacidade de fazer um mundo diferente – mais justo, menos violento – deveria ser usada a seu favor, como resistência. A inação do homem também nos ensina que o abutre pode ser morto. Ainda que o carreguemos como parte do líquido da vida e fiquemos mancos para sempre. Tal é a potência dúplice da ação: é preciso fazer, é preciso resistência, mas é igualmente preciso entender a força da impotência

O Estrangeiro – Albert Camus

Postado em Artigos, Filosofia, Literatura com as tags , , , em 31/08/2008 por David Duarte Correia Jr

Albert Camus

Albert Camus

Este livro, de pouco mais de 100 páginas, escrito pelo então jornalista franco-argelino Albert Camus, é considerado uma das obras-primas do Existencialismo francês. Nele, Mersault, o personagem central, age com aparente frieza diante dos fatos, incluindo a morte da mãe, narrada logo na abertura da história da seguinte maneira: “Hoje mamãe morreu. Ou talvez, ontem, não sei bem. Recebi um telegrama do asilo: “Sua mãe faleceu. Enterro amanhã. Sentidos pêsames”. Isso não esclarece nada. Talvez tenha sido ontem”.
Indiferente, pessimista, Mersault tem muito do próprio Camus. Nascido em Mondovi, Argélia, de humilde família francesa, o jovem começou a trabalhar como jornalista e ator, em 1940 participou da resistência contra a invasão alemã de Paris e em dois anos depois se consagrou com a publicação de O Estrangeiro, romance curto e intenso, que, somado ao sucesso de A Peste, de 1947, o revelou como um dos grandes escritores de sua época.

O estrangeiro, que se passa na Argélia, é simplesmente a história de um homem que vaga à procura do nada, indiferente à dor que o destino pode lhe reservar. Mais do que isso: totalmente receptivo a essa dor.

Vencedor do Prêmio Nobel de Literatura de 1957, Camus morreu três anos depois, em um misterioso acidente de carro, que, suspeita-se, tenha sido provocado intencionalmente por ele mesmo.

Um Sopro de Vida – Clarice Lispector

Postado em Artigos, Crônicas, Literatura com as tags , , em 31/08/2008 por David Duarte Correia Jr
Clarice Lispector

Clarice Lispector

“Tenho medo de escrever. É tão perigoso. Quem tentou, sabe. Perigo de mexer no que está oculto – e o mundo não está à tona,está oculto em suas raízes submersas em profundidades do mar. Para escrever tenho que me colocar no vazio. Nesse vazio terrivelmente perigoso: dele arranco sangue. Sou um escritor que tem medo da cilada das palavras: as palavra que digo escondem outras – quais? Talvez as diga. Escrever é uma pedra lançada no poço fundo.”

Juízo Final – Nelson Rodrigues

Postado em Artigos, Crônicas, Literatura com as tags , , , em 31/08/2008 por David Duarte Correia Jr
Nelson Rodrigues

Nelson Rodrigues

“Se o homem soubesse amar não elevaria a voz nunca, jamais discutiria, jamais faria sofrer. Mas ele ainda não aprendeu nada. Dir-se-ia que cada amor é o primeiro e que os amorosos dos nossos dias são tão ingênuos, inexperientes, ineptos, como Adão e Eva. Ninguém, absolutamente, sabe amar. D. Juan havia de ser tão cândido como um namoradinho de subúrbio. Amigos, o amor é um eterno recomeçar. Cada novo amor é como se fosse o primeiro e o último. E é por isso que o homem há de sofrer sempre até o fim do mundo – porque sempre há de amar errado.”

Morrer com o ser amado – 1968

Frases e pensamentos de Arthur Schopenhauer

Postado em Filosofia, Literatura, Psicanálise com as tags , , , em 30/08/2008 por David Duarte Correia Jr

Arthur Schopenhauer
Arthur Schopenhauer

 O amor é a compensação da morte.

 A riqueza é como a água salgada: quanto mais se bebe, mais sede se tem.

 Só existe uma criatura falsa: o homem.

 A fé é como o amor: não há nada que a force.

 A intuição não é uma opinião, é a própria coisa.

 Embora sejam muitas as coisas más deste mundo, a pior dentre todas é a sociedade.

 É preciso ter vivido muito tempo para reconhecer como é breve a vida.

 Quem deseja. Quem vive deseja. A vida é dor.

 Geralmente as grandes paixões nascem com o primeiro olhar.

 Perdoar e esquecer significa significa atirar pela janela uma preciosa experiência.

 A glória rapidamente conquistada, rapidamente também se perde. 

 A polidez é para a natureza humana o que é o calor para a cera.

 Para não chegarmos a ser muito infelizes, basta que não desejemos ser muito felizes.

 O que é a chuva para o fogo, é a piedade para a cólera.

 As religiões são como vagalumes: precisam das trevas para esplender.

 A beleza é uma carta aberta de recomendação.

 Os caprichos nascem da imposição da vontade sobre o conhecimento.

 Um homem é um pouco inferior ao tigre e a hiena em crueldade e selvageria.

 O cérebro do homem é mais terrível que a garra do leão.

 Em geral chamamos de destino às asneiras que cometemos.

 Não amar e não odiar é a metade da sabedoria. A outra metade é nada dizer e nada acreditar.

 A arquitetura é uma música petrificada.

 Por sabedoria entendo a arte de tornar a vida o mais agradável e feliz possível.

 O cigarro é o substituto voluntário do pensamento.

 É muito fácil ser extremamente infeliz; e não é difícil, é inteiramente impossível ser feliz.

 O louco corre pelos prazeres da vida e colhe decepções; o prudente limita-se a evitar os males.

 Os homens são, em geral, tão pessoais que no fundo nada lhes interessa mais que eles próprios.

 O gênio e o louco num ponto se assemelham: ambos vivem em um mundo diferente daquele em que vivem os outros mortais.

Os primeiros quarenta anos de vida nos dão o texto; os próximos trinta fornecem o comentário.

O homem mais feliz é aquele que vive a vida sem dores muito grandes quer no físico, quer no moral, e não aquele que desfruta as alegrias mais vivas ou os prazeres mais intensos.

Somente o presente é verdadeiro e real. O presente é o tempo realmente pleno e sobre ele repousa exclusivamente a nossa existência.

 

 

 

 

 

Frases e pensamentos de Friedrich Nietzsche

Postado em Artigos, Literatura, Psicanálise com as tags , , , , em 30/08/2008 por David Duarte Correia Jr
Friedrich Nietzsche

Friedrich Nietzsche

Falando francamente, por vezes é necessário irritarmo-nos para que as coisas corram bem.

 O inimigo mais perigoso que você poderá encontrar será sempre você mesmo.

 Viver quer dizer ser cruel e implacável contra tudo o que em nós se torna fraco e velho

 Mentimos com a boca, mas os gestos denunciam a verdade.

 O mais valoroso dentre todos nós raras vezes tem o valor de afirmar tudo o que sabe.

 Somos muito injustos com Deus. Não Lhe permitimos nem pecar.

 A mulher foi o segundo erro de Deus.

 Quanto mais inteligente a mulher, tanto mais se afasta o homem.

 Não dou esmolas; para isso não sou bastante pobre.

 A felicidade é mulher.

 O que maior punição nos atrai são as nossas virtudes.

 Em geral, as mães, mais que amar os filhos, amam-se nos filhos.

 Nunca odiamos aos que desprezamos. Odiamos aos que nos parecem iguais ou superiores a nós.

 A profissão é a espinha dorsal da vida.

 Há sempre algo de demência no amor. Mas também na demência há algo de razão.

 Não é a força do sentimento elevado, é a sua duração que faz os homens superiores.

 Abençoados os que têm sono, pois não tardarão em dormir.

 Odeio as almas estreitas, sem bálsamo e sem veneno, feitas sem nada de bondade e sem nada de maldade.

 Toda virtude tem seus privilégios: por exemplo, o de levar seu próprio feixezinho de lenha para a fogueira do condenado.

 A vantagem de ter péssima memória é divertir-se muitas vezes com as mesmas coisas boas como se fosse a primeira vez.

 Não pretendo ser feliz, mas verdadeiro.

 Uma sociedade onde a corrupção se instala é acusada de abandono, de fato o prestígio da guerra e do entusiasmo marcial sofrem baixa visível; aspira-se aos prazeres da existência com tanto ardor quanto aqueles antigamente posto em conquistar honras militares.
Mas os observadores talvez tenham negligenciado o fato dessa antiga energia, antiga paixão pela nação, que a guerra e torneios punham em tão pomposa evidência, transformou-se numa infinidade de paixões privadas e limitou-se a se tornar menos visível, que digo eu?
É até provável que no estado de ‘corrupção’ sejam dispendidas uma força, uma violência energética muito maiores que nunca pela nação e que o indivíduo desperdice essa energia com muito maior prodigalidade do que podia fazer anteriormente, quando não tinha suficiente riqueza!.
Precisamente nas épocas de ‘abandono’ é que, portanto, a tragédia corre as ruas e as coisas, que se vê nascer o grande amor, o grande ódio e a chama do acontecimento esbraseia no céu.

 Rir é ser malicioso com boa consciência.

 Entre os ricos a liberdade é uma espécie de timidez.

 Hoje é pobre, mas não porque lhe tenham tirado tudo, sim pela recusa de tudo. Que lhe importa?! Está habituado a encontrar. Os pobres compreendem mal sua voluntária pobreza.

 Nossos pensamentos são as sombras de nossos sentimentos – sempre mais obscuros, mais vazios, mais simples que estes.

 Quando o reconhecimento de um grande número por um único repele qualquer espécie de pudor, a glória começa a nascer.

 É necessário saber dissimular com as pessoas que têm vergonha de seus sentimentos; concebem um ódio repentino pela pessoa que as apanha em flagrante delito de ternura, de entusiasmo ou de nobreza como se seu santuário secreto tivesse sido violado.
Se quereis ser-lhes benéficos nesse momento, fazei-as rir ou tratai de lhes sugerir, brincando, alguma fria maldade: seu humor gela e dominam-se. 

 Qualquer grande homem possui força retroativa: força a reconsideração da totalidade da história; milhares de segredos do passado saem de seus esconderijos para se iluminarem à sua luz. Ninguém pode prever o que acontecerá a história. Essencialmente, o passado talvez ainda continue por ser explorado! Necessitamos ainda tantas forças retroativas!

 O amor perdoa mesmo o desejo do ser amado.

 As explicações místicas são consideradas profundas. Na verdade falta-lhes ainda muito para que sejam superficiais.

 Quem possui até o presente a eloquência mais convincente?
O rufar do tambor, enquanto os reis o tiverem sob o poder serão os melhores agitadores populares.

 A maneira mais pérfida de prejudicar uma causa é defendê-la intencionalmente com más razões.

 É um pensador: isto quer dizer que se empenha em tomar as coisas com maior simplicidade que realmente contém.

 Nenhum vencedor acredita no acaso.

 O que nós fazemos nunca é compreendido, apenas louvado ou condenado.

 Quando amamos, queremos que nossos defeitos permaneçam ocultos, não por vaidade, mas porque o objeto amado não deve sofrer. Sim, aquele que ama desejaria aparecer como um deus, e isto não por vaidade.

 Já dei tudo. Nada me resta de tudo quanto tive, exceto tu, esperança!

 Eu também quero a volta à natureza. Mas essa volta não significa ir para tráz, e sim para a frente.

 Não existe, na realidade, entre a religião e a ciência nem parentesco, nem amizade, nem inimizade: elas vivem em esferas diferentes.

 A vaidade alheia só nos é antipática quando vai de encontro a nossa.

 A independência é o privilégio dos fortes, da reduzida minoria que tem o calor de auto-afirmar-se. E aquele que trata de ser independente, sem estar obrigado a isso, mostra que não apenas é forte mas também possuidor de uma audácia imensa. Aventura-se num labirinto, multiplica os mil perigos que implica a vida; se isola e se deixa arrastar por algum minotauro oculto na caverna de sua consciência. Se tal homem se extinguisse estaria tão longe da compreensão dos homens que estes nem o sentiriam nem se comoveriam em absoluto. Seu caminho está traçado, não pode voltar atrás, nem sequer lograr a compaixão dos seres humanos.

 Odeio quem me rouba a solidão sem em troca me oferecer verdadeira companhia.

É necessário ter o caos cá dentro para gerar uma estrela.

E aqueles que foram vistos dançando foram julgados insanos por aqueles que não podiam escutar a música.

CITAÇÕES – CLARICE LISPECTOR

Postado em Literatura com as tags , , em 30/08/2008 por David Duarte Correia Jr
Clarice Lispector

Clarice Lispector

CITAÇÕES

“Aliás – descubro eu agora – eu também não faço a menor falta, e até o que escrevo um outro escreveria.”
A hora da estrela

“Onde aprender a odiar para não morrer de amor?”
Laços de família

“Não é que vivo em eterna mutação, com novas adaptações a meu renovado viver e nunca chego ao fim de cada um dos modos de existir. Vivo de esboços não acabados e vacilantes. Mas equilibro-me como posso, entre mim e eu, entre mim e os homens, entre mim e o Deus.”
Um sopro de vida

“É curioso como não sei dizer quem sou. Quer dizer, sei-o bem, mas não posso dizer. Sobretudo tenho medo de dizer porque no momento em que tento falar não só não exprimo o que sinto como o que sinto se transforma lentamente no que eu digo.”
Perto do coração selvagem

“Talvez a pergunta vazia fosse apenas para que um dia alguém não viesse a dizer que ela nem ao menos havia perguntado. Por falta de quem lhe respondesse ela mesma parecia se ter respondido: é assim porque é assim.”
A hora da estrela

“E de tal modo haviam se disposto as coisas que o amor doloroso lhe pareceu felicidade.”
Laços de família

“Quem não é um acaso na vida?”
A hora da estrela

“Isto não é um lamento. É um grito de ave de rapina, irisada e intranqüila.”
Um sopro de vida

“Com Deus a gente também pode abrir caminho pela violência. Ele mesmo quando precisa mais especialmente de um de nós, Ele nos escolhe e nos violenta.”
A paixão segundo G.H.

“Só quem guarda as armas a chave é quem receia atirar sobre todos.”
Perto do coração selvagem

“Nem todos chegam a fracassar porque é tão trabalhoso, é preciso antes subir penosamente até enfim atingir a altura de poder cair.”
A paixão segundo G.H.

“Sua sensibilidade incomodava sem ser dolorosa, como uma unha quebradiça.”
Laços de família

“Abandone-se, tente tudo suavemente, não se esforce por conseguir – esqueça completamente o que aconteceu e tudo voltará com naturalidade.”
Laços de família

“O cacto é cheio de raiva com os dedos todos retorcidos e é impossível acarinhá-lo. Ele te odeia em cada espinho espetado porque dói-lhe no corpo esse mesmo espinho cuja primeira espetada foi na sua própria grossa carne. Mas pode-se cortá-lo em pedaços e chupar-lhe a áspera seiva: leite de mãe severa.”
Um sopro de vida

“Quem sabe a que escuridão de amor pode chegar o carinho.”
Laços de família

“Não se pode dar uma prova de existência do que é mais verdadeiro, o jeito é acreditar. Acreditar chorando.”
A hora da estrela

“Oh Deus, eu que faço concorrência a mim mesma. Me detesto. Felizmente os outros gostam de mim. É uma tranqüilidade.”
Um sopro de vida

“Enquanto eu tiver perguntas e não houver respostas continuarei a escrever.”
A hora da estrela

“A eternidade é o estado das coisas neste momento.”
A hora da estrela

“Escrevo por ter nada a fazer no mundo: sobrei e não há lugar para mim na terra dos homens.”
A hora da estrela

“Eu nunca fui livre na minha vida inteira. Por que dentro eu sempre me persegui. Eu me tornei intolerável para mim mesma.”
Um sopro de vida

“Ser um ser permissível a si mesmo é a glória de existir.”
Um sopro de vida

“Perder-se significa ir achando e nem saber o que fazer do que se for achando.”
A paixão segundo G.H.

“Tudo o que poderia existir, já existe. Nada mais pode ser criado senão revelado.”
Perto do coração selvagem

“Vida e morte foram minhas, e eu fui monstruosa, minha coragem foi a de um sonâmbulo que simplesmente vai.”
A paixão segundo G.H.

LOUCOS E SANTOS – OSCAR WILDE

Postado em Artigos, Literatura com as tags , , em 30/08/2008 por David Duarte Correia Jr
Oscar Wilde

Oscar Wilde

 

“Escolho meus amigos não pela pele ou outro arquétipo qualquer,
mas pela pupila.
Tem que ter brilho questionador e tonalidade inquietante.
A mim não interessam os bons de espírito nem os maus de hábitos.
Fico com aqueles que fazem de mim louco e santo.
Deles não quero respostas, quero meu avesso.
Que me tragam dúvidas e angústias e agüentem o que há de pior em mim.
Para isso, só sendo louco.
Quero os santos, para que não duvidem das diferenças
e peçam perdão pelas injustiças.
Escolho meus amigos pela cara lavada e pela alma exposta.
Não quero só o ombro ou o colo, quero também sua maior alegria.
Amigo que não ri junto não sabe sofrer junto.
Meus amigos são todos assim: metade bobeira, metade seriedade.
Não quero risos previsíveis nem choros piedosos.
Quero amigos sérios, daqueles que fazem da realidade
sua fonte de aprendizagem,
mas lutam para que a fantasia não desapareça.
Não quero amigos adultos nem chatos.
Quero-os metade infância e outra metade velhice!
Crianças, para que não esqueçam o valor do vento no rosto,
e velhos, para que nunca tenham pressa.
Tenho amigos para saber quem eu sou.
Pois os vendo loucos e santos, bobos e sérios, crianças e velhos,
nunca me esquecerei de que normalidade é uma ilusão imbecil e estéril.”